Luísa Opina

Neste blogue comentarei temas genéricos da nossa sociedade.

102 - E começam as aulas

A propósito da campanha eleitoral na Madeira e não só

Uma das (muitas) coisas que sempre me intrigaram em Portugal tem a ver com o início do ano letivo, mais especificamente, com a sempre repetida afirmação de que há alunos sem professores. O número de docentes em falta pode variar mas existe sempre.

E é claro que um valor pequeno com um governo dito de direita é gravíssimo, mas se quem manda for de esquerda, bom, é apenas um pequenino percalço que não vai afetar a qualidade do ensino – infelizmente, até são capazes de ter razão (ver o final deste post). É que fica-nos a ideia de que os nossos alunos são como a Itália que, segundo dizem, funciona melhor quando não tem governo... ou seja, aprendem mais sem professores oficiais!

Mas vamos por partes.

A menos que tenha havido uma hecatombe totalmente inesperada que só atingiu quem dá aulas em escolas públicas, o número de docentes disponível é, ou devia ser, conhecido no final do ano letivo anterior. Mesmo as reformas antecipadas não são instantâneas, por isso sabe-se à partida quem vai sair e quem vai estar disponível para entrar. Já agora, o número de alunos por escola também é sabido, uma vez que as matrículas têm de ser feitas com antecedência.

Mais ainda, andamos há anos a ouvir sindicatos e organizações diversas de professores a queixarem-se de que há dezenas de milhares de novos professores que não conseguem colocação, ano após ano. Pois, serei a única a estranhar esta contradição? Ou o problema estará, como quase sempre, na total desorganização de quem manda?

Acham que exagero? Descobri há uns tempos que se uma professora começa o ano letivo bem grávida, sabendo-se, pois, à partida que irá ter a criança ainda em período de aulas, a escola tem de esperar que entre em licença de maternidade para então pedir a sua substituição, o que demora, claro, algum tempinho!

Outra queixa mais do que usual e não apenas nesta época do ano tem a ver com o tamanho das turmas. Este artigo do Obervador já tem uns anos, mas, pelo que vi na PORDATA, a situação não mudou muito. E será que uma turma ter 25 ou 35 alunos altera assim tanto os resultados? Não, a fazer fé nos estudos de Eric Hanushek, um economista de renome especializado em serviço público, sobretudo na parte da educação, e que deu em 2015 uma conferência em Portugal patrocinada pela Gulbenkian.

Para ele, o fator mais importante está na qualidade e eficácia dos professores, que deve ser analisada face à progressão dos seus alunos. Ou seja, exames centralizados para os alunos no início e no fim de um ciclo educativo para se poder ver a sua evolução, positiva ou negativa. Sim, já sei, que horror, as criancinhas a serem sujeitas a testes a sério, que trauma!

É claro que isto só funcionaria se houvesse uma verdadeira descentralização do ensino, com os conselhos diretivos das escolas a poderem contratar o seu pessoal docente – e já chega de ouvir o choradinho da perseguição política, do “não gostam de mim porque sou... (acrescentar um dos muitos termos usuais), enfim, as desculpas usuais para isto não ser implementado. É claro que isso implicaria o despedimento de professores com mau desempenho continuado e a oferta de bónus aos excecionais, tudo devidamente justificado.

Já agora, acompanhar esta medida com uma revisão real do código de disciplina das escolas para que alunos (e os respetivos pais) indisciplinados possam ser punidos a sério em vez de se permitir, como agora, que perturbem quem tem a ilusão de que se está na escola para aprender.

Voltando ao tamanho das turmas, há um ponto que gostaria que me fosse devidamente esclarecido. O que é que prejudica mais um aluno, estar numa turma demasiado grande ou passar pela perda de tempo e transtornos de ir parar a uma escola muito distante do seu local de residência e muitas vezes sem transportes diretos? Porque não experimentam perguntar-lhes?

Isto sem falar na situação atual da pré-escola, que continua sem vagas para todas as crianças que dela precisam – mas tudo bem, ficam em casa ou os pais têm de pagar um balúrdio mensal para as pôr num estabelecimento privado, nada recebendo em troca do muito que pagam em impostos, pelos vistos é bem melhor do que ficarem numa turma acima da dimensão considerada desejável.

Temos também o tema recorrente dos professores deslocados para fora da sua área de residência, mesmo quando são jovens recém-formados e sem família constituída. A fazer fé nos sindicatos, as escolas deviam concentrar-se todas nas zonas de preferência dos docentes, os alunos, esses, têm bom remédio: a família muda-se ou têm deslocações de horas até à grande cidade mais próxima!

Talvez seja altura de lembrar aos senhores professores que funcionário público é – ou devia ser – alguém ao serviço do público e não o contrário, como parecem pensar. Mas há um ponto em que concordo, acabar com as colocações ano a ano. Ou seja, há uma escola numa vila do interior a precisar de professores? Pois bem, quem lá for colocado é “para sempre”. Acho inadmissível que quem não vive num local preferencial veja a educação dos seus filhos a ser considerada uma provação terrível, quase um castigo! Nesta época em que tanto se fala em igualdade, perdão, em equidade, será justo ver uma escola em Paio Pires como indesejável só porque está longe?

Um último ponto. Nos últimos anos temos assistido, para além dos queixumes acima expostos, a manifestações, greves e todo o tipo de perturbações por parte de sindicatos e organizações similares por causa das carreiras – de que falarei num outro post – e salários. É claro que o argumento é sempre o mesmo, a defesa da “qualidade do ensino”...

Bom, talvez fale só por mim, mas quando ouço um sindicato – ou uma Ordem, já agora – a falar em defesa da qualidade e em interesse público fico logo de pé atrás. A menos que se considere que o “público” em questão se restringe aos seus associados...

Enfim, quem tem filhos em idade escolar que se prepare, vão ter mais uma repetição do cenário usual.

E por falar em “qualidade do ensino”, li esta semana um artigo muito, mas mesmo muito interessante: Escola e facilitismo. Boas aulas!

Para semana: Democracia  A propósito da campanha eleitoral na Madeira e não só

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