Primeiro, uma pequena nota: por absoluta falta de tempo durante esta semana aproveitei algo escrito há uns tempos e adequado ao título proposto, mas que não inclui as discussões do Orçamento por serem atuais e que ficam para uma data posterior.
Neste post irei tratar de vários assuntos em que me intriga ver a enorme insistência em seguir por caminhos que só dificilmente darão resultado, pelo menos atendendo ao passado.
Comecemos pela habitação. Há umas semanas, o Sr. Montenegro anunciou, com a pompa e circunstância a que vários governos socialistas nos habituaram, a construção de umas 58 mil casas até 2030. Muito francamente, atendendo aos vários anúncios similares nos últimos anos, custa a crer que ainda haja necessidade de novas construções... É que por esta altura já toda a população deveria ter uma casa nova e a bom preço.
É claro que estas agora anunciadas vão, quase certamente, ter o destino das anteriores, ou seja, nem à fase de projeto chegam.
Ora não seria mais fácil e, acima de tudo, mais rápido e barato, o Estado pegar nos milhentos edifícios que possui e que estão ao abandono e renová-los para serem alugados por valores comportáveis para os salários dos portugueses? Sem contar que, em muitos casos, até nem seria preciso muito para os pôr habitáveis a curtíssimo prazo, dando-se, pois, prioridade a estes.
Esta solução teria, também, outras vantagens. Muitos destes edifícios estão no centro das respetivas cidades, ou perto deles, minorando, pois, os problemas com as deslocações e a necessidade impreterível de ter carro, e devolvendo, também, todas essas áreas a gente de cá, sem necessidade de atacar o alojamento local.
Mais ainda, esta medida evitaria a edificação em novos terrenos, ou seja, o crescimento da chamada selva de betão, algo muito desejável numa altura em que tanto se fala em ecologia e na preservação do meio ambiente. Ou isto só importa quando se fala em fazer condomínios de luxo?
E, última vantagem, evitar-se-ia o desperdício de ter tantos prédios ao abandono, cujo destino mais provável acabará por ser a demolição com a consequente eliminação – ou antes, acumulação em lixeiras – dos materiais que os constituem. Ou seja, reciclemos, aproveitemos, não desperdicemos!
Mudando de assunto, há um outro tema recorrente há anos e que é a promessa de creches para todas as criancinhas. É claro que ouvimos a mesma coisa todos os anos e, apesar da tão lastimada baixa da natalidade, continua a haver muitos pais que desesperam por encontrar um lugar para o seu filhote – e muitas vezes, nem pagando bem o têm.
Ora não seria mais fácil e, também aqui, bem mais rápido, fazer uso das chamadas forças do mercado? Ou seja, algo muito similar ao cheque educação, um dos ódios de estimação da nossa esquerda.
Basicamente, o Governo via quanto gasta com uma criancinha numa creche pública, gratuita, zona por zona – sim, duvido que os custos sejam iguais em todo o país. E era esse o montante que entregava aos pais cujos filhos não conseguiram uma vaga, para ser usado numa creche privada. Isto faria com que as privadas se tornassem acessíveis a mais pais, uma vez que estes só pagariam a diferença.
E, perante este rendimento garantido, suspeito que surgiriam muito mais creches, sobretudo em zonas com uma doce de criancinhas e pouca oferta de creches.
Sim, bem sei que o ideal seria ter creches gratuitas para todos. Só que, tal como as coisas estão agora, quem tem bons salários paga uma privada e as públicas ficam para quem não pode pagar uma privada – e encontra uma vaga, claro. Será que alguém acredita que a qualidade é a mesma?
Mas com um sistema tipo parcerias, que aumentaria a oferta, podia-se equilibrar um pouco as coisas, tornando, por exemplo, as públicas não totalmente gratuitas, mas com uma prestação consoante o salário dos pais, dando-lhes, assim, mais dinheiro – e, claro, exigindo melhor qualidade no serviço que prestam.
Finalmente, os idosos. Ouve-se, periodicamente, a queixa de que não há lares suficientes, nem nada que se pareça, para os muitos que procuram um lugar num deles. E quando se trata de cuidados paliativos, a situação é ainda pior.
Tratei destes últimos no meu outro blog, em Cuidados paliativos e Cuidados paliativos II, em que refiro, nomeadamente, que muitos desses pacientes prefeririam morrer em casa, se houvesse algum apoio e formação para quem cuida deles.
Vou, pois, falar apenas dos lares. O grande problema é que muitas pessoas vão para um lar – ou tentam ir – apenas porque não têm capacidade para viverem sozinhas em segurança ou, no mínimo, porque os seus familiares se sentem preocupados com as condições e isolamento em que vivem.
Não seria mais fácil e, mais uma vez, bem mais rápido e melhor para os visados, pensar em soluções alternativas ou, pelo menos, intermédias? Com visitas frequentes e algum apoio, muitos idosos poderiam viver ainda muitos anos na “sua casinha”, onde se sentem bem mais felizes do que num lar, por muito bom que este seja.
Também aqui, os que pudessem pagar contribuiriam com a sua parcela para este serviço, ou esta seria paga pelos seus familiares. Mas quer fosse o Estado ou a família a sustentar este sistema, ficaria, certamente, bem mais barato do que andar a construir lares, muitas vezes bem longe do local onde o dito idoso sempre residiu e que é, muitas vezes, demasiado afastado para permitir a visita de familiares ou amigos.
Quanto às soluções intermédias, já existem em inúmeros países e vão desde aldeias só para pessoas acima de uma certa idade, normalmente 65 anos, onde cada uma tem a sua casinha mas há uma sede, digamos, com diversos serviços e pessoal de apoio. Ou a mesma solução em forma de edifício urbano, com pequenos apartamentos adaptados a idosos e, também aqui, serviços e pessoal comuns.
Não nos esqueçamos que os idosos de agora já não são bem como os de alguns anos atrás, ainda têm muita energia e capacidades, só que, às vezes, torna-se um tanto complicado viver sozinho, sem apoios regulares e próximos
Para a semana: Vivemos mesmo em democracia? E não me refiro apenas a Portugal!