Luísa Opina

Neste blogue comentarei temas genéricos da nossa sociedade.

156 - A histeria dos ecrãs nas escolas

Refiro-me, claro, ao pânico recente da proibição de telemóveis mas também ao uso de manuais digitais

Nas últimas semanas discutiu-se, se é que se lhe pode chamar isso, a proibição de smartphones nas escolas e, também, o uso de manuais eletrónicos. Ouvimos, como sempre, dúzias de especialistas a bramarem contra ambas as medidas O mais curioso é a “pequena” contradição que exibem quando falam de um ou do outro caso.

Ou seja, nada de manuais eletrónicos porque crianças e adolescentes já passam demasiadas horas ao ecrã, entre telemóvel, televisão e videojogos. Mas nem pensar proibir smartphones – ou outros telemóveis – nas escolas porque isso vai interferir com o desenvolvimento da personalidade das ditas criancinhas e adolescentes! Pois, como se terão desenvolvido os milhares de gerações antes do aparecimento dos ditos?

E, já agora, retirar-lhes os telemóveis não é minorar o tempo que passam frente a um ecrã?

Sou totalmente a favor da retirada desses aparelhos das salas de aulas, é que, muito francamente, não vejo em que melhoram o tal desenvolvimento social, servem, isso sim, como distração pura e simples. Ou alguém acredita que a maioria – ou até uma minoria – dos alunos os usa para pesquisar o tema da aula a que estão supostamente a assistir?

E numa época em que se fala cada vez mais no vício das redes sociais, não seria desejável um afastamento forçado durante algumas horas por dia? Mais ainda, isso não levaria, mais tarde, a uma geração adulta menos dependente do que começou por ser uma enorme conveniência e que é, agora, demasiadas vezes, uma autêntica prisão? Ou seja, de podermos ligar-nos sempre que quisermos passámos à quase obrigatoriedade de estarmos sempre disponíveis para falar, comunicar, mesmo que não estejamos com disposição para o fazer.

Último pormenor sobre este tema, acho extremamente curioso haver tantos pais que se indignam perante a ideia desta proibição. O argumento é que querem ter os filhos sempre contactáveis... será que acham que as escolas que frequentam não têm telefone nem ninguém para os chamar se for realmente urgente?

Passemos aos manuais eletrónicos. Confesso já que sou totalmente a favor... só que suspeito fortemente que não estamos a falar da mesma coisa.

É que se manual eletrónico significa apenas uma versão digital do mesmíssimo manual impresso, então, muito francamente, não lhe vejo grandes vantagens. Bom, fica bem mais barato, é muitíssimo mais fácil alterá-lo e poupa-se imenso papel – e árvores, não esqueçamos as árvores! Mas, pedagogicamente falando, é exatamente a mesma coisa.

Argumentam, também, que alguns países que os implementaram estão, agora, a regressar aos manuais impressos porque foi uma experiência falhada. E eu até acredito se, como disse, são apenas versões digitais de livros em papel e se o modo de dar as aulas se manteve o mesmo.

Passo a explicar.

No meio de toda esta polémica acho que se perde de vista o facto de as chamadas novas tecnologias permitirem revolucionar totalmente o ensino. E manuais digitais no verdadeiro sentido do termo poderiam ajudar imenso a alterar um modelo que, muito francamente, se mantém quase intacto há séculos. Ou seja, estuda-se num livro, fazem-se uns exercícios ali indicados, se for caso disso, e já está.

Sim, os manuais são agora todos bonitinhos e cheios de cores, há calculadoras, telemóveis e quadros “inteligentes”, mas a estrutura básica do modo de ensinar permanece a mesma.

E o que é um “verdadeiro” manual digital? Pois bem, para além do material básico a aprender, sempre visível, teria mais desenvolvimentos para quem tivesse interesse sobre um certo assunto, links para informação diversa – fotos, artigos, vídeos, experiências – e exercícios cujo resultado só estaria visível uma vez concluídos.

Bem sei que os atuais manuais têm partes realçadas e com setas a dizerem “isto é importante”, mas não é a mesma coisa. Estes novos manuais seriam, de facto, uma porta de acesso a todo o tipo de informação. Com a vantagem adicional de que os bons alunos deixavam de morrer de tédio nas aulas, podiam sempre ler mais, descobrir à sua vontade.

E numa época em que tanto se fala no cruzamento entre matérias e na interligação entre as várias cadeiras lecionadas, estes manuais seriam ideais para reforçar essa ideia. Por exemplo, um tema de história pode levar a geografia, ciência, literatura, etc. Ou seja, haveria interligação fácil entre os vários manuais e não, como agora, Manual de Física, Manual de História...

Resumindo, tratar-se-ia de aproveitar ao máximo a tremenda riqueza da Internet, mas no bom sentido. Já pensaram em como seria giro ver experiências de física ou de química que não é comportável fazer numa escola? Ou aprender astronomia prática, virada para o lugar onde se vive e estuda? E em vez de falar “a seco” de ecologia, que tal ter links para vídeos e fotos que mostrem o que se está a estudar?

É claro que fazer manuais destes não seria fácil, exigiriam muita pesquisa e também uma boa equipa informática, mas nada que não se consiga pôr em prática. Sem contar que em muitos casos seria preciso traduzir artigos, por exemplo, uma vez que a maior parte da informação na Internet está em inglês – e muita da que existe em português é do Brasil.

Seria, também, moroso, mais uma razão para se começar a curto prazo. E há a grande vantagem de se poder começar “devagarinho”, com pouco mais do que o básico, e ir acrescentando, aos poucos, links, informação, interligações, tudo e mais alguma coisa. Ou seja, começar por fazer uma casinha modesta, com o mínimo para ser “habitável”, que irá crescendo até se converter num daqueles arranha-céus que são uma autêntica cidade, em população e serviços.

Para terminar, porque será que quando se fala no tempo excessivo que crianças e adolescentes passam ao ecrã ninguém menciona limitar as horas gastas em videojogos? Ou em programas de TV que são pura perda de tempo ou, até, nocivos para personalidades em desenvolvimento? Isto para não falar nas redes sociais...

Para a semana: Não seria mais fácil...? A propósito das discussões do Orçamento e outros assuntos

0