Hoje vou continuar a falar de algumas palavras e expressões que, ou têm agora um “novo” significado ou têm sempre, implícita ou explicitamente um “rider”, ou seja, um “cláusula adicional” que lhes altera o sentido – sabem, como naqueles contratos em que adoramos uma alínea e depois vemos em letras pequenas “apenas se...” ou algo desse género que a invalida ou, no mínimo, lhe deturpa o sentido.
E para quem não leu a primeira parte, uso neste post a sigla DDV, Donos da Verdade, os criadores ou utilizadores assíduos deste novo dicionário e com quem é de muitíssimo mau tom discordar – ao fim e ao cabo, a verdade é só uma e uma apenas e é a que eles decidem que é.
Comecemos, pois.
Fascismo
Consultando o dicionário, uma das aceções da palavra é “forma de poder que exerce um forte controlo ditatorial” Ou, “sistema caracterizado pelo exercício de um poder centralizado baseado na repressão de qualquer forma de oposição”. E fascista seria, claro, alguém adepto desta teoria que, talvez por ter sido Mussolini a usá-lo, está conotado com a direita.
Na recente campanha eleitoral, e não só, foi um dos termos mais ouvidos, aplicado a torto e a direito – sobretudo a torto. O que nos deixa a dúvida: será que a palavra continua a significar o mesmo?
É claro que não! Para os DDV, “fascista” é qualquer pessoa de quem discordam. Ou alguém que não os apoia cegamente. Pior ainda, às vezes a acusação nem tem a ver com o que a pessoa disse ou fez. É que para além de donos e senhores da verdade, esses iluminados da nossa sociedade têm a capacidade de ler pensamentos e acabamos por ouvir inúmeras vezes esta frase muito curiosa (pelo menos para mim...): “Bom, ele não disse bem isso, mas é o que realmente pensa.”
Ainda mais curioso é ver pessoas, e partidos, adeptos de regimes totalitários do piorio que houve e há a chamarem fascista a pessoas do campo ideológico oposto! É que, aparentemente, uma ditadura só é ditadura se for de “direita”, isto porque, muito simplesmente, uma ditadura de esquerda é uma “ditadura do povo”. Pois, o problema é que povo não somos todos nós...
Investigação
Antigamente, investigação significava “procurar informação sobre determinado assunto, indagar”. Ou seja, cientistas procuravam factos que provassem ou desmentissem uma sua teoria, jornalistas tentavam fazê-la sem ideias preconcebidas ou, pelo menos, com a mente aberta à hipótese de os factos eventualmente descobertos serem contrários ao que tinham imaginado.
Simples, não é? Errado!
Agora, investigar significa começar com uma teoria, seja científica ou outra, e partir depois à procura de factos que a comprovem. Mas atenção, só estes, tudo o que reduza a nada essa teoria deve ser imediatamente descartado.
Um pequeno exemplo. Há uns anos, um “cientista” publicou numa revista científica conceituada um estudo em que provava que batatas transgénicas provocavam todo o tipo de doenças. E o estudo incluía uma listagem extensa dos problemas que os ratos envolvidos na experiência tinham tido. O artigo foi muito divulgado e ainda mais citado como prova de que “transgénico é mau”. Até que um aluno do liceu, que lera o artigo por imposição da professora, fez uma pergunta muito simples: “O que aconteceu ao grupo de controlo?” Pois bem, não havia nenhum! O dito “cientista” pusera simplesmente um grupo de ratos a alimentarem-se exclusivamente de batatas transgénicas. Já agora, se houvesse um grupo de controlo, o resultado seria exatamente o mesmo, com as mesmas doenças e problemas, é que segundo parece viver apenas de batatas não é uma opção viável.
À luz disto, pensem nas muitas vezes em que mostram entrevistas de rua em que, espantosamente, todos os entrevistados concordam com a ideia / opinião que o jornalista em questão afirma andar a investigar. Haverá assim tanta concordância? Ou as opiniões contrárias são simplesmente eliminadas?
Multiculturalismo
Outro termo muito na moda! Pois bem, para o meu dicionário, multicultural significa “constituído por vários grupos culturais distintos”. E com este sentido, não há dúvida de que é algo a almejar no mundo atual, com tanta circulação de pessoas.
O problema está na atual interpretação deste conceito. Basicamente, as culturas não nascem iguais, bom, a maioria até nasce, com uma única exceção: a ocidental! Deve ser tudo aceite, desde que venha de fora. Mais ainda, multiculturalismo significa agora cancelar, sim, cancelar, aspetos da nossa cultura porque poderão “ofender”.
Curiosamente, nunca é sugerido que as outras culturas eliminem ou, no mínimo, não deem realce a aspetos que nos são odiosos ou, algumas vezes, até ilegais (como a circuncisão feminina, que, espantosamente, é praticada na Europa e até em Portugal com total impunidade).
Resumindo, multiculturalismo significa agora ter vários grupos culturais distintos na mesma sociedade, desde que nenhum dele seja europeu, e a extinção de tudo o que constitui a cultura ocidental.
Para a semana: Lamento os idosos com dinheiro – leiam e verão porquê