Luísa Opina

Neste blogue comentarei temas genéricos da nossa sociedade.

254 - "Ler" as notícias e não só

O que fica por dizer pode ser mais importante do que o que é dito

Quem me costuma ler sabe que os “jornalistas” são um dos meus temas recorrentes, nomeadamente em Jornalismo ou jornalixo?, Jornalismo ou jornalixo? Parte 2 e Fake News, fora várias referências em posts sobre diversos assuntos. E, quando digo jornalistas, não me refiro apenas aos membros desta profissão mas também aos mil e um comentadores que pululam por tudo o que é comunicação social.

Sim, a culpa não é só deles, todos sabemos que quem não alinhar pela cartilha esquerdista e woke não arranja emprego ou, no caso dos comentadores, nunca mais é convidado a expressar as suas opiniões – veja-se o caso recente de Irineu Teixeira, que passou de comentador diário no canal NOW a uma rubrica ao domingo, “com horário a determinar” (apesar de me ter ficado a ideia de que voltaram atrás nisso, pelo menos vi-o durante esta semana).

Infelizmente, nada disto é recente – e não me refiro aos tempos do Estado Novo, pelo menos aí a censura era às abertas e não encapotada como a que existe atualmente, assunto de que também já tenho falado. Sendo assim, desenvolvi há muito algumas técnicas, digamos, para tentar descobrir, o melhor possível para uma “civil”, o que se passa.

A primeira é, muito simplesmente, tentar encontrar fontes que corroborem o que foi dito e opinado. Mas está a ser cada vez mais difícil, a maioria esmagadora dos nossos meios de comunicação social – e não falo só dos portugueses – limita-se a “copiar e colar” o que outros dizem, nomeadamente a famigerada Agência Lusa. Mas, com algum tempo e trabalho, lá se vai encontrando alguma coisita, na Internet, claro, com a dificuldade associada de termos de tentar separar o trigo do joio, que é abundantíssimo.

Há também um detalhe que se mantém em relação aos nossos canais televisivos durante os noticiários: as notícias mais importantes passam, muitas vezes, apenas no rodapé (que em alguns é no topo do ecrã...). Experimentem lê-los, comparem com o que é dito e mostrado no ecrã em si e vejam se tenho ou não razão. E não me refiro, por exemplo, a resultados do futebol, não faltam programas totalmente dedicados a este assunto. Sim, sei que não se pode falar de tudo no período reservado às notícias, mas não deixa de ser curiosa – e muito elucidativa – a seleção que é feita sobre o que consideram ou não importante.

Temos, depois, os eufemismos, por falta de um termo melhor, com que muitos começam a estar bastante familiarizados – sabem, rixa entre “famílias”, um grupo de “pessoas” atacou ou, o mais recente, “uma pessoa de nacionalidade portuguesa”, apesar de todos sabermos que isso pouco ou nada significa numa época em que se oferecem mais Cartões de Cidadão portugueses do que bombons no Natal.

Temos, depois, os títulos. Sim, bem sei que um título apelativo é meio caminho andado para atrair leitores, como recomendam todos os livros e cursos sobre como publicar um livro, para além de ser uma verdadeira arte conseguir resumir em poucas palavras algo por vezes bem longo. Só que, bem à semelhança do que se passa com muitas capas de livros, esses títulos não têm, a maioria das vezes, nada a ver com a história contada. Pior ainda, deturpam-na.

Por exemplo, há uns anos o New York Times publicou uma notícia com o título garrafal, “Empresa de Trump só pagou 20 dólares de impostos” (não me lembro bem da quantia, mas era entre 20 e 30 dólares). Conhecendo a “isenção” deste jornal, dei-me ao trabalho de ler o longuíssimo artigo. Após um texto súper denso, capaz de fazer sono a qualquer insónia digna desse nome, lá vinha, finalmente, a explicação. Nos EUA, quem paga o equivalente ao nosso IRS ou IRC, tem as mesmas duas opções básicas que nós temos: pagou um valor insuficiente ou pagou demasiado. Só que, neste caso, há também duas opções: receber o excesso que lhes é devido ou deixá-lo numa conta das Finanças para pagar impostos futuros – opção que muitas empresas adotam. Adivinham o que tinha acontecido aqui? Pois, os tais 20 dólares era o que faltava em relação a excessos acumulados durante uns anos.

Já referi, também, anteriormente, que o que não é dito é muitas vezes mais importante do que o que o é. A Meloni, por exemplo. Depois de tantas previsões de catástrofe, seguiu-se um silêncio atroador e quase constante. Tradução? Ela estava a fazer um bom trabalho.

Temos, também, algo que já tenho referido, as notícias que surgem com grande pompa e circunstância e depois desaparecem sem deixar vestígios e sem qualquer explicação ou solução. Ou, então, vão “deslizando” discretamente da primeira página para outras interiores (ou o famoso rodapé televisivo). Isto ocorre em todas as áreas e, como sou curiosa por natureza, acabo por tentar descobrir o que terá, de facto, acontecido. Isto para não mencionar os tais comentadores que, apesar de erraram muitas vezes – alguns, quase sempre – nunca, mas mesmo nunca o referem, seguindo em frente como se nada tivessem dito.

E há ainda a memória seletiva da comunicação social em relação ao que políticos e partidos dizem ou fazem. Consoante sejam ou não do seu agrado, temos um relembrar constante de atos e afirmações passadas ou o tal silêncio mais do que atroador. O PS, por exemplo. Não é curioso que quando vêm culpar o atual Governo por todos os males do país – e sim, tem bastantes culpas no cartório – nunca haja quem lhes pergunte porque não aplicaram essas soluções milagrosas nos muitos anos que governaram, alguns deles com maioria absoluta?

Mas se for o Cavaco ou, pior ainda, o Passos Coelho a abrirem a boca, então, sim, recordam tudo com o máximo detalhe, mesmo quando não aconteceu, como ainda continuarem a afirmar que foi o Passos quem chamou a troika.

Pois é, por este andar, em vez de um curso de jornalismo passa a ser preciso um de como ler as notícias – bom, se for dado pelos “Donos da Verdade”, de pouco ou nada servirá...

Para a semana: O novo pão e circo? Dos anúncios de "benesses" aos pobrezinhos à saturação do futebol

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