Luísa Opina

Neste blogue comentarei temas genéricos da nossa sociedade.

182 - Deixámos ficar mal os jovens

Questão pertinente face às inúmeras notícias recentes de crimes cometidos por jovens.

Nas últimas semanas temos sido inundados com notícias de crimes, na sua maioria bastante graves, cometidos por jovens. Já não são simples desacatos numa escola, até estes envolvem, agora, muitas vezes esfaqueamentos. Fora carros incendiados e a já famosa violação em grupo de uma jovem, filmada e posta na Internet onde mais de 30 000 pessoas – presume-se que jovens – a viram e nada fizeram.

É opinião generalizada entre comentadores, sociólogos e muitos outros supostos especialistas que os jovens atuais têm mais problemas e uma vida bem pior do que os que os antecederam. Mas será mesmo verdade? E, claro está, falam sempre da dificuldade de arranjar o que chamam um emprego condigno e uma casa acessível. Mas serão mesmo essas as preocupações de jovens de 14, 16 ou até 18 anos?

A sensação com que se fica é que os jovens atuais andam à deriva, focados apenas em coisas materiais, no “parecer” e no ilusório das redes sociais. Vi, aliás, algo recentemente que me chamou a atenção, uma imagem de jovens de telemóvel na mão com a legenda: nunca uma geração se documentou tanto a não fazer nada (estou a parafrasear).

Pessoalmente, acho que a culpa não é dos jovens mas sim da sociedade em que cresceram. E não me refiro a dificuldades económicas, bairros sociais, etc., os argumentos usuais para justificar o que se passa. Não, para mim, a questão é outra, está na falta de limites dados pelos seus supostos educadores e, também, na falta de contacto dos ditos jovens com o mundo real.

Há a ideia espetacular, nascida do 25 de abril, de que dizer não a uma criancinha, impor-lhe limites e regras, é fascismo. Junte-se-lhe a impunidade de que gozam – lembro que um rapaz não foi condenado a uma pena a sério por esfaquear e matar um amigo porque lhe faltava um mês para fazer 18 anos! – e temos uma receita para o descalabro total a que assistimos. Ou seja, a criancinha que se porta mal aos 8, 10 anos, sem ser sequer repreendida, acaba, muitas vezes a cometer coisas bem mais graves com a ideia subjacente de “sou menor, não me vai acontecer nada”.

Junte-se a isso o sistema atual, em que a maioria dos jovens chega à maioridade sem nunca ter feito nada, em muitos casos nem estudam a sério, porque “não vale a pena”, não há exames. Será mesmo o melhor para esses jovens e para a sociedade? Pior ainda, muitos têm uma ideia muito vaga do que é trabalhar, ter um emprego, enfim, fazer pela vida, mesmo quando têm bons exemplos em casa – refiro-me, claro, a pais que trabalham e não os que vivem do chamado Rendimento Mínimo, suplementado ou não por atividades paralelas.

Não estou a defender um regresso aos “velhos tempos” em que se começava a trabalhar cedo e em que mesmo muitos dos que estudavam tinham de contribuir para os fundos familiares – e render na escola, claro, ser estudante estava dependente de ter bons resultados.

Penso que já referi anteriormente um estudo feito num liceu com alunos dos últimos anos em que tinham de preencher uma folha com o custo de alguns produtos. Estes iam dos chamados bens necessários – leite, pão, etc. – a telemóveis e jogos de computador. Pois bem, nos primeiros, erravam por baixo, mesmo muito por baixo. Já nos segundos, acertavam ao cêntimo.

Na minha opinião, este clima de não os disciplinar e de nada fazerem até aos 18 anos, ou bem mais, exceto divertirem-se, tem consequências péssimas para os jovens. Penso, pois, que deveria haver dois tipos básicos de medidas.

A primeira seria a implementação do serviço cívico – estranho, até, como um país dominado durante anos pelo PCP no pós-25 de abril não o tenha feito! E a começar logo aos 12 anos, com obrigações e horários adequados à respetiva idade – podiam ir a centros de dia ou lares fazer companhia a idosos, por exemplo.

Haveria, depois, vários escalões etários, cada um com a sua carga horária e tipo de trabalhos possíveis. E, pequeno detalhe, não haveria entrada numa universidade ou curso prático nem qualquer tipo de subsídio se esse serviço cívico não tivesse sido cumprido.

Para além de ocupar os jovens, teria a vantagem de os pôr em contacto com o mundo real, de criarem hábitos de trabalho e, acima de tudo, de fazerem a sua quota parte pela sociedade, ao arrepio da atitude atual de que o mundo lhes deve tudo e eles não devem nada a ninguém.

Já agora, os jovens de famílias endinheiradas precisam talvez ainda mais disto. A menos que os pais os eduquem devidamente em vez de se limitarem a dar-lhes mesadas quantas vezes superiores aos salários de muito boa gente que se esfalfa a trabalhar. Pensemos no exemplo americano, em que muitos filhos de milionários trabalham no verão no que calha e, a menos que tenham um Fundo à sua espera, fazem pela vida porque a lei americana de heranças pode deixá-los sem nada...

A segunda alteração, mais difícil de implementar rapidamente, seria a já bem tardia alteração do Código Penal. Basicamente, se têm idade para cometer um crime, têm idade para serem punidos por ele. Criação, pois, de Centros de Detenção a sério para jovens onde, à semelhança do que se passa noutros países, tudo tem de ser conquistado com bons comportamentos, até um telefonema para a família.

E pô-los fora dos grandes centros urbanos, de preferência em zonas rurais onde possam trabalhar a terra para fazer face a algumas das despesas do dito Centro – ou seja, uma versão atualizada da Casa do Gaiato de outrora, mas para jovens condenados. Sim, ficam longe da família e amigos, mas não são estes muitas vezes a raiz do seu mau comportamento ou, o mínimo, os seus facilitadores?

Último detalhe, para crimes graves, como mortes e violações, condenação à pena total prevista para adultos, que seria cumprida num Centro de Menores até aos 18 anos, passando, depois, para uma cadeia normal. Ou seja, nada de “sou menor, assim que for adulto estou livre” dos poucos casos que dão detenção num centro juvenil.

Para a semana: Contradições e má fé Pequenas dúvidas que acontecimentos recentes me deixaram

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