Luísa Opina

Neste blogue comentarei temas genéricos da nossa sociedade.

150 - Falemos de estatísticas

Só por si, não são boas em más. Já a sua interpretação e uso, bom, é outra loiça...

Há uns dias li sobre uma listagem de rendimentos médios em Portugal, ou antes, de quanto se ganha em média, concelho por concelho. E meramente por acaso, uma vez que já há muito que deixei de prestar atenção a certos comentadores de “elite” das nossas televisões, apanhei o Marques Mendes a falar do assunto.

Basicamente, a lista mostra uma grande discrepância entre os concelhos em que se ganha mais e aqueles em que se ganha menos. O quadro abaixo mostro apenas os 5 mais “ricos” e os 5 mais “pobres”:


Oeiras


14 009


Lisboa


12 898


Cascais


11 859


Alcochete


11 594


Coimbra


11 493


Resende


6299


Valpaços


6304


Cinfães


6479


Santa Maria de Penaguião


6600


São João da Pesqueira


6887

 

Sim, à primeira vista, a diferença entre uns e outros é de facto enorme. Só que há outros fatores que se devia ter em conta.

Por exemplo, o tipo de economia de cada conselho. Zonas mais rurais têm, necessariamente, uma média de rendimentos inferior do que outras mais industrializadas, sobretudo se incluem empresas tecnológicas ou de serviços, com pessoal mais especializado.

Houve, também, uma referência às diferenças entre várias zonas do mesmo concelho, Lisboa, por exemplo. O grande problema é que este tipo de estatística só tem em conta dois fatores: população ativa e salários “oficiais”, digamos. Ou seja, locais onde haja muita gente a trabalhar por conta própria ou em certas profissões ficam subavaliados relativamente a zonas com empregos mais convencionais e onde é fácil conhecer os salários pagos.

Isto sem contar com áreas das grandes cidades onde a média dos salários ganhos é baixíssima devido à enorme concentração de pessoas a receberem o erroneamente denominado Rendimento Mínimo – que não conta – ou onde grassa o tráfico de drogas e outras atividades criminosas que rendem bom dinheiro.

Mas o grande fator aqui ignorado está no custo de vida. Ou será que acham que viver em Oeiras ou Cascais custa o mesmo que residir em Valpaços ou Cinfães, tendo em conta que a maior fração das despesas das famílias portuguesas tem a ver com a compra / aluguer da casa onde habitam?

Todos sabemos que o preço de venda varia imenso, até dentro de uma mesma cidade – veja-se o Príncipe Real e Marvila, em Lisboa, por exemplo. E o mesmo acontece com os arrendamentos.

Na preparação deste post descobri uma tabela com as rendas máximas permitidas para 2024, município por município, ao abrigo do Decreto-lei 90C-2022. Muito francamente, duvido seriamente que seja cumprida...

Mas aqui fica ela para os 10 concelhos indicados acima:


Rendas


T0


T1


T2


T3


Oeiras:


635


775


1000


1200


Lisboa


635


900


1150


1375


Cascais


635


775


1000


1200


Alcochete


512


512


635


700


Coimbra


512


512


635


700


Resende


335


335


473


473


Valpaços


335


335


473


473


Cinfães


335


335


473


473


Penaguião


335


335


473


473


SJ Pesqueira


335


335


473


473

 

Mesmo partindo do princípio que estes valores eram reais, ou seja, que ninguém pagava mais do que o valor decretado, note-se que um T3 custa quase o triplo em Oeiras do que em São João da Pesqueira.

Não ponho em causa a existência de assimetrias, algumas até bem grades, no nosso país. Só que a sua análise não é tão linear como nos querem fazer acreditar com base em estatísticas como a que referi, “concelhos onde se ganha mais e onde se ganha menos”. E muito menos reduzindo, basicamente, a situação a “litoral rico, interior pobre”.

E há ainda a questão do termo “média”. É que basta um pequeno grupo ter um valor muito elevado mas ter de haver um outro com um valor muito baixo para que a média bata certo. E em concelhos como Oeiras ou Cascais, há, certamente, uma percentagem, se calhar até nem muito pequena da população, que tem salários estratosféricos, levando a um valor “médio” alto.

Um outro problema com o uso de estatísticas é a sua contração ou dilatação para dar uma imagem mais favorável ou desfavorável do que está em análise ou para ir ao encontro da conclusão pretendida. Refiro-me ao intervalo de tempo a que dizem respeito. Por exemplo, se um determinado dado estagnou ou piorou nos últimos 5 anos, digamos, faz-se uma comparação a 10, 15 ou mais anos, o necessário para se ter um resultado positivo. Ou reduz-se esse intervalo, se a intenção é mostrar como as coisas têm piorado.

Um outro modo de distorcer as coisas, ou antes, de não dar uma verdadeira imagem da situação, vem do uso de percentagens.

Para mim, este é o exemplo mais paradigmático. Há uns anos li num jornal que a mortalidade infantil em Bragança – pode ter sido noutra área, já lá vai muito tempo, mas era naquela zona – tinha aumentado 100 % no ano anterior. A minha primeira reação foi de espanto total, sobretudo porque não ouvira falar de nenhuma epidemia. Só que, ao ler a notícia, as coisas eram um pouco diferentes: dois anos antes tinha morrido um bebé e no ano em causa... dois. Mas tinha sido, de facto, um aumento de 100 %.

Um outro modo muito popular de influenciar a perceção dos factos consiste em usar ou não percentagens. Aumentos, por exemplo, seja em custos ou em salários / reformas. Estes são anunciados pelo seu valor ou em percentagem consoante o que soa melhor... ou pior. Por exemplo, anuncia-se com grande aparato que as pensões de 600 euros vão aumentar 2 %! Pois, são 12 euros, ou seja, 4 cêntimos por dia. Ou, para um efeito negativo, que o custo de um bilhete de metro vai subir 5,5 %. Tradução, custava 1,80 e passará a ser 1,90 euros.

Francamente, uma grande parte da culpa recai sobre quem vê estes dados e não para um pouco para refletir sobre o que significam, de facto. Mas isso exige espírito crítico e a capacidade de analisar números, coisas que andam há muito afastadas do nosso ensino.

Para a semana: Livros / Filmes / Séries que gostava que existissem. Muito ao arrepio do que vemos cada vez mais.

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