Apesar de muitos dos atuais disparates da linguagem dita “inclusiva” ainda não terem chegado a Portugal, para lá caminhamos a passos largos e, quando menos esperarmos, teremos como livro obrigatório na mesa de cabeceira um dicionário com os termos que é permitido usar – exatamente como no filme Alphaville de Godard, que, apesar de datar de 1965, tem cenas que parecem bem atuais.
A inspiração para este post veio da polémica que estalou recentemente por a DGS ter usado “pessoas que menstruam” em vez de mulheres. Tivemos, claro, os defensores do costume, com grande realce para o BE. É que segundo parece, esta nova expressão é muito mais inclusiva. Mas será mesmo? Francamente, tenho as minhas dúvidas e por várias razões.
A primeira é uma questão de português. É que olhando para a dita expressão, fico a pensar: então quem ainda não menstrua ou já não o faz fica de fora? E, nesse caso, se não são mulheres, então o que são? Para acabar com esta ambiguidade, proponho, pois, a sua substituição por “pessoas capazes de menstruarem”.
A minha segunda dúvida é esta, isto não exclui as mulheres transgénero? É que estas não menstruam, apesar de passarem a vida a afirmar que são verdadeiras mulheres – vi até uma na BBC a dizer que são as únicas que entendem o que é ser mulher. Ou seja, vendo bem, é uma expressão mesmo nada inclusiva.
O mesmo se passa com mãe, termo banido em meios bem-pensantes, tendo sido substituído por “pessoa que dá à luz” ou “pessoa que amamenta”. Pois, aqui aplicam-se as mesmas dúvidas acima expressas.
O que acho curioso nisto tudo é que os homens continuam a ser homens – pessoas que ejaculam? – e os pais ainda são pais – pessoas dadoras de esperma? Nada má, esta discrepância, propagada por quem tanto berra pela igualdade de género!
E isto faz-me lembrar essa coisa da pessoa cis. Segundo parece, vem do latim, significa “do lado de”, por oposição a “trans” que significa “do outro lado”. Tudo isto para se ser mais inclusivo e menos ofensivo. Azar! Eu sentir-me-ia ofendidíssima se tivesse veia de vidrinho.
Mas há outras pérolas da linguagem moderna, de que citarei apenas algumas – a lista é longuíssima e alguns termos, traduzidos do inglês, não têm o mesmo impacto de estupidez galopante. Aqui vão eles:
- Autista. Pois, o termo correto é pessoa “neurodivergente” – já agora, quem não o é passa a chamar-se pessoa “neurotípica” e nunca, mas mesmo nunca, pessoa normal. Atenção, sou totalmente a favor de se usar “pessoa do espetro autista”, uma vez que esta condição pode variar imenso em termos de gravidade.
- Cego. Nem pensar, é agora uma “pessoa visualmente debilitada”. Ou seja, as nossas ruas e passeios podem ser uma autêntica prova de obstáculos para estas pessoas, mas tudo bem, o importante é usar o termo certo.
- Deficiente. Sim, é agora uma “pessoa com condições de saúde” ou “pessoa com disfunções”. Ou seja, pode estar anos à espera de uma cadeira de rodas ou dos apoios de que precisa desesperadamente, mas tudo bem desde que não lhe chamem deficiente.
- Fome. Boa notícia, as pessoas agora já não passam fome, sofrem de “insegurança alimentar”. Não tenho a menor dúvida de que isso as fará sentirem-se mais confortadas e de barriga aconchegada.
- Igualdade. Espantou-me imenso saber que este termo tem de ser substituído por “equidade”. A diferença? Pois, é muito simples. Em vez de se exigir igualdade de oportunidades, passa-se a exigir equidade de resultados, apesar de isso implicar, quase sempre, práticas discriminatórias. Por exemplo, nos EUA empresas tecnológicas têm de atingir a equidade entre homens e mulheres, apesar de a maioria das raparigas americanas optar por não estudar matemática ou física no liceu.
- Línguas estrangeiras. Grande novidade, algumas escolas americanas deixaram de oferecer no seu currículo línguas estrangeiras por receio de ofender quem é de fora, ou seja, estrangeiros; têm, agora, “línguas do mundo”.
- Lista negra. Adivinharam, pode ser ofensivo dizê-lo, por isso transformou-se em “lista de bloqueio” ou “lista de negação”.
- Pobres. Também já não os há, são agora pessoas “socioeconomicamente desfavorecidas”, é, sem dúvida, bem melhor.
- Vegan. Más notícias para quem o é, este termo, tão curto, deve ser substituído por “pessoa com uma alimentação à base de plantas” – ou produto à base de plantas, claro. Porquê? Bom, aceito sugestões...
Já agora, aqui ficam alguns contributos meus:
- Assassino: terminador de vida sem permissão.
- Ladrão: pessoa que leva emprestado sem pedir.
- Traficante de drogas: negociante (soa bem mais chique) de fármacos alternativos.
Como disse, a lista dos termos “maus” é enorme em alguns países, nomeadamente nos EUA, a mãe – perdão, a pessoa que amamenta – destes disparates. E há termos que não podem, muito simplesmente, usar-se, apesar de não nos ser proposta qualquer alternativa. Por exemplo, ninja / guru – como é um termo masculino, pode desencorajar mulheres – ou tribo, no sentido de pessoas que pensam do mesmo modo – é ofensivo para índios americanos e para as vítimas do colonialismo.
Com tanta ênfase em tentar não ofender ninguém, como se isso fosse possível, suspeito que estaremos, muito em breve, no cenário descrito por Connie Willis no seu conto “Ado”, publicado em janeiro de 1988 na revista Isaac Asimov’s Science Fiction – que eu saiba, nunca foi traduzido, mas pode encontrá-la aqui, na página 78 (pequeno aviso, demora um bocadinho a carregar e não é navegável).
Basicamente, uma professora de liceu decide dar uma aula sobre Shakespeare e escolhe Hamlet por ser a peça que tinha menos objeções por parte de pais e grupos de todos os tipos. Juntamente com a reitora, analisam-na linha a linha, consultando a lista de cortes e protestos recebidos ao longo dos anos – o mais recente é da União de Agentes Funerários a exigir a remoção do coveiro.
No final, a aula acaba por ter apenas dois alunos, um deles grande adepto da teoria de ter sido Bacon a escrever as peças, e Hamlet fica reduzido a estas linhas:
HAMLET: O ar corta a pele, de tanto que está frio.
HORÁCIO: Gelado e penetrante.
HAMLET: Que horas?
HORÁCIO: Acho que é quase meia-noite.
Bom, isto se entretanto os Meteorologistas ou os Relojoeiros não se lembrarem de protestar...
Para a semana: Acabados os Jogos... Falemos um pouco do que se passou e do que aí vem, nomeadamente os Paraolímpicos.