Luísa Opina

Neste blogue comentarei temas genéricos da nossa sociedade.

163 - Eleições americanas

Jornalistas, comentadores, "espanto"...

Falei um pouco sobre este tema em Seria um espanto..., mas, como foi apenas um dos três temas tratados nesse post e a “saga” continua a todo o gás decidi voltar ao assunto.

Começo, de novo, pela surpresa e choque demonstrados por comentadores, jornalistas e outros que tais perante os resultados. Mas, passados quase 20 dias, ainda não vi uma análise a sério das razões desse descalabro. Pior ainda, continuamos a ouvir que os que votaram Trump estão todos errados e foram influenciados por forças malignas – Vade retro, Satanás!

Confesso que tenho adorado o choro, ranger de dentes e arranque de cabelos que a dita vitória despoletou. Temos “sumidades” como a Whoopi Goldberg a aderirem a uma greve de sexo! Outras rapam o cabelo em protesto à retirada (suposta) dos seus direitos reprodutivos, ou seja, o aborto.

Voltámos, claro, a ouvir juras de saída do país. Confesso que algumas me deixaram um tanto confusa, é que ouvi as mesmas pessoas dizerem o mesmo há 8 anos e, que me conste, ficaram por lá. Sem falar nos anúncios, com pompa e circunstância, da saída do X (ex-Twitter) de pessoas que nem sabemos quem são e nem queremos saber. O problema é que o Musk já avisou que quem sair, sai mesmo – ou seja, não há regressos daqui a uns dias ou semanas quando virem que perderam a grande maioria dos seus seguidores.

Ora se toda esta gentinha parasse para pensar um niquinho era bem capaz de descobrir a resposta ao muito badalado “Como foi possível?!!!” É que continuam a manter na sua mente o mito da esquerda defensora dos pobres e oprimidos, da classe trabalhadora e das minorias, quando na realidade não fazem a mais pálida ideia sobre o que são e como pensam essas pessoas.

Já há anos que os EUA embarcaram numa onda de reescrever a história, de vitimizar grupos que lhes caiam no goto, de embarcarem numa política de evitar “agressões” – com sentido definido por eles, claro. Temos também as “causas”. A catástrofe climática, a igualdade de género e, mais recentemente, a “identidade de género” – para os mais distraídos, deixou de haver dois sexos.

Com tudo isto, conseguiram um brilharete: acordar a enorme massa que, em geral, não pensa em política, está demasiado ocupada a tentar sustentar-se e à família ou, também acontece, é demasiado comodista para ir votar. Já agora, sempre achei que foi por isto que a nossa Constituição, tão de esquerda, não inclui a obrigatoriedade de ir votar – é que muita da abstenção costuma vir do chamado centro-direita...

Infelizmente, não aprendem a lição. Continuamos a ter a mesma desinformação, desde que seja contra o Trump. Por exemplo, ainda outro dia ouvi uma “perita” a falar na lei de proibição de muçulmanos viajarem para os EUA quando, na realidade, a lista de países tinha sido feita pelo Obama e incluía a Venezuela – alguém avise o Maduro que governa um país muçulmano!

Mas as minhas cenas favoritas têm sido o modo como anunciam as várias nomeações para o governo Trump. Procurem os nomes no Google e verão que o “apresentador de TV” é um militar condecorado com bestsellers na Amazon sobre defesa e política externa e que a tal “magnata da luta livre” tem um longo historial de dedicação a causas de educação e pertence, até, à direção de um universidade, isto só para dar dois exemplos.

Ora para mim, a conclusão mais importante destes resultados eleitorais é outra. Durante os últimos anos, demasiados, aqui para nós, a esquerda e os “bem-pensantes” faziam e diziam o que muito bem lhes apetecia, sem oposição e sem controlo. Movimentos inicialmente justos – como salários iguais e respeito pelas diferenças – tornaram-se autênticos ogres, prontos a eliminar quem ousasse criticar ou mostrar alguma renitência.

Pior ainda, em muitos casos nem era preciso fazer nada, bastava que os Donos da Verdade (DDV) achassem mal – por exemplo, dizer “branquear os factos” passou a ser racista!

Ou seja, a ideia de dar a todos um lugar na sociedade, independentemente da sua raça, sexo, crença ou outras diferenças, transformou-se em militância para elevar certos setores com base em alegadas discriminações anteriores, muitas vezes mero fruto da imaginação delirante de algum DDV.

Passámos, pois, a viver numa sociedade em que quem mais protesta, berra e incomoda “leva a taça”, pior ainda, fá-lo espezinhando quem acham que não está de acordo. E o respeito pelas minorias transformou-se, sem mal darmos por isso, na ditadura absoluta das minorias.

Ora o que estas eleições americanas – e algumas europeias – mostram é que a tão esquecida “maioria silenciosa” fartou-se, finalmente. Fartou-se de ser gozada, insultada e desprezada por trabalhar, por tentar levar uma vida decente e honesta, por querer educar os filhos de modo a tornarem-se cidadãos produtivos, enfim, de serem tratados como cidadãos de vigésima categoria apesar de serem eles quem sustenta o respetivo país.

Sim, é muito possível que se tivessem uma boa opção não teriam votado no Trump. Mas lembremo-nos que era ele ou a Kamala, o exemplo acabado de tudo o que eles estão a contestar. E o facto de os andarem a insultar por terem votado deste modo só reforça a ideia de que está na altura de porem fim ao regabofe.

Pior ainda para wokes, DDV e esquerda em geral é ter-se arreigado nessa maioria pacata a ideia de que ninguém zela pelos seus interesses e que se não fizerem algo acordarão um dia sem direitos de qualquer tipo. E perante “o mais do mesmo” a que temos assistido por parte de políticos, comentadores, etc., suspeito que vai haver muito mais “espantos” aquando das próximas eleições nos vários países ocidentais.

Para a semana: A “querida” esquerda. Da celebração (tardia) do 25 de novembro à “catástrofe” climática e ao papão da privatização e muito mais

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