Agora que terminaram os Jogos Olímpicos, decidi falar um pouco sobre algumas coisas que me chamaram a atenção. E não vou mencionar a cerimónia de abertura ou a argelina, tenho a minha opinião, claro, mas acho que já se falou quanto baste desses temas – direi apenas que achei estranhíssimo que as regras tenham mudado e que, por exemplo, se tenha posto de lado o critério do “não interessa se algo é ofensivo, só conta alguém sentir-se ofendido”.
Não acompanhei as provas tanto quanto teria desejado, os afazeres profissionais interferiram – felizmente, descobri a RTP Play e, como trabalho com dois computadores, pude ter a transmissão num deles enquanto trabalhava no outro.
A primeira coisa que me chamou a atenção foi a quantidade de atletas de topo que participaram apesar da sua “idade avançada”. Por exemplo, foi um prazer notar que na ginástica feminina por aparelhos as rapariguinhas quase anoréxicas, que se duvidava que tivessem os 14 anos mínimos exigidos, deram lugar a mulheres de 20 e bastantes sem ar de passarem fome. E em quase todas as modalidades é agora muito comum vermos atletas de 30 e tal anos, ou seja, com uma idade em que, ainda há bem pouco tempo, estariam arrumados.
Quanto à participação portuguesa, por muito que goste de ver os nossos atletas ganharem medalhas presto mais atenção a quem se ultrapassa, mesmo que o resultado global não seja dos melhores. E acho que seria desejável darem-nos mais histórias dessas. É que, muito francamente, muitos de nós nem a atletas profissionais chegaríamos, quanto mais a atletas de topo. Mas histórias de esforço, de dar o melhor, e, acima de tudo, de não desistir, podem ser inspiradoras para todos.
Como a da maratonista do Butão, a única representante no seu país – presente precisamente por não haver ninguém que atingisse os mínimos em nenhuma modalidade – e que terminou a maratona uma hora depois das outras atletas. Só que, acabou, não desistiu, apesar de saber que teria um péssimo resultado a nível internacional.
É claro que ouvimos falar da falta de apoios, é uma daquelas coisas que antes de o ser já o era... E sim, há modalidades em que, sem uma infraestrutura como deve ser, a sua prática será sempre amadora. Veja-se o que aconteceu com o ciclismo de pista, agora que existe um velódromo a sério na Anadia – e face a estes resultados, suspeito que surgirão mais...
Mas, para mim, os apoios principais deviam estar a outro nível, bem mais abaixo. Com exceção de países cujos melhores atletas treinam, por exemplo, nos EUA, os que obtêm mais êxito têm, à partida, uma grande tradição de prática de desporto. Há clubes por todo o lado, as criancinhas praticam uma ou várias modalidades – e não apenas futebol... – e, sendo assim, apesar de muitas o fazerem apenas como passatempo, partindo de uma base maior é bem mais fácil haver quem se destaque e seja encorajado a fazer um outro nível de treino.
Estarão a pensar, pois, isso é muito bonito, mas como é que esses clubes de bairro, digamos, arranjam dinheiro para terem instalações? Pois é, mas será que precisam mesmo de as ter? O país está cheio de pavilhões escolares que passam a maior parte do tempo vazios e fechados. Que tal chegar a um acordo com clubes ou organizações da zona para que os possam usar, pagando, apenas, uma pequena parte das despesas?
Mais ainda, que tal criar complexos municipais para modalidades diversas? Por exemplo, pôr uma pista de atletismo num parque público. Não precisa de ser muito sofisticada nem ter as pistas todas ou equipamento topo de gama, basta ter o suficiente para que, quem quiser, possa ali treinar ou iniciar-se em algo que viu na televisão. Francamente, com um pouco de imaginação não faltariam modos de incentivar à prática do desporto, de todo o desporto. E clubes ou organizações poderiam sempre alugar o espaço por umas horas, para um treino um pouco mais sofisticado.
E mesmo que só uma minoria mesmo muito minoria avance para uma prática mais avançada, o hábito do exercício fica. E lembro que há cada vez mais competições amadoras de todos os tipos e que as dos chamados seniores começam, até, a ter escalões etários, alguns até bem avançados, devido ao elevado número de participantes.
Mudando ligeiramente de assunto, dia 28 deste mês começam os Jogos Paralímpicos. Acompanho vagamente provas deste tipo, bom, nos últimos anos e com exceção da Fórmula 1, acontece-me o mesmo com todas as atividades desportivas, mas tenho a ideia de que os nossos atletas saem-se sempre muito bem. Só que... não são notícia!
Como ainda vai a tempo, que tal a RTP, que já anunciou que os vai cobrir, fazer algo um bocadinho diferente? Para já, explicar as diversas categorias em que os atletas são divididos e as características que estas têm. Aposto que poucos sabem disso, a menos que conheçam pessoalmente alguém que compete.
Seria, também, bom ver reportagens sobre os atletas, o modo como treinam, o equipamento de que precisam, como se tornaram atletas, enfim, ficarmos a conhecê-los e também aos muitos que os apoiam e ajudam – e, já agora, as dificuldades que encontram, sei, por exemplo, que os prémios e apoios a que t~em direito são, normalmente, pagos com imenso atraso.
É que num país – e mundo – em que o que só ouvimos queixinhas sobre “não há apoios”, “não posso fazer nada porque sou / tenho... (preencher, há sempre algo)”, seria bom vermos pessoas que não deixam que problemas físicos ou mentais as impeçam de fazerem algo de que gostam – e que muitos de nós, em plena forma física e mental, somos incapazes de fazer. E, quem sabe, poderia também levar pais com crianças com esse tipo de dificuldades a verem que há opções, que nem tudo lhes está vedado.
Para a semana: Falemos de estatísticas. Só por si, não são boas em más. Já a sua interpretação e uso, bom, é outra loiça...