Ao escrever este título sei bem que estou totalmente em contracorrente com a opinião vigente no nosso país. Sejam políticos, comentadores ou simples membros da sociedade, só ouvimos lastimar os “velhinhos, coitadinhos” que têm pensões miseráveis. E sim, são muito baixas e seria bom e justo que tivessem muito mais depois de uma vida de trabalho.
Ouvimos também dizer muito, “Fulano ou Sicrana está bem na vida, tem uma bela reforma.” Ou até, “Com a reforma que recebe, não deve ter preocupações.”
Até certo ponto esta atitude não me espanta porque vivemos num país que parece acreditar que o dinheiro é a pedra mágica que resolve todos os problemas. O ensino é mau? Aumente-se o orçamento da Educação! Saúde? Mais dinheiro, claro! Não há setor nenhum que não funcionasse às mil maravilhas se tivéssemos uma fábrica de dinheiro para distribuir a rodos.
O problema é que no caso dos idosos esta atitude tem consequências bem graves. Com as atenções viradas exclusivamente para as pensões baixas, todos os apoios são-lhes dedicados, desde refeições ao domicílio a todo o tipo de ajudas com compras, etc.
Segundo parece, um reformado com dinheiro não tem necessidades. Ou se as tem, basta pagar e pronto, problema resolvido.
Ora a realidade é bem diferente. Senão, vejamos.
Se um idoso tem problemas em movimentar-se, não é o dinheiro que o vai alimentar. Precisa de ajuda com as compras básicas e, acima de tudo, com a confeção de refeições. Se pode sair, mesmo com limitações, tem, claro, a solução de comer fora. Mas, e se não pode? Pois bem, está por conta própria.
Dir-me-ão, pode sempre encomendar via Uber Eats (passe a publicidade) ou outro serviço similar. A sério? Acham mesmo que uma pessoa de 70, 80 ou mais anos se entende com essa “modernice”?
Dirão ainda, mas há refeições congeladas que podem comprar em quantidade e ir comendo. O primeiro problema é que pessoas dessa faixa etária são de uma época de “o congelado é mau”. Segundo, já repararam nas doses? Para a maioria dos idosos dão para duas ou três refeições e não há como descongelar só uma parte.
Já agora, num país em que tanto se fala do envelhecimento da população, que tal uma das muitas empresas de congelados criar embalagens para idosos em que a dose normal era dividida em duas secções, seladas individualmente, assim os que comem muito usavam ambas, mas os que comem pouco descongelavam só uma.
Há ainda um fator que afeta sobretudo as mulheres idosas e que se resume à célebre frase, “só para mim não vale a pena”. E acabam por viver de chá e umas bolachinhas, com gravosas consequências para a saúde, andando pior alimentadas do que muitos idosos com uma fração da sua reforma mas que têm acesso a refeições levadas a casa.
E para terminar este tema, porque será que esses serviços, sejam da Câmara ou da Paróquia, não funcionam a duas velocidades? Gratuito para quem não pode pagar e pago para quem tem uma boa reforma. Com a vantagem de que os pagantes ajudavam com as despesas, permitindo assim chegar a mais pessoas.
Um outro problema para os reformados “ricos” é a solidão. Vivem normalmente em bairros melhores, em que não há o sentido de vizinhança de bairros mais populares. Repare-se até que o célebre trabalho da Polícia de identificar e verificar periodicamente a situação dos idosos da sua área só existe em determinadas zonas, quase todas no centro das cidades, onde não residem muitos reformados com boas posses.
Mais ainda, como a reforma advém dos descontos que fizeram durante a chamada vida útil, isso significa que passaram muita da sua vida adulta a trabalhar, com pouco espaço para amizades e contactos externos. Uma vez reformados, esses contactos diários acabam e veem-se de repente num enorme vazio em termos de relações humanas. E muitos estão demasiado arreigados aos seus hábitos para procurarem novas amizades ou para travarem novos conhecimentos.
Sim, há muitos locais onde o poderiam fazer, nomeadamente os centros de dia, o problema é que estes são frequentemente vistos como locais onde largar familiares idosos de que não se pode tomar conta durante o dia. Junte-se-lhe a vertente económica, ou seja, a preferência ou até exclusividade dada a quem tem reformas baixinhas e vemos que não há muitos sítios que possam frequentar com atividades e diversões próprias para a sua idade.
Como passamos a vida a importar dos EUA coisas terríveis, que tal usarmos uma boa para variar? Trata-se de um país cheio de prédios para reformados, aldeias de reformados, bairros de reformados, enfim, um nunca acabar de soluções para uns chamados “Anos de Ouro” ativos e confortáveis. A grande crítica que lhes é feita é que são só para quem tem posses, deixando implícito, tal como aqui, que um idoso com dinheiro está por conta própria e não merece nada da sociedade em que vive.
O que me leva aos lares. Vemos frequentemente na televisão rusgas feitas a lares sem condições, que são logo encerrados – curiosamente, arranjam sempre vagas em lares “oficiais” para quem dali é tirado, deixando-me suspeitosa sobre se quem denunciou a situação não terá sido um familiar desesperado por não arranjar uma solução legítima para um idoso a seu cargo...
Estou totalmente de acordo que lares maus e sem condições devam fechar e que se deviam criar lares suficientes para quem precise (ou queira) de viver num. E com boas condições de vida de acordo com uma regulamentação virada para a realidade e não para coisas míticas como exigir só quartos individuais e com banho privativo – atendendo a que muitos idosos não podem ir à casa de banho sozinhos, faz-lhes alguma diferença se esta for comum?
Mas também aqui temos discriminação contra idosos com dinheiro. Há lares que custam 3 ou 4 mil euros por mês e em que o tratamento dado aos utentes é tão mau ou pior do que em lares sociais que custam uma fração disso. E já alguém ouviu falar em fiscalização ou encerramento compulsivo desses estabelecimentos supostamente de luxo?
Ou seja, uma pessoa trabalha toda a vida para vir a ter uma boa reforma, vai fazendo umas poupanças para não ter preocupações financeiras nos últimos anos de vida, paga um balúrdio mensal a um lar para garantir que é bem tratada e afinal é assim?
Francamente, é mais do que altura de, como sociedade, começarmos a olhar para as necessidades reais dos idosos sem as reduzirmos, pura e simplesmente, ao valor da reforma que auferem.
Os “ricos” também são gente!
Para a semana: Os falsos sinónimos – em que se fala de eutanásia, descentralização...