Vou mudar, mais uma vez, o tema desta semana face a acontecimentos recentes ocorridos no estrangeiro e em Portugal.
Começo, claro, pelas eleições americanas e pelo espanto de jornalistas, comentadores e outros que tais em relação à vitória esmagadora de Trump. Muito francamente, só quem vive numa bolha – a versão atual da torre de marfim de outrora – ficaria admirado com este resultado. É que, para quem conhece bem as manipulações da comunicação social, “empate nas sondagens” significava, claro, que os Republicanos iam bem à frente.
Da noite eleitoral, a minha parte favorita foi ver a CNN (a americana) a tentar adiar o anúncio da vitória do seu inimigo de estimação até bem depois de até chefes de estado – e a própria Kamala – a terem admitido. Adorei, também, no dia seguinte ouvir os “especialistas” que sabiam que Trump ia perder a dar voltas e reviravoltas para explicar o sucedido, embora tudo bem espremido se resumisse a “os eleitores são estúpidos” ou, como ouvi dizer, sofreram uma lobotomia.
O que não ouvi foi uma análise a sério às verdadeiras razões deste resultado – ou de resultados similares na Europa. Os donos da verdade (DDV) continuam a considerar os eleitores uns acéfalos que TÊM de seguir as suas indicações e só votar em quem eles, os únicos inteligentes e entendidos, claro, acham que é digno de governar.
Ou uma explicação para uma frase muito usada, “Não gostava da Kamala, mas era melhor que o Trump”. A sério? Em quê? É que note-se que não se viu uma análise a sério sobre ela durante a campanha, evitou-se falar da sua vida, das suas votações e afirmações, só se ouviam podres, reais ou imaginários, sobre o outro.
Uma coisa é certa, este resultado facilitou muito a vida a políticos “bem” e a comentadores, só têm de ir buscar à gaveta os inúmeros cenários de catástrofe que anunciaram há 8 anos, acrescentando-lhe, apenas, a Ucrânia. Pois, vem aí o fim do mundo... pela segunda vez.
Até a ignorância sobre o sistema governativo americano é a mesma. Sim, Senado e Casa dos Representantes são agora Republicanos, mas isso não significa “rédea solta” para o Trump, como dizem. É que, ao contrário do que se passa em Portugal, cada um desses congressistas vota como quer, mais ainda, responde perante os seus eleitores. Ou seja, não votam de cruz, como cá.
Mas passemos a outro tema, este bem local. Como seria de esperar, o Senhor de Belém foi visitar a viúva do “bom” cidadão morto pelo “mau” do polícia, em mais uma prova da total falta de respeito que sente pelas Forças da Lei. Bom, é claro que foi até ao dito bairro rodeado... de polícias! Já o motorista de autocarro barbaramente queimado e ele, sim, um cidadão honesto e trabalhador, mereceu apenas um telefonema. E os passageiros esfaqueados... nada.
É bom sabermos que o “Presidente de todos os portugueses” só se preocupa com alguns, normalmente aqueles que dedicam o seu tempo a prejudicar os outros, os que, com os seus impostos, lhe pagam o salário e as mordomias. Mas tudo bem, o importante é mostrar que está do lado “do povo”. E depois admiram-se quando o dito povo vota em partidos do desagrado dos “bem-pensantes”!
Mas há pior. O Chega foi criticado por apoiar a Polícia “antes da averiguação dos factos”. Mas o BE tomou a posição oposta sem qualquer problema. E não nos esqueçamos do seu cartaz de 2020 a dizer “Um polícia bom é um polícia morto”. Já agora, em que ficou a queixa do sindicato da PSP sobre esse caso? E houve algum baixo assinado de queixa ao Ministério Público, como vimos agora perante declarações de membros do Chega?
Temos, ainda, a polémica da perda de casa para quem cause distúrbios. Mas que grande onda de indignação! Até as “mulheres socialistas” vieram em defesa do sistema atual – aqui para nós, isto só demonstra o que dá usar quotas para encher lugares na Assembleia da República, as mulheres competentes fogem a sete pés da política nacional.
Pelos vistos, para toda essa gente “bem”, as casas camarárias, pagas com os impostos de quem trabalha, devem continuar nas mãos de criminosos de todo o tipo. Ou seja, os impostos de Tiago, o motorista do autocarro incendiado, e os da sua família, vão, alegremente, para dar casa a bom preço – isto se pagarem a renda, o que muitos não fazem – de quem o pôs no hospital e lhe arruinou o resto da vida.
É um tema a que voltarei a curto prazo.
Finalmente, a tragédia de Valência – e foi, de facto, uma tremenda tragédia, infelizmente já aproveitada para fins políticos. Sobre as suas causas, sobretudo o sempre popular “a culpa é das alterações climáticas” falarei no post da próxima semana. Para já, mencionarei apenas duas coisas que me intrigam.
Quanto à primeira, toda aquela região quer ser independente de Espanha, a simples autonomia não lhes serve. Mas quando as coisas correm mal culpam o governo central por não agir mais depressa? Sim, concordo que deviam ter despachado logo o exército e declarado o equivalente à nossa “catástrofe nacional”, mas será que o podiam fazer face às regras da autonomia daquela região?
Mais uma vez, é uma explicação que fica por dar, apesar das milhentas reportagens no local.
A minha segunda dúvida tem a ver com o modo como Sánchez e os reis de Espanha foram insultados e agredidos, sabendo-se agora que essas manifestações foram organizadas pelo partido Vox. O problema é que o Vox faz parte, desde 2023, do governo daquela região autónoma. Ou seja, se houve atrasos nos avisos à população e, acima de tudo, nos pedidos de ajuda – e parece que é verdade em ambos os casos – o Vox está, necessariamente, implicado. Bom, pelos vistos a hipocrisia e o “dois pesos e duas medidas” não são exclusivos da direita!
Para a semana: Voltemos ao clima? Com a catástrofe de Valência voltámos, claro, a ouvir falar nas alterações climáticas