Luísa Opina

Neste blogue comentarei temas genéricos da nossa sociedade.

248 - Os novos "paizinhos"

Estamos rodeados de tentativas para limitar as nossas liberdades... mas para o nosso bem, claro!

Tradicionalmente, um dos papéis dos progenitores era proteger os seus filhotes de perigos que os pudessem ameaçar, na sua maioria externos. Mas há atualmente uma dicotomia curiosa na nossa sociedade – e não me refiro apenas à portuguesa mas ao chamado Ocidente.

Por um lado, envolvemos os nossos filhos – e a nós próprios – em algodão em rama. Parques infantis com chão apropriado, proibição de jogos físicos considerados mais violentos, colocar todo o tipo de proteções na casa e no carro, a não frequência de certos lugares, a alimentação... enfim, um sem número de atos protetores que, infelizmente e em muitos casos, têm como consequência direta a criação de jovens e adultos incapazes de enfrentar a menor contrariedade que se lhes atravesse no caminho.

Da parte física passámos à moral, digamos, com a tentativa de proibir tudo o que possa ofender – e atenção, como este é um termo muito vago, optou-se por aceitar que é ofensa se o ofendido assim o entender. Mas só em certos casos, claro. Por exemplo, fazer bullying a um autista é, se não aceitável, pelo menos ignorado, mas tudo o que possa ser visto como racismo (nunca contra brancos, evidentemente), etc. passa logo a crime capital.

Falei em dicotomia porque os mesmos pais que tomam mil precauções físicas entregam, sem pestanejar, a educação da sua prole ao Estado, muitas vezes sem sequer se preocuparem em saber o que lhes é ensinado, ou antes, enfiado goela abaixo nas escolas que frequentam. Ou seja, acabou a ideia de que a família educava e a escola ensinava, pior ainda, pais que a queiram seguir são alvo do que só se pode chamar perseguição – veja-se o caso dos dois irmãos que os pais não queriam que frequentassem as supostas Aulas de Cidadania.

Uma outra curiosidade é que os mesmos que berram e barafustam contra jogos “reais” que consideram violentos nada têm a dizer em relação aos videojogos que a sua prole usa para se divertir e que, francamente, são muitas vezes de uma violência de estarrecer.

Mas o que me preocupa é a reviravolta, ou antes, a evolução há muito antecipada por analistas a sério, que esta proteção está a tomar. Começou-se com a cena de proibir as redes sociais a menores. Curiosamente, não vejo perguntarem como é que o vão fazer, a versão mais divulgada é que incluirá a identificação completa do menor se este quiser aceder à Internet.

Já pensaram bem no que isto implica? Ou seja, navegar deixa de ser anónimo, tudo o que fazem passa a ficar registado. Ah, mas é para proteger esses menores dos malefícios das redes sociais, por isso está tudo bem! Mas estará? Sempre achei curioso que, quando enfrentam a escolha entre educar e proibir, os “iluminados” do costume optem sempre pela proibição.

Não seria bem mais útil – e menos perigoso – educar as crianças, e não só, para não se deixarem levar pelo que veem nas ditas redes, nomeadamente quando são alvos de ataques ou do chamado “grooming”? Mais ainda, não compete aos pais definir normas sobre o uso da Internet, adaptando-as à idade dos filhos e pondo restrições ao tempo de uso? Curioso, quando se fala em manuais virtuais berram logo que as crianças já passam muito tempo presas a ecrãs... ou seja, videojogos, Internet, televisão... tudo bem, só há problema quando se trata de livros de estudo.

Mas, como se trata de menores, ainda poderíamos aceitar este tipo de medidas, uma vez que muitos pais não são capazes de impor limites em casa, por desconhecimento do assunto ou falta de vontade de serem vistos como “os maus” da festa. O problema é que bem sabemos que isto não vai ficar por aqui, como já se vê em muitos lugares onde a simples ida a um site que desagrada aos bem-pensantes fica registado.

Ouve-se cada vez mais falar em impedir o acesso a certos livros, ideias, etc., sempre com o argumento de que é para nos proteger, nós, os coitadinhos, dos malefícios a eles ligados. Atenção, não é censura, nem pensar, é só dividir as coisas em boas e más e permitir apenas o acesso às primeiras. Quantas universidades, incluindo algumas portuguesas, retiram o convite a oradores ou tudo fazem para expulsar docentes que não encaixam no discurso permitido pelos “donos da verdade”?

E já pensaram que o sistema a ser implementado para impedir o acesso de menores a redes sociais poderá ser facilmente alargado a todos nós? Gostaria de saber que tudo o que pesquisa, os sites a que acede, o que escreve poderá ficar registado e guardado? Sim, poderá dizer, mas eu não faço nada de mal! Pois é, isso já foi verdade, agora os queridinhos woke encontram crimes em tudo e mais alguma coisa e a lista está sempre a aumentar.

E caso tenha andado distraído, a União Europeia quer muito aprovar uma lei que permite ler as mensagens privadas de todos os cidadãos – ainda não foi desta, mas, acredite, voltarão à carga em breve. Também aqui tentam vender a ideia de que é para nos proteger de redes pedófilas e criminosos similares. Mas, mais uma vez, a realidade é outra.

O conteúdo sexual pernicioso prospera, incluindo a chamada pornografia de vingança, mas muitos cidadãos estão a ser assediados e até acusados por pequenas coisas que escreveram a amigos e que não incomodam ninguém exceto os ferozes defensores da “democracia” e da “liberdade de expressão” – termos entre aspas porque, como muitas coisas atuais, adquiriram todo um novo significado, por exemplo, umas centenas de juízes alemães quer proibir o partido de extrema-direita para “proteger a democracia”.

Bom, aqui também grassa a mesma ideia, defende-se a liberdade de expressão proibindo e tenta-se “salvar” a democracia denegrindo e tentando proibir partidos que lhes desagradam e que, curiosamente, nunca são de esquerda, mesmo quando tiveram (ou têm) fortes ligações a movimentos terroristas, ditaduras ferozes, traficantes de drogas...

Resumindo, com tantos “paizinhos” a trabalhar para nos proteger de todos os malefícios em breve teremos o cenário do filme Alphaville, uma obra de Godard de 1965 que decorre numa cidade futurista liderada por um computador e onde só se podem usar palavras que constem de um pequeno livro – cada vez menor, diga-se de passagem.

Para a semana: O novo feminismo Se as feministas originais vissem o mundo atual...

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