Este será um post mais “levezinho” sobre algo em que penso há já bastante tempo. Bem sei que vivemos cada vez mais numa “época acelerada” e surgem coisas novas em todas as áreas quase. Já não estamos, definitivamente, num mundo em que os dias eram (quase) todos iguais e em que se vivia ao ritmo lento das estações. Mesmo assim, há “acelerações” que são, na minha opinião, totalmente desnecessárias.
Por exemplo, já repararam que as lojas se enchem de coisas para o Natal uns bons três meses antes da data? Francamente, adoro essa época festiva, mas quando finalmente chega já estou farta. E só não me farto mais porque saio raras vezes, mesmo para compras básicas, e quanto a anúncios... bom, digamos que sou um ás a fazer o chamado zapping.
Neste aspeto, os americanos têm um bocadinho mais de sorte, tudo o que tenha a ver com o Natal só aparece depois do Dia de Ação de Graças, ou seja, a quarta quinta-feira de novembro. Sempre lhes poupam uns mesinhos.
Mas não é só o Natal. Logo a seguir ao Ano Novo entramos no período carnavalesco e pouco depois, chega a vez da Páscoa. Ou seja, temos ovos e amêndoas à venda em janeiro!
Quanto à política, bom, basta dizer que não faz o menor sentido haver um período de campanha eleitoral oficial, é que ainda mal saímos de uma eleição e já vemos atos e discursos de preparação da seguinte. Mas lá vamos mantendo o mito do período de propaganda – sem esquecer o “dia de meditação” que, esse sim, faz cada vez menos sentido face à cada vez maior utilização das redes sociais por parte dos portugueses.
Também as épocas oficiais dos saldos terminaram, existem agora durante todo o ano. Mas esta é talvez a faceta que menos me incomoda, talvez por ter crescido onde ou não existiam ou não eram levadas muito a sério. E, de todas as “perturbações” de datas é a que faz mais sentido, para quê prolongar a existência de algo que já desaparecera, na prática, há muito? É que entre promoções, vendas especiais e outros tipos de descontos, já havia saldos durante todo o ano, embora não pudessem usar esse nome.
Curiosamente, nunca vi campanhas para limitar os períodos de venda de artigos específicos de certas épocas festivas. Não, a ênfase vai sempre para tentar fechar lojas – e sobretudo centros comerciais – ao domingo. E embora as razões apresentadas sejam diversas, fica-me sempre a ideia de que, subjacente a tudo isso, está um certo saudosismo pelos “bons velhos tempos” em que esse era um dia de pasmaceira, de nada fazer – até porque quase nada estava aberto.
Há, ainda, uma outra faceta a que poderemos chamar o “baralhar” do tempo. Basicamente, uma das coisas que tornava certas épocas especiais era o facto de só então podermos encontrar certos produtos. O bolo-rei, por exemplo, começava a ver-se umas semanas (poucas) antes do Natal e desaparecia após o Dia de Reis. Mas agora vemo-lo à venda durante todo o ano, o que desvirtua, pelo menos para mim, a sua especificidade, o seu caráter de exceção.
Pessoalmente, acho que seria ótimo voltarmos a criar esse sentimento de antecipação, sobretudo entre as camadas mais jovens. Talvez ajudasse um pouco a combater o estado de tédio permanente de que muitos parecem sofrer e a ideia do “quero isto agora” e a incapacidade para esperarem por algo.
Passando a outro assunto, começo por esclarecer que não sofro de saudosismo e muito menos da ideia de que “antigamente era tudo melhor”. Mais ainda, em termos alimentares agrada-me bastante ter de tudo durante todo o ano, falo, claro, de frutas e legumes. Ou seja, já lá vão os tempos em que certos menus indicavam, na secção de sobremesas, “fruta da época”.
Mas sei também que há um movimento crescente de regresso a hábitos alimentares antigos, entre eles o uso de produtos da época. E acho, até, que seria uma boa ideia vermos dar mais ênfase a esse aspeto.
Não estou a defender, como alguns fazem, que só se vendam produtos locais – ou seja, produzidos até uma determinada distância. Mas que tal os grandes supermercados terem uma zona na secção de fruta dedicada à que é da época? O mesmo se passando com a dos legumes e vegetais. Já agora, quando digo da época é mesmo da época, não me refiro a produtos criados em estufas e que crescem durante todo o ano (ou quase).
Assim, quem quisesse podia facilmente comprar apenas esses, sem precisar de saber de antemão o que surge naturalmente em cada época do ano, algo cada vez mais difícil para pessoas nascidas e criadas em grandes cidades – sim, há sempre a Internet, mas assim seria mais rápido. E com tanta informação que todos esses produtos têm de mostrar, por lei, era apenas mais uma.
Seria, também, um bom exercício educativo para quem tem filhos, sobretudo agora com a ênfase que as novas gerações dão ao clima. É que apesar de tanta conversa, não me admira nada descobrir que ignoram que cada produto agrícola tem a sua própria época, curta ou longa, é o tipo de conexão que se perdeu com o aumento da vida citadina.
Resumindo, tentemos desacelerar e “desbaralhar” o tempo, penso que isso nos permitiria apreciar melhor cada época do ano e o que ela nos traz.
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