Luísa Opina

Neste blogue comentarei temas genéricos da nossa sociedade.

100 - A Guerra da Ucrânia

Atitudes e opiniões dos nossos “especialistas” que me causam algum engulho...

Sei que já dura há uns tempinhos – desde 24 de fevereiro de 2022, ou seja, há mais de ano e meio – mas, face à continuação de certos factos decidi que estava na altura de falar desta guerra – perdão, desta “operação especial” da Rússia em território ucraniano.

Durante décadas ouvimos falar do tremendo poderio militar da URSS e do facto de ter o segundo exército mais numeroso do mundo, após o chinês. Este era sempre o grande argumento para todo o tipo de cedências, isto para não falar no sempre citado perigo de uma guerra nuclear.

Graças a isto, a dita pôde fazer tudo e mais alguma coisa na sua área de influência, leia-se, na chamada Europa de Leste. Desmantelada a URSS e face a uma aparente abertura da nova Rússia, vieram logos as “boas almas” exigir o fim da NATO, sobretudo quando, um a um, os países satélites se libertaram do jugo soviético. Curiosamente, a teoria do poderio russo mantinha-se, deixando-me a dúvida: se eram assim tão poderosos, porque é que se propunha a gradual desmilitarização do Ocidente?

Ainda mais estranhamente, os mesmos que defendiam não hostilizar a Rússia devido ao seu enorme exército pareciam ignorar relatos credíveis sobre a falta de qualidade militar dos soldados russos, a enorme taxa de deserções, mesmo em tempo de paz, e o tremendo número de oficiais que eram, pura e simplesmente, assassinados pelos seus comandados.

Saltemos agora para a dita “operação especial”. Não sei se repararam, mas o Ocidente, incluindo os EUA, demorou um tempinho a reagir. É que de acordo com todos – ou quase todos os especialistas – só havia um cenário possível: as tropas russas avançavam Ucrânia dentro a seu bel-prazer e sem terem de disparar um tiro, o Zelensky pedia asilo a um país amigo e a Rússia, após ter “libertado” as zonas que lhe interessavam, instalava no poder um lacaio como o que tem na Bielorrússia.

Acompanhei de perto esses primeiros dias e não vi nenhum desses peritos, civis ou militares, acharem que havia uma hipótese, mesmo remotíssima, de as coisas se passarem de outro modo. Mais ainda, perante os primeiros combates e sinais de resistência acérrima dos ucranianos, a opinião generalizada era que o Zelensky estava a sacrificar inutilmente vidas para adiar por uns dias o desfecho inevitável.

O problema é que, ano e meio depois, os mesmos peritos continuam a ter imensa dificuldade em aceitar que a pequena Ucrânia (bom, pequena, comparativamente falando, é claro) tenha ousado desmenti-los fazendo frente ao seu poderosíssimo vizinho e, pior ainda, com algum êxito.

Sim, bem sei que a partir de uma certa altura passou a receber armamento mais ou menos sofisticado e treino militar de vários países, só que, mais uma vez segundo esses “especialistas”, tudo aquilo não devia sequer ter durado esse tempinho.

Não digo que a Ucrânia vá ganhar a guerra no sentido clássico do termo, só que, na minha modesta opinião de não “especialista”, a Rússia já perdeu e em toda a linha. Ora vejamos:

- Ano e meio de resistência abalam, talvez fatalmente, a teoria do poderio militar russo. Mesmo as cidades que disseram ter conquistado nos primeiros meses não passavam de ruínas totais quando os ucranianos finalmente se retiraram do combate por elas. Pior ainda, muitas dessas conquistas foram feitas pelo grupo Wagner e, mal este se retirava, o exército russo que lhe ocupava o lugar ficava em sarilhos.

- Segundo Putin, a dita “operação especial” foi feita para impedir o alargamento da NATO  até às fronteiras russas. Parabéns, obteve, certamente, um grande êxito nesta área. A Finlândia, que sempre se tinha mantido à parte, está agora na NATO e a Suécia só ainda não está porque a Turquia anda com politiquices manhosas. Isto sem contar que é só uma questão de tempo até a própria Ucrânia entrar, sobretudo se o senil da Casa Branca der lugar a um presidente a sério.

- Há ainda a tremenda vergonha de uma grande potência militar – mais uma vez segundo os “especialistas” – ser forçada a comprar drones ao Irão. Drones! Compare-se com o que os EUA conseguiram após Pearl Harbour em termos de construção de tanques, aviões, navios e até porta-aviões... E eles não conseguem fabricar uns miseráveis drones?

- Pouco se fala disso, mas algumas das repúblicas sob domínio russo na Ásia começam a revoltar-se, o que obriga Moscovo a desviar tropas para lá; só que em muitas delas os homens são guerreiros por tradição e se as coisas são difíceis na Ucrânia, ali são bem piores.

- A economia russa vai de mal a pior. Ao contrário do que Putin esperava, o Ocidente não cedeu perante a alta do preço do petróleo nem, mais recentemente, face às suas exigências para renovar o chamado Acordo dos Cereais. E com as negociações em bom ritmo para usar uma rota alternativa via rios, bom, quando se lembrar de negociar a sério já poderá ser tarde.

- Temos também a cena vergonhosa da Rússia a tentar aliar-se à China e até à Coreia do Norte! Só que a China só tem um amigo no mundo, ela mesma, é o tipo de país que, como se diz em bom português, não dá ponto sem nó e é uma grande especialista em prometer sem prometer a sério e, sobretudo, sem cumprir. E a Coreia do Norte, francamente...

- Bom, e para quem tinha dúvidas sobre a “bondade” da Rússia e o seu respeito pelas pessoas, os muitos crimes que têm vindo a lume só deixam dúvidas aos mais “inocentes”. Mas infelizmente para a Rússia e felizmente para o mundo, o PCP é uma raridade...

Perante tudo isto, não é curioso que nas muitas análises diárias que os vários canais dão sobre a Guerra da Ucrânia nunca se fale de nada disto? Que tenham, até, tentado reanimar o fantasma de uma guerra nuclear? O Putin foi burro – ou muito mal informado, mas é o que dá rodear-se dos chamados “yes men” – mas não é suicida.

Mais ainda, quase todas as análises deixam subentendido que os avanços ucranianos não são os desejáveis nem nada de especial, que as coisas correm mal e que é inevitável a sua derrota, deixando no ar a pergunta, uma vez que é esse o único desfecho possível, porque não desistir já e poupar vidas e sofrimento?

Repito, não são favas contadas, mas a Rússia já não vai conseguir o que queria quando arrancou para esta cena, por muito que isso pese aos milhentos analistas e “peritos” que nos invadem diariamente os ecrãs. Lamento informar-vos, mas até agora não têm acertado uma!

Para semana: A cultura do cancelamento Sim, a grande arma do movimento woke.

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