Como muitas outras coisas, também o feminismo foi bem útil e necessário quando surgiu, tendo descambado posteriormente. Ou seja, o que começou como um movimento para dar às mulheres os mesmos direitos dos homens – nomeadamente o voto – e a possibilidade de estudarem e terem profissões sem restrições devidas ao seu sexo foi-se transformando em quotas e numa espécie de ditadura contra, precisamente, as mulheres.
Com a minha idade e o facto de ser portuguesa, assisti a várias dessas etapas, umas mais pessoalmente do que outras. Por exemplo, lembro-me de ter ficado chocada por uma colega do liceu, uma vez terminado o 5.º ano em Moçambique não ter podido ir fazer um curso de secretariado na então Rodésia porque o pai, separado da mãe – lembro que na época não havia divórcio – não autorizou a sua saída do país e era o único a poder fazê-lo.
Comecei a ler e a informar-me e alguns anos depois reparei num pequeno fenómeno: se uma mulher dizia que era “dona de casa”, bom, era olhada de lado por muitas outras mulheres e vista quase como uma coitadinha vítima da subjugação masculina – por muito mentira que fosse, quantas vezes era ela que mandava nas finanças domésticas e não só. Ou seja, para não ser menosprezada, uma mulher tinha de arranjar um emprego.
Daí até aos berros por quotas e equidade foi um passinho.
Uma afirmação muito repetida e que sempre me intrigou é a de que o mundo seria um lugar melhor se fossem as mulheres a mandar porque têm mais empatia e são menos violentas – pois, perguntem à polícia americana, por exemplo, quem é “melhor”, gangs de rapazes ou de raparigas, a resposta poderá espantar-vos. Só que quando se trata de empregos e carreiras, as mesmas que o dizem agem como se, afinal, homens e mulheres fossem iguais no modo como pensam e, acima de tudo, nas suas aspirações.
Enquanto que para muitos homens a vida resume-se ao trabalho e pouco mais – daí a dificuldade acrescida que têm em adaptar-se à vida após a reforma – muitas mulheres aspiram por algo mais, ou seja, por terem vida pessoal e familiar. Pode-se, até, dizer, que são muito mais fãs do famoso equilíbrio entre vida laboral e vida pessoal que tantos apregoam como desejável.
Só que quem quer quotas para tudo e mais alguma coisa parece ignorar ou, no mínimo, desprezar, esta diferença. E é importante porque é praticamente impossível chegar a dirigente de topo sem dedicar ao trabalho a maior parte do seu tempo e atenção – bom, exceto os “boys” de ambos os sexos, claro. Por isso quem quer o mesmo número de mulheres nesses cargos, das duas uma: ou quer que as mulheres esqueçam aquilo que as faz feliz para se converterem em máquinas de trabalho; ou esperam que os homens trabalhem ainda mais para compensar...
Estranhamente, as quotas só vêm a lume quando as mulheres estão em número inferior. Mas se for o contrário, então está tudo bem. E, pequeno detalhe, há agora bastantes profissões – e cursos universitários – em que as mulheres ultrapassaram os homens. Por exemplo, juízes, em 2006 havia 809 mulheres e 841 homens e em 2020 passaram a ser 1072 mulheres para 659 homens – vamos criar uma quota?
Quanto à sobrecarga que as mulheres têm porque, para além do emprego, cuidam da casa e dos filhos, já falei anteriormente nisso, vou só referir um pequeno detalhe. Há países em que a luta pela igualdade já tem umas boas três gerações, como a Suécia. Estamos, pois, a falar de pelo menos uma geração de rapazes que foram educados por mães feministas que, supostamente, tratavam filhos e filhas de igual modo. E não aprenderam nada? Ou não lhes foi ensinado que um lar é uma partilha – como digo num dos primeiros posts deste blog, Os homens não devem ajudar em casa (leiam, não é o que pensam...)?
Tudo isto me leva a um novo movimento que começa a surgir em vários países conhecidos pelo que têm feito pela igualdade das mulheres na sociedade, nomeadamente a Suécia, essa pioneira que se gaba de garantir a equidade em todas as áreas. Em inglês chama-se “soft girls” – raparigas suaves, numa das suas aceções – e que tem atraído a ira das atuais feministas.
Basicamente, uma adepta da “soft life” não se interessa por progredir numa carreira, dá, sim, valor a cuidar de si e a apreciar a vida, de preferência tendo alguém que cuide dela. Ou seja, dias calmos, exercício suave e não sessões árduas num ginásio, basicamente, deixar correr o marfim. O seu grande objetivo é vir a ter uma vida que consista, para além de cuidar de si, em tratar do namorado ou marido e cuidar da casa de ambos e dos filhos, caso os tenha,
Curiosamente, ou talvez não, muitas das que aspiram a este tipo de vida são filhas de mulheres com boas carreiras e que as educaram para serem iguais aos homens em termos de trabalho e de estudos. Um inquérito recente na Suécia mostrou que 14 % das raparigas entre os 14 e os 25 anos almejam, acima de tudo, virem a ser “soft girls”. E esse número está a aumentar ano a ano. De tal modo que a maior agência de encontros do país alterou os seus serviços uma vez que muitas das mulheres que a procuram querem agora um homem 10 a 15 anos mais velho e com uma vida económica estável... hum, definitivamente um regresso ao passado.
Penso que este é mais um dos casos em que se esticou demasiado a corda, levando muitas mulheres a sentirem-se culpadas por não quererem ter uma carreira – em vez de um emprego – e por gostarem de coisas “femininas” no sentido tradicional do termo. E o mal foi alguém ter começado a dizê-lo nas redes sociais, muitas outras descobriram que, afinal, não eram as únicas a pensar assim e... pronto, surgiu o movimento “soft”.
Para a semana: Poder local. A propósito da lei vetada de voltar a desagregar freguesias