Com a minha idade avançada, já passei por inúmeros e variados “pânicos” climatéricos, como o buraco do ozono, o aquecimento global, as alterações climáticas, a subida dos oceanos e sabe-se lá que mais.
Já falei várias vezes deste assunto, nomeadamente em O céu está a cair, que contém algumas “previsões” extremamente interessantes, sobretudo por serem feitas a curta distância – por exemplo, Manhattan ficaria submersa até 2018 devido à subida dos mares, previsão feita em 2008! Já agora, facto curioso, muito do que era então dito oscilava entre um aquecimento catastrófico do nosso planeta e entrarmos claramente numa Idade do Gelo. E também em É o clima!, este bem apropriado ao que se passa agora porque refere, precisamente, épocas recentes – historicamente falando – de muito calor.
Pois bem, como é uma área em que se está sempre a inovar, bom, pelo menos na linguagem, surgiu agora a expressão “Estação do Perigo”. Ou seja, de acordo com as “sumidades” que se dedicam ao clima na comunicação social e não só, passaríamos a ter cinco estações do ano e não quatro, com a quinta, a tal Estação do Perigo, a ocupar uma boa parte do antigo verão.
Começo por dizer que não duvido que estamos a passar por períodos muito quentes, mas dá-me arrepios ouvir dizer “as maiores temperaturas desde sempre” e outras expressões similares. E porquê? Bom, a Terra tem uns 4,5 mil milhões de anos, os chamados humanos modernos surgiram há uns 300 000 anos e os primeiros registos meteorológicos datam de finais do século 18, abrangendo apenas alguns locais específicos – a nível global, os dados são muitíssimo mais recentes. E afirmam que é “o verão mais quente de sempre”?
Bom, passando a algo mais prático, o modo como enfrentamos o calor, há, de facto, vários problemas. Como o modo como construímos as nossas habitações, onde impera o mito do “clima ameno” em Portugal – resultado, temos casas frias no inverno e quentes no verão e não há vidros duplos que aguentem uma vez que as paredes externas não têm qualquer tipo de isolamento.
Pior ainda, prevejo que nos chegará em breve a “moda” vigente em alguns países europeus, nomeadamente a França, de proibir o uso do ar condicionado devido a um gás contido nos aparelhos e que é mau para o clima, dizem. E os climáticos lá do sítio berram que em vez disso temos de alterar as casas e plantar árvores em todas as ruas para refrescarem as habitações.
E eu até estou de acordo, já é mais do que altura de exigir que construções novas sigam novas regras quanto ao isolamento. Mas... e os milhões e milhões de prédios, casas e similares já existentes? Já fizeram as contas a quanto custaria uma adaptação dessas? E quem pagaria, atendendo a que muitos nem dinheiro têm para pôr janelas de vidros duplos? Mais ainda, seria viável em todos esses edifícios?
Quanto às árvores, não deixa de ser curioso, pelo menos para mim, que os mesmos que exigem que se plantem em tudo quanto é sítio e desatam a berrar sempre que se abate uma, independentemente do perigo de uma queda iminente, são os mesmos que defendem as mega centrais solares que vão tapar, totalmente, muitos quilómetros quadrados de terras onde seria bem mais lógico – e útil – ter agricultura ou, no mínimo, plantio de árvores e arbustos.
Passemos agora ao que as Câmaras fazem face a uma vaga de calor – ou à Estação do Perigo, se quisermos estar atualizados.
A Câmara de Lisboa, por exemplo, vedou o acesso a muitos parques florestais “por causa do perigo de incêndio”. O que me deixa curiosa, como é que se impede a entrada em Monsanto, por exemplo? E se isso significa patrulhar a zona, porque não se permite a sua frequência uma vez que a zona vai ser vigiada? É que, muito francamente, em dias bem quentes apetecia mesmo ir apanhar fresco numa zona frondosa!
Mais ainda, que tal incentivar o uso de jardins públicos, onde está bem mais fresco, colocando mais bancos, permitindo mais quiosques ou similares de venda de petiscos e bebidas frescas, enfim, mostrando que são uma boa – e barata – alternativa para o pico do calor diário em que muitas casas são um forno.
Este ano houve também uma outra novidade, algumas Câmaras e Juntas de Freguesia criaram refúgios climatizados para se fugir ao calor. Curiosamente, o Metro de Lisboa faz isso há anos, nos dias mais frios do inverno e nos mais quentes do verão abre algumas estações durante a noite para os sem-abrigo ali poderem dormir em condições mais amenas.
Aprovo, claro, esta nova iniciativa, mas, num país em que a menor coisa é anunciada e publicitada vezes sem conta, ficou-me a ideia de que esta não o foi devidamente. Quantas pessoas, sobretudo idosos a viverem sozinhos, souberam da sua existência? Ora como ouvimos repetir à saciedade, os “velhinhos, coitadinhos” – expressão que odeio, diga-se de passagem – são os mais vulneráveis, antecipando-se, sempre, um aumento da sua mortalidade por causas associadas ao calor.
Se estamos tão preocupados com o envelhecimento da população, não era altura de cada Junta de Freguesia fazer um levantamento dos idosos sozinhos a residirem na sua área de influência, implementando medidas de verificação do seu bem-estar e, no verão, a criação de um refúgio climatizado onde pudessem passar uma boa parte do dia e a sua divulgação atempada?
Já agora, penso que estes refúgios deviam ser algo mais duradouro, não se limitando a abrir quando há picos fortes de temperatura. Há, certamente, em muitos edifícios de Juntas e Câmaras uma sala não utilizada que podia servir para este fim. Ou qualquer espaço público onde a temperatura interior seja mais amena do que a exterior – eu ia dizer escolas em período de férias, infelizmente muitas têm condições péssimas em termos de proteção do clima, até as que foram alvo da ação da Parque Escolar do tempo do “saudoso” Sócrates.
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