Luísa Opina

Neste blogue comentarei temas genéricos da nossa sociedade.

143 - Falemos de férias

Um post mais levezinho para espairecer um pouco

Férias é, há muito, sinónimo de repouso, “feria” era, para os romanos, um dia de descanso dedicado aos deuses ou a festas públicas. Com o advento do cristianismo, surgiu o domingo como dia de repouso, levado mais ou menos a sério – em certas regiões protestantes, as crianças nem sequer podiam brincar, não se podia fazer rigorosamente nada!

A primeira grande mudança veio com a Revolução Industrial. Até aí, com muita da população no setor agrário, o repouso, relativo, vinha ao sabor dos trabalhos agrícolas. À medida que os países se industrializavam, aumentava a pressão para dar mais dias de repouso aos trabalhadores fabris, para além do domingo, dia de Natal e Sexta-feira Santa. E a partir dos anos 30 os sindicatos começaram a forçar para que fossem dados aos seus membros alguns dias anuais de férias pagas.

A França foi o primeiro país a fazê-lo, em 1936, concedendo 12 dias pagos por ano. No mesmo ano, a Organização Mundial do Trabalho (OIT), aprovou a Convenção 52 sobre férias pagas, ratificada por muito poucos países, e cuja implementação foi atrasada devido à Segunda Guerra Mundial.

Pequeno detalhe, a primeira legislação portuguesa sobre o assunto data de 1937! Só que, à semelhança de muitas outras regalias da época, esse direito não se estendia a todos, até devido ao modo como a nossa economia estava estruturada, com um forte setor primário e um setor secundário formado, na sua maioria, por empresas quase familiares, cujo funcionamento e viabilidade não se compadeciam com interrupções de serviço. Mesmo assim, foram surgindo locais e associações de lazer para os trabalhadores, como a Fundação Nacional para a Alegria no Trabalho (FNAT), a precursora da INATEL,  que em 1969 tinha 150 mil associados, parques de campismo, colónias de férias, etc.

Resumindo, a ideia de um mês de férias por ano passados em lazer total numa praia, por exemplo, ou em viagem, é algo bastante recente. E lembro que há países que há países em que até é bem posterior, na China, por exemplo, só em 1999 é que os trabalhadores passaram a ter direito a uma semana de férias – alguns setores têm agora três. Ou seja, o importante a reter aqui é que a sua conotação atual, “descanso do trabalhador”, é muitíssimo recente.

A razão de ser deste tão longo preâmbulo é eu achar que está na altura de alterarmos, novamente, o conceito de férias. Não a nível institucional mas, de um modo simultaneamente mais simples e mais difícil, a nível pessoal.

Sempre achei que as férias deviam ser um período de “descanso” da nossa atividade usual. E porquê “descanso” entre aspas? Pois bem, neste contexto, para mim não é sinónimo de lazer total, de não fazer nada, é, isso sim, uma ocasião para fazermos o oposto do nosso dia-a-dia.

Por exemplo, tenho uma vida muito sedentária, o meu trabalho é todo ao computador e o meu passatempo favorito é ler. Sendo assim, quando tiro uns dias de férias gosto de andar, de me mexer o mais possível, de ver coisas. Se fosse simplesmente para uma praia relaxar, isso seria trocar sedentário por sedentário – menos a componente do trabalho, claro. Já quem tem uma profissão que obriga a muito movimento, bom, ai, sim, o relaxe é uma mudança.

Ou seja, sugiro que se comece por pensar no tipo de férias que se costuma ter e se são, de facto, as ideais – e não me refiro a suspirar por viagens caríssimas ou estadias em locais de luxo, mas sim ao que se faz habitualmente durante esse tempo e a razão para isso, quantas vezes se vai para um sítio porque todos os conhecidos fazem o mesmo. E lembro que há cada vez mais opções de todos os tipos que não exigem que se gaste um balúrdio para passar uns momentos agradáveis, revigorantes e, sobretudo, diferentes.

Mas a grande mudança está em implementar umas férias mensais ou, até, semanais. E se está a pensar, pois, que bonito, lá se vai a produtividade, não me refiro a férias a sério, no sentido atual, mas, muito simplesmente, a destinar um sábado ou domingo – ou outro dia, se trabalha nesses dias – a fazer algo diferente, algo que lhe “repouse a alma”.

Isso implica, claro está, organizar o seu dia-a-dia de modo a poder ter esse tempinho sem pensar em ir às compras, fazer limpezas ou arrumações, enfim, as mil e uma coisas que acabam por preencher todo o nosso tempo livre.

Mais uma vez, não faltam opções, de idas a museus a parques, um simples passeio, um convívio, mas não dos que fazemos por obrigação, enfim, depende totalmente do seu agregado familiar e dos seus gostos. Se tem uma vida laboral difícil, com longas deslocações, por exemplo,, que tal passar um dia em relaxe total? É claro que não é opção para quem tem filhos pequenos, mas há sempre saídas que se podem organizar e que permitam passar um dia agradável em família, calmo e sem pressões.

Isto poderá ser o primeiro passo de uma transição para a chamada “vida lenta”, de que falarei noutra altura, um conceito que começa a ganhar destaque até pelos benefícios que traz para a saúde mental e física e que se resume, basicamente, a trocar a lufa-lufa em que muitos de nós andam por um ritmo mais pausado, por uma vida menos ocupada, tendo como ponto de partida a pergunta, “tenho mesmo de fazer isto?”

Experimente um dia por mês, aposto que se sentirá “renovado” e mais disposto a rentomar a labuta semanal. Se gostar, vá aumentando a frequência até passar a ser um hábito semanal. Pense bem, o que é que tem a perder? E, muito francamente, não acha mais apetecível ter um dia de férias por semana em vez de passar 11 meses a suspirar pelo mesinho a que tem direito?

Para a semana: Incongruências. Mais algumas coisinhas que me intrigam...

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