Com a minha já avançada idade, acompanhei o grande movimento feminista dos anos 70 e 80. E, como sempre gostei de história, tenho lido bastante sobre o movimento sufragista e a luta de muitas mulheres em finais do século 19 e início do 20 para terem acesso a certos cursos e profissões, nomeadamente medicina – sim, a série Dra. Quinn, retransmitida há pouco tempo no Canal Memória – não surgiu do nada.
Embora muito diferentes no seu âmbito, todos estes movimentos e ações tinham algo em comum: dar opções às mulheres e eliminar as restrições que sofriam pelo simples facto de serem mulheres. Note-se que disse “dar opções” e não encaminhar todas as mulheres para um caminho considerado “certo” pelas feministas dessa época. Ou seja, quem quisesse estudar e / ou ter uma profissão diferente devia ter toda a liberdade de o fazer, mas quem preferisse um papel mais “tradicional”, tudo bem.
O mesmo se aplicava a outras vertentes desse combate, nomeadamente a liberdade sexual e a legalização do aborto.
Comecemos por este. Lembro que na época os métodos contracetivos não estavam muito divulgados e o acesso a eles era muito limitado. Ora agora as coisas são bem diferentes, a contraceção é gratuita e há educação sexual nas escolas. Sendo assim, porque há ainda tantos abortos? Falei disso em O aborto não beneficia a mulher.
Passemos, agora, à vida profissional. Nunca as feministas anteriores imaginaram cotas e similares para garantir aquilo a que as atuais chamam “equidade” – como disse em posts anteriores, acho extremamente curioso que esta só seja exigida quando as mulheres estão em minoria e nunca no caso contrário (por exemplo, em 2020 havia 1072 juízas e só 659 juízes).
Ou seja, enquanto umas, as antigas, diziam que nenhuma mulher devia ser impedida de fazer ou estudar o que quisesse só por ser mulher, as atuais acham que se deve dar uma ajudinha para as guindar a posições onde, se calhar, nem queriam estar ou a estudos que não desejam. Por exemplo, a grande preocupação é agora o facto de em cursos mais tecnológicos, como engenharia, haver menos de 40 % de mulheres. Ou seja, para as atuais “feministas”, não interessa se as mulheres se interessam menos por certos assuntos. Não! Quer queiram quer não terão de os estudar, pelo menos até chegarmos aos números “perfeitos”.
O mesmo com as carreiras, em que ignoram um pequeno detalhe: para muitos homens, o emprego é todo o seu mundo, a sua identidade – daí muitos terem problemas quando se reformam, sem o trabalho já não sabem quem são. Mas para muitas mulheres é apenas uma parte da sua vida – e nem sempre a mais desejada ou apreciada. E se pensarmos bem no assunto, não se chega a um lugar de chefia de uma grande empresa sem nos dedicarmos de alma e coração a esse emprego, em detrimento de uma vida pessoal mais rica.
E quanto a ficar em casa... bom, é admissível fazê-lo durante uns meses se for por licença de maternidade, caso contrário, chovem as críticas. E se uma mulher ousa dizer que prefere cuidar da casa e de cozinhar é olhada mais de lado do que o eram no início do século passado as que decidiam estudar medicina ou outro curso igualmente “pouco feminino”.
Resumindo, as que agora se denominam “feministas” têm como grande objetivo retirar muitas das opções que se põem a uma mulher, todas aquelas com que discordam. Pior ainda, querem mudar a sociedade de cima para baixo e não de baixo para cima, que é a única maneira de as coisas mudarem. Ou seja, como não há impedimentos legais a que uma mulher seja tudo e mais alguma coisa, a mudança de gostos e atitudes perante a vida profissional só virá com alterações nas pessoas e não por decreto.
Temos, também, a liberdade sexual. A ideia era que uma mulher pudesse ser livre nessa área, sem ser ostracizada. Mas, mais uma vez, a versão atual é de uma quase obrigatoriedade de ter sexo. Se uma mulher sem companheiro fixo, seja ou não casada, diz que não o tem há umas semanas ou, horror dos horrores, meses ou até anos, é vista logo como uma coitadinha. E se disser que é por opção, que só o fará quando estiver numa relação séria, puritana é o mínimo que lhe chamarão.
Pelos vistos a única atitude correta é ter sexo apenas por tê-lo, com o primeiro que apareça pela frente. Pior ainda, esta atitude atinge raparigas cada vez mais novas, pressionadas a iniciarem – e manterem – a vida sexual, não pelos rapazes com que convivem mas pelas colegas e amigas, sendo desprezadas, criticadas e bem pior se recusarem. E quanto a falarem do assunto, passou-se da vergonha de dizer que se fazia sexo à vergonha de não o fazer. Mais uma vez, a única opção é a que agrada às tais “feministas”.
Finalmente, um assunto bem recente, o chamado Movimento das Mulheres Conservadoras. Como, ainda por cima, incorpora elementos do Chega, já lhes chamaram tudo e mais alguma coisa, quem ouvir as críticas parece que querem voltar aos costumes e leis do século 17 ou 18!
Não concordo, até porque não sou religiosa – mas dei-me ao trabalho de ler as suas declarações, algo que, a avaliar pelo que dizem, muitos dos seus críticos mais ferozes não fizeram. Mas o que querem é viver à sua maneira, de acordo com as suas opções pessoais. Sim, são contra o aborto – mas, repito, será que se justifica tê-lo como método de contraceção, que é o que acontece agora?
O mais curioso nisto tudo é que quando vemos muçulmanas a defender o uso da burca “porque é o que a sua religião manda”, quem é contra é logo apelidado de islamofóbico, xenófobo, etc. Quando há marchas, que incluem mulheres, a exigir a entrada em vigor da sharia (tão boa para as mulheres...), o mesmo. Mas se algumas mulheres querem viver de acordo com as regras cristãs, as mesmas “feministas” que se calam nesses casos, quando não os aplaudem, entram logo ao ataque?
Se a Gloria Steinem e as outras feministas vissem o atual rumo do feminismo...
Para a semana: Clima e ambiente Há muito a fazer nestas áreas, mas sem cair na esparrela dos "climáticos" e similares