Há um “detalhe” na vida moderna que sempre me intrigou. Surgem a toda a hora engenhocas de todos os tipos para nos poupar tempo e facilitar a vida mas, espantosamente, temos cada vez menos tempo para viver, parece, até, que os dias encurtaram e que deixaram de ter horas suficientes para tudo o que precisamos – ou julgamos precisar – de fazer. Ou seja, andamos sempre numa lufa-lufa, a fazer várias coisas ao mesmo tempo e a deixar por fazer outras tantas, sem tirarmos um momento para apreciar o simples facto de vivermos.
Pois bem, há quem não se fique pela estranheza, o número de pessoas que adota a chamada “vida lenta” aumenta dia-a-dia, sobretudo nos países ocidentais que atingiram a modernidade muito antes de nós. Só um esclarecimento, “vida lenta” não significa agir à velocidade da lesma mas sim apreciar cada momento, dedicar toda a nossa atenção ao que estamos a fazer e a viver.
Esta atitude deriva – e é uma consequência lógica – do movimento Comida Lenta, que surgiu nos anos 80 como reação à chamada “comida rápida”, sobretudo a das cadeias McDonald e similares. Dava ênfase ao consumo de produtos locais, a modos de cozinhar tradicionais e ao uso de ingredientes frescos e de boa qualidade. Daí o movimento “vida lenta” realçar a qualidade em vez da quantidade, viver no presente e uma maior interligação entre pessoas e entre estas e o ambiente.
O movimento tem alastrado e já há “cidades lentas” em vários países, que tentam encontrar um ponto de equilíbrio entre global e local mas de modo a manter – ou reviver – o que é único naquela zona. De certo modo, o número cada vez maior de povoações portuguesas que recriam festas e comidas tradicionais antigas são um exemplo disto.
Temos, também, um outro fenómeno cada vez mais visível no Ocidente, a mudança de profissão e / ou de local de residência de muitos profissionais que adotam um modo de vida mais simples e calmo apesar de isso implicar uma redução por vezes enorme nos seus rendimentos. Por exemplo, médicos de topo num bom (e caro) hospital de uma grande cidade que decidem abrir uma pequena clínica numa vila provinciana.
Penso que já referi anteriormente um programa que passou na RTP1 chamado Repovoadores, que mostrava, precisamente, pessoas que se estão a mudar para zonas mais rurais – ou a regressar a elas – para poderem ter uma vida mais calma e, acima de tudo, mais equilibrada. Mostraram reformados, claro, portugueses e estrangeiros, mas também jovens e pessoas de 30 ou 40 anos, com bons empregos e uma vida organizada e que decidiram mudar tudo isso para “terem tempo”.
Se pensarmos um bocadinho, de que serve ter um bom salário e muitos bens materiais se não temos tempo para relaxar e apreciar a vida? Curiosamente, fica-nos a sensação de que numa época em que o horário laboral era bem mais longo as pessoas tinham mais vida pessoal e sabiam aproveitar ao máximo os parcos momentos de lazer que tinham – talvez por não estarem sobrecarregadas com as tais engenhocas que “facilitam a vida”, como o telemóvel...
Os físicos antigos diziam que a natureza tem horror ao vácuo. Pois bem, fica-me a ideia de que as pessoas atuais têm, na sua maioria, o mesmo tipo de horror a estar sem fazer nada. Ou seja, perdeu-se a arte da quietude. Atenção, quando digo “sem fazer nada”, é mesmo nada, não é estar ligado ao telemóvel, ao computador ou à televisão – ou até, pelo menos dois deles ao mesmo tempo.
Não, refiro-me a parar todo o ruído de fundo e concentrarmo-nos numa única coisa, seja relaxar, apreciar a natureza, conversar – cara a cara – com alguém, enfim, viver no momento. Sim, bem sei que a vida pode ser complicada e não o permitir, com mil e uma coisas a puxarem por nós, todas elas urgentes e todas a precisarem da nossa atenção.
Mas que tal começar a abrandar devagarinho, os tais “passinhos de bebé” tão usados em filmes, séries e livros? Por exemplo, à hora das refeições, ponha o telemóvel de lado e desligue a televisão, concentre-se apenas no que come e, caso esteja acompanhado, restaure uma outra arte perdida: conversar. Tente arranjar um bocadinho de tempo só para si, para um pequeno passeio, para ler ou, muito simplesmente, para relaxar. Resumindo, reduza o frenesim da sua vida, nem que seja só um niquinho.
E a médio e longo prazo, porque não avalia outras opções para si? Por exemplo, com a balbúrdia e insegurança crescente nas grandes cidades, isto para não falar no preço da habitação que não para de subir, sempre me meteu confusão haver inúmeras vagas em cidades e vilas do interior que ficam por preencher – e isto só no setor público. Mesmo no privado, vemos que não faltam oportunidades para quem se disponha a arriscar um bocadinho ao mudar-se para um local onde a vida é mais lenta e onde, muitas vezes, o dinheiro rende bem mais. Faça um teste, pegue no valor da prestação ou renda da sua casa e veja o que isso lhe daria numa zona do interior – aposto que ficaria surpreendido.
Voltando às engenhocas, penso que o grande problema não está na sua existência mas no que fazemos com elas. O telemóvel, por exemplo. Fabuloso para nos permitir mantermo-nos em contacto onde quer que estejamos, muito necessário para que pessoas mais vulneráveis se sintam mais seguras sabendo que poderão pedir rapidamente ajuda, enfim, é mesmo algo que nos facilita a vida.
Mas... claro, lá vem o mas, passou rapidamente de ajuda a grilheta. Podermos estar em contacto transformou-se em obrigação de estarmos contactáveis, o ser mais fácil falar de nós e do que nos interessa passou a “se não está nas redes sociais não existe” – sim, irónico, isto é um blogue... Ou seja, em vez de um auxiliar passou a comandar as nossas vidas.
Talvez seja altura de dizermos não ao frenesim contínuo e tentar encontrar um pouco de equilíbrio entre atividade e relaxe (no verdadeiro sentido deste termo). Ou seja, abracemos a vida lenta – mas sem exageros, claro, lá diz o velho ditado, no meio é que está a virtude.