Luísa Opina

Neste blogue comentarei temas genéricos da nossa sociedade.

105 - Israel e quejandos

A propósito do que se está a passar em Israel

Não é o tema que anunciei para esta semana, mas, devido aos acontecimentos recentes e inesperados no palco internacional decidi adiá-lo uma semana e tratar hoje da questão do Hamas e do seu ataque selvático a Israel. Vamos a isto.

Quando surgiram as notícias do feroz ataque de terroristas – sim, terroristas, deixemo-nos de eufemismos – em solo israelita fiquei admirada com a contenção da comunicação social, a nossa e a estrangeira, mais ainda, com o modo colo relataram massacres, torturas e outros atos selváticos. É que muito francamente, nunca o tinham feito.

Como penso que contei num post anterior, houve uma altura em que havia ataques bombistas, e não só, no mínimo semanalmente naquela parte do mundo e eu, só pelo título, sabia sempre quem tinha morto quem. Por exemplo, a polícia israelita matava dois marmanjos de 17 ou 18 anos que os tinham atacado, saía em grandes letras “Massacre em Israel”. Mas um palestiniano fazia-se explodir num autocarro israelita cheio de crianças a caminho da escola primária, pois bem, tínhamos um muito singelo “Tragédia em Israel”.

Daí a minha enorme surpresa por usarem o termo massacres em relação a atos cometidos pelo Hamas.

Pois... infelizmente, foi sol de pouquíssima dura. Umas meras 24 horas depois entrava-se na “normalidade”. Vamos a alguns exemplos.

Um dos casos principais foi o dos 40 bebés que teriam sido decapitados. É claro que os jornais – e não só – de ontem e de hoje estão cheios de dúvidas sobre se terá acontecido ou se foram só mortos (grande diferença!). Em compensação, todos acreditam piamente na declaração do Hamas de que Israel só está a matar crianças e mulheres... Assim como sempre viram como verdadeiras as imagens – ou até simples relatos, sem provas – de crianças palestinianas supostamente mortas aquando de qualquer ataque israelita. Mas ei, todos sabemos que o Hamas é um movimento de gente honestíssima e boa, totalmente incapaz de mentir!

Também como seria de esperar, desapareceram de quase todos os sítios imagens captadas em direto aquando dos ataques, sobretudo o perpetrado contra os jovens que assistiam a um festival de música pela paz. É que, de acordo com essas doutas almas, podem “criar ou incentivar ódio”. É claro que não há problema nenhum em mostrar atos de retaliação de Israel.

Assisti – parcialmente, perdi a paciência – à entrevista da CM TV a uma jovem palestiniana residente em Portugal, Shahd Wadi, doutorada em estudos femininos (?), que começou por enviar as suas condolências aos familiares de todos os palestinianos mortos, aos que perderam entretanto as casas e aos que estão sem água e sem eletricidade. Já os familiares dos israelitas – e dos muitos estrangeiros – mortos ou desaparecidos não mereceram nada.

E, claro, à semelhança do que continuamos a ouvir há mais de 2 anos em relação à Ucrânia por parte de “especialistas”, Israel vai ter grandes problemas para retaliar, vai ser uma catástrofe, é desta que os palestinianos ganham, etc. Juro que adorava saber onde é que estudaram e o que leem para fundamentarem as suas muito “doutas” opiniões. Penso que tal como os atuais “cientistas” (Novo Dicionário Precisa-se – Parte 2), primeiro chegam a uma conclusão e depois vão à procura de provas que a sustentem.

Temos depois a diferença de tratamento em relação a protestos. Se há um atentado “em nome do Islão” – não é a minha opinião, é o que quem o faz e apoia diz – não se pode dizer nada nem protestar pacificamente, por exemplo, à porta de uma mesquita porque isso incentiva ao ódio e é islamofobia. E se ocorrer algo extremamente inócuo deste género no nosso país chovem protestos de todos os lados, incluindo a Assembleia da República, PM e Belém.

Mas se uma sinagoga for vandalizada, como foi a do Porto, temos um silêncio atroador. Se estou enganada espero que me informem, mas não me lembro de ter ouvido esse senhor Costa e o inenarrável Marcelo criticarem esse ato. E o senhor de Belém, sempre pronto a ir a correr para aqui e para acolá onde há “vítimas” de discriminação, será que já a foi visitar? Pois é... isso podia ofender os amiguinhos do seu grande amigalhaço Costa.

E temos um artigo de hoje do Observador – francamente, só continuo a ser assinante por causa de dois ou três articulistas, muitos dos outros são uma nódoa em termos de ignorância e de facciosismo. É o caso de Marina Ferreira e do seu artigo Deputada do Chega critica manifestação pró-Palestina, mas em 2019 participou na missão diplomática palestiniana. Fabuloso! Só que, lendo a sua diatribe, descobrimos que a deputada em questão, Rita Matias, foi monitora e coordenadora de um campo de férias do Seixal onde participaram 22 jovens palestinianos entre os 12 e os 16 anos. E, como parte das suas funções, participou em várias atividades junto da Missão Diplomática da Palestina. Uau! E isto impede-a de criticar a manifestação de meia dúzia de gatos pingados que ocorreu em Lisboa?

Já agora, podemos aplicar o mesmo critério a esse senhor Ferro Rodrigues que recebeu em 2018, na sua condição de Presidente da Assembleia da República, o chefe ta tal Missão Diplomática da Palestina? É claro que não, é PS e não Chega, por isso, tudo bem.

Como última nota, tenho ouvido a exigência da aplicação das regras da Convenção de Genebra aos combatentes do Hamas. A única explicação possível é que nunca a leram. Porquê? Muito simplesmente porque o Hamas não é o exército oficial de nenhum país, nem sequer da Palestina (e estou a usar país num sentido lato).

Curiosamente, os mesmos que acham que vale tudo em relação a mercenários, sobretudo se lutam do lado “errado” para os donos da verdade, ficam todos indignados se algo acontece a estes senhores a que, com uma dose tremenda de boa vontade, só se pode chamar, no máximo, combatentes armados.

Para semana: O problema da habitação  Vale bem a pena voltar a este assunto, tão pertinente

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