Férias é, há muito, sinónimo de repouso, “feria” era, para os romanos, um dia de descanso dedicado aos deuses ou a festas públicas. Com o advento do cristianismo, surgiu o domingo como dia de repouso, levado mais ou menos a sério – em certas regiões protestantes, as crianças nem sequer podiam brincar, não se podia fazer rigorosamente nada!
A primeira grande mudança veio com a Revolução Industrial. Até aí, com muita da população no setor agrário, o repouso, relativo, vinha ao sabor dos trabalhos agrícolas. À medida que os países se industrializavam, aumentava a pressão para dar mais dias de repouso aos trabalhadores fabris, para além do domingo, dia de Natal e Sexta-feira Santa. E a partir dos anos 30 os sindicatos começaram a forçar para que fossem dados aos seus membros alguns dias anuais de férias pagas.
A França foi o primeiro país a fazê-lo, em 1936, concedendo 12 dias pagos por ano. No mesmo ano, a Organização Mundial do Trabalho (OIT), aprovou a Convenção 52 sobre férias pagas, ratificada por muito poucos países, e cuja implementação foi atrasada devido à Segunda Guerra Mundial.
Pequeno detalhe, a primeira legislação portuguesa sobre o assunto data de 1937! Só que, à semelhança de muitas outras regalias da época, esse direito não se estendia a todos, até devido ao modo como a nossa economia estava estruturada, com um forte setor primário e um setor secundário formado, na sua maioria, por empresas quase familiares, cujo funcionamento e viabilidade não se compadeciam com interrupções de serviço. Mesmo assim, foram surgindo locais e associações de lazer para os trabalhadores, como a Fundação Nacional para a Alegria no Trabalho (FNAT), a precursora da INATEL, que em 1969 tinha 150 mil associados, parques de campismo, colónias de férias, etc.
Resumindo, a ideia de um mês de férias por ano passados em lazer total numa praia, por exemplo, ou em viagem, é algo bastante recente. E lembro que há países que há países em que até é bem posterior, na China, por exemplo, só em 1999 é que os trabalhadores passaram a ter direito a uma semana de férias – alguns setores têm agora três. Ou seja, o importante a reter aqui é que a sua conotação atual, “descanso do trabalhador”, é muitíssimo recente.
A razão de ser deste tão longo preâmbulo é eu achar que está na altura de alterarmos, novamente, o conceito de férias. Não a nível institucional mas, de um modo simultaneamente mais simples e mais difícil, a nível pessoal.
Sempre achei que as férias deviam ser um período de “descanso” da nossa atividade usual. E porquê “descanso” entre aspas? Pois bem, neste contexto, para mim não é sinónimo de lazer total, de não fazer nada, é, isso sim, uma ocasião para fazermos o oposto do nosso dia-a-dia.
Por exemplo, tenho uma vida muito sedentária, o meu trabalho é todo ao computador e o meu passatempo favorito é ler. Sendo assim, quando tiro uns dias de férias gosto de andar, de me mexer o mais possível, de ver coisas. Se fosse simplesmente para uma praia relaxar, isso seria trocar sedentário por sedentário – menos a componente do trabalho, claro. Já quem tem uma profissão que obriga a muito movimento, bom, ai, sim, o relaxe é uma mudança.
Ou seja, sugiro que se comece por pensar no tipo de férias que se costuma ter e se são, de facto, as ideais – e não me refiro a suspirar por viagens caríssimas ou estadias em locais de luxo, mas sim ao que se faz habitualmente durante esse tempo e a razão para isso, quantas vezes se vai para um sítio porque todos os conhecidos fazem o mesmo. E lembro que há cada vez mais opções de todos os tipos que não exigem que se gaste um balúrdio para passar uns momentos agradáveis, revigorantes e, sobretudo, diferentes.
Mas a grande mudança está em implementar umas férias mensais ou, até, semanais. E se está a pensar, pois, que bonito, lá se vai a produtividade, não me refiro a férias a sério, no sentido atual, mas, muito simplesmente, a destinar um sábado ou domingo – ou outro dia, se trabalha nesses dias – a fazer algo diferente, algo que lhe “repouse a alma”.
Isso implica, claro está, organizar o seu dia-a-dia de modo a poder ter esse tempinho sem pensar em ir às compras, fazer limpezas ou arrumações, enfim, as mil e uma coisas que acabam por preencher todo o nosso tempo livre.
Mais uma vez, não faltam opções, de idas a museus a parques, um simples passeio, um convívio, mas não dos que fazemos por obrigação, enfim, depende totalmente do seu agregado familiar e dos seus gostos. Se tem uma vida laboral difícil, com longas deslocações, por exemplo,, que tal passar um dia em relaxe total? É claro que não é opção para quem tem filhos pequenos, mas há sempre saídas que se podem organizar e que permitam passar um dia agradável em família, calmo e sem pressões.
Isto poderá ser o primeiro passo de uma transição para a chamada “vida lenta”, de que falarei noutra altura, um conceito que começa a ganhar destaque até pelos benefícios que traz para a saúde mental e física e que se resume, basicamente, a trocar a lufa-lufa em que muitos de nós andam por um ritmo mais pausado, por uma vida menos ocupada, tendo como ponto de partida a pergunta, “tenho mesmo de fazer isto?”
Experimente um dia por mês, aposto que se sentirá “renovado” e mais disposto a rentomar a labuta semanal. Se gostar, vá aumentando a frequência até passar a ser um hábito semanal. Pense bem, o que é que tem a perder? E, muito francamente, não acha mais apetecível ter um dia de férias por semana em vez de passar 11 meses a suspirar pelo mesinho a que tem direito?
Para a semana: Incongruências. Mais algumas coisinhas que me intrigam...