Luísa Opina

Neste blogue comentarei temas genéricos da nossa sociedade.

245 - Adultos, mas não independentes

Falemos dos muitos jovens continuam a depender dos pais até uma idade bastante avançada

Como sabemos, há atualmente muitos jovens adultos que ainda vivem com os pais por não conseguirem arranjar casa e, em muitos casos, emprego. Ouvimos também dizer que isso é escandaloso porque esta é a geração “melhor preparada de sempre”. Mas será mesmo assim?

É claro que se resumirmos o conceito de “preparação” a formação académica, então, sim, nunca houve tantos licenciados e doutorados como agora. Só que, infelizmente, isso pouco significa hoje em dia, precisamente devido à enorme proliferação dos chamados “canudos”, muitos deles em áreas que deviam ser, quanto muito, uma especialização. Em compensação, faltam profissionais em muitas áreas práticas, em que muitas vezes se ganha até bastante mas que são vistas com desprezo por serem trabalho manual.

No fundo, em termos de educação, agimos à “novo-rico”: com a liberalização do ensino superior após o 25 de abril, interpretámos a frase “agora todos podem ir para a universidade” como “agora todos têm de ir para a universidade”, eliminando as alternativas, que ainda não foram repostas na totalidade.

Mas a minha discordância em relação a essa expressão deve-se, também, a outros fatores. É que, sem culpa própria, muitos jovens chegam a adultos sem terem a menor preparação para serem independentes – e não me refiro apenas à vertente financeira. Basicamente, não sabem cuidar de si e, caso arranjassem casa, também não saberiam tratar dela.

Bem sei que antigamente aprender a cuidar do lar era algo destinado apenas às raparigas, mas, curiosamente, há bastantes homens de uma certa idade que sabem cozinhar e fazer outras coisas. Bom, quando saíam de casa – e com famílias numerosas e casas pequenas faziam-no mal arranjavam trabalho (trabalho, não emprego) – não podiam recorrer à Uber ou similares nem a mãezinha vinha em socorro deles, ou seja, tinham de aprender a “desenrascar-se”.

Só que agora, em muitas casas, os filhos e filhas nada fazem, muitas vezes nem as suas coisas arrumam, passando alegremente pela juventude num regime de “cama, mesa e roupa lavada”. Muitos nem hábitos de trabalho aprendem, não faltam pais que acham que os trabalhos de casa são uma violência e que os filhotes têm todo o direito de não os fazerem.

Sim, sei que há bastantes crianças que passam o dia num corrupio, entre a escola e mil e uma atividades, mas o problema aqui é saber quem as escolheu, ou seja, são coisas que gostam de fazer ou que fazem porque os pais querem ou, bem mais provável, porque os amigos as fazem?

O que me leva ao ponto seguinte, a quantidade de jovens adultos que nunca aprendeu a pensar por si. Entre as redes sociais e os maravilhosos currículos cada vez mais “woke” das nossas escolas, aprendem, bem cedo, a só dizer e fazer as coisas “certas” para não serem postos de lado ou pior ainda.

Vejam-se os “climáticos”, por exemplo, tão na moda, ou os meus favoritos, as raparigas, os homossexuais e transgéneros que berram em defesa do Hamas – seria bem giro se fossem passar uns dias naquela zona...

Não nego a ninguém o direito de se manifestar – ênfase em ninguém – mas o que me irrita aqui é que, quando são questionados, limitam-se a debitar uma série de chavões que circulam por aí e demonstram, claramente, que nada sabem sobre o assunto em questão.

Mais ainda, o mesmo assunto é alvo ou não de protestos consoante a origem, ou seja, berra-se contra a proibição de burcas em Portugal por ser contra os direitos das mulheres (!!!) mas nada se diz sobre o modo como são tratadas em muitos países – ou até em cada vez mais bairros europeus.

Uma outra área em que também não fazem o indispensável caminho para a independência é o sexual. Sabiam que as doenças sexualmente transmissíveis estão a aumentar de modo significativo em jovens dos 15 aos 24 anos, isto apesar de toda a educação sexual que recebem? Pois é, com a liberalização do aborto, que é visto como um modo (o único “correto”, até) de contraceção, abandonou-se o velho preservativo, fazendo ouvidos moucos à necessidade de o usar por outras razões. Mas o seu uso é mal visto pelos “bem pensantes”, os “influencers”... torna-se, pois, anátema para quem quer pertencer.

Quanto ao emprego, bom, para começar há uma certa confusão entre trabalhar e ter emprego. Ouvimos muito, “não arranjo emprego na minha área” e é bem verdade. Mas já dizia o Agostinho da Silva, “todos têm o direito de estudar o que quiserem, não têm é depois o direito de exigir emprego nessa área.” Por exemplo, com uma licenciatura em filosofia, à parte dar aulas, que mais se faz? Já agora, é algo que adoro, mas não me ocorreria fazer dela profissão.

O problema aqui é que muitos, enquanto esperam pelo tal emprego à medida, algo condigno dos seus conhecimentos, nada fazem. Ou antes, são perfeitamente capazes de trabalharem uns fins de semana ou umas noites, mas apenas para terem algum dinheiro para umas férias com os amigos ou para os muitos festivais de verão.

Mais ainda, os que continuam em casa dos pais enquanto esperam, contribuem com alguma coisa? Quanto mais não seja, limpam, cozinham, enfim, aliviam um pouco a carga de trabalho dos progenitores? Ou passam o dia nas redes sociais e a jogar no computador?

Dedicarei um post futuro aos muitos jovens que emigram, muitas vezes sem uma noção clara da diferença do custo de vida dos vários países e o que isso significa em termos práticos. Mas para os que ficam, que tal arranjar trabalho para não serem um peso para a família? Sim, trabalho, é que esse não falta e é bem mais digno deitar a mão a qualquer coisa do que viver à custa dos pais.

E sabem que mais? Há sempre a possibilidade de aprender algo novo, de ganhar novas capacidades e, até, de descobrir uma nova vocação.

Para a semana: Férias diferentes. Julho e agosto são, tradicionalmente, época de férias, que tal mudar um pouco isso?

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