Luísa Opina

Neste blogue comentarei temas genéricos da nossa sociedade.

252 - Mulheres conservadoras

A propósito da verdadeira histeria em torno deste movimento

Confesso que nem teria reparado no anúncio de um futuro movimento chamado Mulheres Conservadoras se não fossem as inúmeras reações histéricas – sim, no sentido clássico do termo – que despoletou. Li de tudo, desde quererem voltar ao tempo do Salazar a afirmarem que defendiam que as mulheres não deviam ter o direito de voto. As vozes mais calmas limitaram-se a dizer que não havia necessidade de um movimento desses no nosso país. E, num debate envolvendo a tão vilipendiada Rute Sousa a sua adversária fartou-se de perguntar, “Mas o que há de tão errado na nossa sociedade?”

Acho extremamente curioso que sempre que alguém se afirma conservador acenem logo com o fantasma do Estado Novo, quase sempre debitando uma série de mentiras – desta vez, a escolhida foi que nessa altura as mulheres precisavam da autorização do marido para serem operadas.

Mas vamos ao tema em si.

A primeira crítica que fazem a estas mulheres é pretenderem pôr de lado os direitos conquistados para a mulher pelas feministas ao afirmarem que querem cuidar da família.

Pois bem, os que as feministas dos anos 60 pretendiam era dar opções às mulheres para que pudessem fazer o que quisessem, fosse estudar, trabalhar ou, sim, ficar em casa. Mas para as atuais, uma mulher que afirme querer este último modo de vida sofre todo o tipo de críticas e olhares de lado. Sobretudo se, ao contrário da primeira hipótese sempre dada, o queira fazer por vontade própria e não por imposição masculina. No fundo, é vista como uma traidora à causa feminista. Curiosamente, uma mulher que se dedique de alma e coração ao emprego, deixando casa e filhos de parte, é igualmente vilipendiada. Pois, é o velho “preso por ter cão e preso por não o ter”.

Mais ainda, “cuidar da família”, como disseram essas mulheres, não significa necessariamente limpar e cozinhar. E muito francamente, acho que já é mais do que altura de quem tem filhos, seja homem ou mulher, lhes prestar mais atenção e não deixar a sua educação nas mãos do Estado. Ou acham preferível que seja este a vigiar, sabe-se lá como, redes sociais, por exemplo, quando os pais nem sabem o que os filhos ali fazem? E são às vezes bem pequenos – lembro-me que algures na América do Sul uma família está a processar o Facebook e outros por danos causados ao filho de 8 anos... pois, é mais fácil deitar as culpas do que educar os rebentos e acompanhá-los a sério.

Um outro aspeto muito focado foi o da vida sexual, afirmando-se que queriam voltar ao tempo em que todos eram tão pudicos, pelo menos em público. É que, para as novas “feministas” e não só, liberdade sexual significa a obrigação de ter sexo, independentemente de com quem.

Se não têm uma relação estável, façam esta pequena experiência: digam a um grupo de amigas ou conhecidas que estão “a seco” há várias semanas ou, pior ainda, que se estão a guardar para quando tiverem uma boa relação. Acreditem, no mínimo serão olhadas com o tipo de piedade reservado aos mais carenciados da sociedade.

É que, segundo parece, uma mulher “a sério” tem de ter vida sexual intensa, nem que isso signifique andar por lugares noturnos a “ligar-se” ao primeiro que lhe apareça pela frente. Conter-se não é visto como respeito pelo próprio corpo mas como saudosismo pelo tempo do Salazar, claro. Ou seja, a escolha só é da mulher se coincidir com a opinião das autointituladas defensoras dos direitos das ditas.

Finalmente, o aborto, a parte que mais tinta fez correr. Vieram logo, claro, as histórias, infelizmente trágicas, dos abortos clandestinos. O problema é que muita coisa mudou entretanto. Há educação sexual nas escolas e, para além de haver vários tipos de contraceção, esta pode ser gratuita, se for obtida através do Serviço Nacional de Saúde.

Mas, pelos vistos, tudo isto cai em saco roto, ou acham que os 18 601 abortos realizados em 2024 foram resultaram todos de falhas na contraceção ou se deveram a uma violação? Pequeno detalhe, estes casos representam menos de 0,1 % do número de abortos realizados – pois é, graças à TV, todos sabem do ADN...

E não incomoda minimamente as ditas feministas que o número de doenças sexualmente transmissíveis esteja a aumentar de forma preocupante entre os jovens. Vi há pouco tempo umas entrevistas feitas a jovens sobre o uso dos preservativos. Pois bem, eles não os usavam porque, “elas que se cuidem, se ficarem grávidas, podem fazer um aborto”. E muitas das raparigas não os exigiam “porque eles não gostam” – uau, poder feminino!

Sei que o grande argumento é que o aborto é uma opção da mulher. E até concordaria, se fosse realmente isso: uma opção. Mas sejamos realistas, se uma rapariga descobre que está grávida e não sabe o que fazer ou, até, como contar à família, e vai a uma consulta, que opções lhe dão? Aborto ou, basicamente, estás por conta própria.

Para mim, a interrupção da gravidez só seria, de facto, uma opção se a mulher em causa tivesse acesso a outras: ser encaminhada para um serviço que lhe indicasse o tipo de apoios, financeiros e não só que poderia ter se continuasse com a gravidez, o que fazer se quisesse dar a criança para adoção e, até, o que seria ouro sobre azul para uma menor, ter quem a acompanhasse para falar com a família. E se, perante tudo isto, quisesse, de facto fazer um aborto, então teria sido, de facto, uma decisão informada.

Pequeno detalhe, tenho a certeza de que a legalização do aborto não foi feita para que se tornasse um substituto da contraceção – pergunto-me, quantos daqueles 18 601 abortos foram de “repetentes”?

Resumindo, ser conservadora não significa querer voltar a anos passados mas, muito simplesmente recuperar coisas que nunca devíamos ter perdido: o facto de que educar compete aos pais (à escola compete ensinar), o direito da mulher poder optar pelo estilo de vida que mais lhe agrada e o respeito pelo seu corpo.

E para quem diz que não é preciso um movimento destes, discordo, é um modo de muitas mulheres que nem se atrevem a falar das suas escolhas por medo de serem insultadas ou ostracizadas verem que não estão sós.

Para a semana: “Ler” as notícias e não só. O que fica por dizer pode ser mais importante do que o que é dito

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