Luísa Opina

Neste blogue comentarei temas genéricos da nossa sociedade.

183 - Contradições e má fé

Pequenas dúvidas que acontecimentos recentes me deixaram

As últimas semanas têm sido férteis em casos relevantes para este post, quer a nível do nosso país, quer internacionalmente.

Comecemos pelo nosso país e pela campanha eleitoral – ou antes, campanhas, há ocasiões em que fica a dúvida sobre o alvo dos discursos que ouvimos, se são para as legislativas ou para as autárquicas. Sem esquecer os candidatos presidenciais que vão, na sua maioria, metendo a colher.

Foi com bastante espanto, estupefação, até, que tenho ouvido o dirigente do PS anunciar tudo o que irá fazer se for primeiro-ministro. A fazer fé nas suas promessas, iremos ser, a curto prazo, um verdadeiro paraíso à beira-mar plantado. Mas...

Será que esse senhor acha que os eleitores são estúpidos e, acima de tudo, desmemoriados? É que estou certa de que muitos recordam que saímos há apenas um ano de 8 anos de governação PS, 4 deles com maioria absoluta na Assembleia da República. Ora se o partido tem ideias tão boas, porque não as implementou durante esse períodos? Sobretudo no segundo mandato do Senhor Costa

Aliás, olhando para os muitos governos que tivemos – 16, desde 1976 – não deixa de ser curioso notar que o maior partido da oposição, seja o PS ou o PSD, está sempre cheio de boas ideias, não lhe faltam frases do tipo, “se fôssemos nós a governar...”, mas quando passam a governo... nada! Dá a impressão de que a cerimónia da tomada de posse inclui um sérum do esquecimento.

Temos, também, a questão da imigração, parece que os grandes partidos despertaram, finalmente, para a noção de que é um tema que preocupa, e de que maneira, os eleitores. E aqui sou forçada a referir, de novo, o PS.

Não ficam pasmados ao ouvir esse partido afirmar que irá “firmar” as leis de entrada de emigrantes e as da nacionalização? Se bem me recordo, foram eles, na douta pessoa do Senhor Costa, a escancarar as portas do país, a dar a residência a originários dos PALOP e a permitir a nacionalização após uns meros 5 anos no país.

E, lembro, isto não foi há décadas, o governo que fez tudo isto terminou o seu mandato há apenas 1 ano!

Passemos, agora, ao plano internacional e, inevitavelmente, ao Trump, Putin, Ucrânia, tarifas e isso.

Comecemos pela Ucrânia. Ouvindo os líderes europeus ficamos com a ideia de que sempre apoiaram este país contra a agressão russa, juntamente com o seu muito queridinho Biden. Mas foi mesmo assim?

Bom, quando a invasão começou, a única coisa que membros da UE e EUA fizeram foi oferecer asilo político ao Zelensky. Atendendo a que o Putin afirmava na altura que só queria “retomar” duas zonas junto da fronteira russa, esta oferta equivaleu a anuir, pelo menos implicitamente, com a invasão e ocupação total da Ucrânia.

E só se começou a apoiar militarmente esse país quando começou a ser vergonhoso ver tantos ucranianos a lutar e a morrer enquanto permanecíamos de braços cruzados. Mesmo então, foi um apoio de mansinho, para não irritar muito o Putin, a começar pelas sanções, suaves até dizer chega e que só se agravaram perante a continuação da agressão.

Mas o mais absurdo ainda estava para vir. É que o armamento fornecido ia com condições! Ou seja, só podia ser usado dentro do território ucraniano e nunca, mesmo nunca, em contra-ataques em solo russo. Leio muita história e, francamente, esta é uma estreia.

As coisas só mudaram com o “mau” do Trump, reparem que desde outubro, quando foi eleito, os ucranianos passaram a atacar fortemente em solo russo.

Temos, depois, a ideia muito divulgada de que Trump não quer saber da Europa, pior ainda, quer entregar a Europa a Putin. Pois, não deixa de ser curioso ver que, devido ao seu discurso, começa a concretizar-se um dos pesadelos do ditador russo, uma Europa armada e com consciência de que “tem de fazer pela vida” nessa área – lembro que a Alemanha alterou, até, a sua Constituição para se poder rearmar sem as restrições financeiras em vigor.

Quanto às tarifas, não entendo o espanto que suscitaram. Foram um dos grandes temas de campanha de Trump e mal foi eleito anunciou que seriam um dos seus primeiros atos mal tomasse posse. Eu até entendo, onde é que já se viu um candidato a cumprir promessas eleitorais? Se a moda pega...

E o que é que a UE e os outros países fizeram? Nada. Pior ainda, quando surgiram as primeiras tarifas contra o México e Canadá, suspensas de imediato porque esses dois países entraram logo em negociações, continuámos a assobiar para o ar. Daí a surpresa total perante o cumprimento de algo que foi repetidas vezes anunciado.

O mais curioso é que, com tantas opiniões, tantos comentadores, ainda não vi uma tabela a mostrar, para os principais produtos em causa, o que se paga para exportar para os EUA e o que estes pagam na reciprocidade. Conheço alguns elementos e até entendo a omissão, não correspondem ao discurso oficial de EUA maus, todos os outros vítimas.

Já agora, a suspensão não significa uma mudança de ideias, é que 70 dos países abrangidos começaram, finalmente, a negociar. O que me leva ao último ponto, ouvi muito dizer que, claro, esses países irão tentar obter o melhor acordo para si. Obviamente! Só que quando o Trump faz o mesmo, é protecionismo...

Finalmente, a China, a grande “vítima” de Trump. Até concordo que este começou uma guerra comercial com ela, é que até agora a China tem feito o que muito bem lhe apetece. Exporta sem restrições produtos feitos por mão-de-obra escrava, perdão, cidadãos desviados enviados para centros de “reeducação”, ou por em locais sem leis laborais de jeito – lembro que em muitas fábricas trabalham 8 horas por dia, 7 dias por semana, sem férias. Mas, curiosamente, a nossa esquerda, tão preocupada com os direitos dos trabalhadores, nada diz a este respeito.

O pior é que se queremos exportar para a China, pois bem, surge todo o tipo de restrições, obrigações, pagamentos, atrasos, enfim, é extremamente difícil, quase impossível, até. E é a vítima?!!!

Para a semana: Vida justa E não estou a falar do movimento com este nome.

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