Esta semana consegui, finalmente, ir ler os documentos sobre as aulas de Cidadania, colocados na Internet para consulta pública. Para quem estiver interessado, a página principal é esta e contém, por sua vez, dois links, Estratégia Nacional de Educação para a Cidadania (ENEC) e Aprendizagens Essenciais de Cidadania e Desenvolvimento que nos levam a documentos .PDF que podem ser descarregados. Havia também um link para um formulário de contributos / opiniões, mas que caducou em 21 de julho.
E no papel, soa lindamente. Para quem não leu – ou não tenciona ler – o documento, aqui fica um extrato da introdução:
“A Estratégia de Educação para a Cidadania (ENEC) adota uma abordagem integrada e articulada. Primeiro, centrada na interdependência entre Direitos Humanos, Democracia e Instituições Políticas, Desenvolvimento Sustentável, e Literacia Financeira e Empreendedorismo, enquanto dimensões centrais para uma cidadania ativa e participativa num Estado de Direito e em sociedades justas e sustentáveis. Segundo, integrando ainda temáticas prioritárias, tais como a Saúde, o Risco e Segurança Rodoviária, os Media e o Pluralismo e Diversidade Cultural, de forma a adotar uma visão mais abrangente e completa do exercício pleno de cidadania.”
Soa bem, não é? O problema é que, como Francisco Porto Fernandes lembra no seu artigo no Observador Educação para a Cidadania e a bolha mediática, uma coisa é o que está “no papel”, outra bem diferente é o que se passa de facto nas ditas aulas, dadas, muitas vezes, por professores sem formação na maior parte das áreas que deveriam abordar.
Sem esquecer um pequeno detalhe, é que cada professor pode abordar apenas os temas que lhe interessam, por razões pessoais ou ideológicas, e à luz das suas opiniões. Por exemplo, no assunto Os Media, quanto apostam que censura é criticar as ideias de que eles gostam, sendo defesa da liberdade de expressão se for para eliminar as que odeiam?
Houve, claro está, os usuais choros, gritos e ranger de dentes por este novo currículo não falar em Educação Sexual nem dar realce à ideia tão querida dos Donos da Verdade, a Teoria de Género. Ouvimos previsões de um autêntico Armagedão para os jovens abrangidos por este “retrocesso ao passado”, incluindo um disparo nas doenças sexualmente transmitidas.
Curiosamente, um país onde se recorre ao Tribunal Constitucional por tudo e por nada, não deixa de ser estranho esta ênfase em dar uma educação sexual explícita na escola à revelia da opinião dos pais, quando o artigo 43.º diz, no seu n.º 2: “O Estado não pode programar a educação e a cultura segundo quaisquer diretrizes filosóficas, estéticas, políticas, ideológicas ou religiosas.” E sim, a dita educação sexual está abrangida uma vez que a sua imposição se deve a um conceito ideológico de que a criança pertence ao Estado no que diz respeito à sua educação, mais uma vez à revelia da dita Constituição que diz, no n.º 5 do artigo 36: “Os pais têm o direito e o dever de educação e manutenção dos filhos.”
Pequeno aparte, há uns anos houve manifestações de alunos e fecho de escolas a exigirem uma aula de Educação Sexual. “Estranhamente”, quando se soube que seria dada para lá do horário usual, ou seja, não iria substituir uma aula de Português, Matemática ou outra, todo esse movimento desapareceu.
Um dos “argumentos” que mais ouvi foi que o atual currículo não educa as crianças e jovens para lutarem contra estereótipos de género. Francamente! É que basta ouvi-los para vermos que são eles os grandes defensores dos ditos estereótipos – recordo que se uma rapariga gosta de matemática e de brinquedos mecânicos, então é porque nasceu rapaz no corpo errado, tal como um rapaz que brinque com bonecas é, claro está rapariga. Se isto não é um estereótipo... Já agora, recomendo aos rapazes que dizem que são raparigas porque querem usar vestidos e maquilharem-se que pesquisem o que se passa mundo fora em termos de vestuário e, acima de tudo, a história do vestuário masculino na Europa, são capazes de ter uma surpresa.
Pessoalmente, acho que é importantíssimo educar os jovens para que venham a ser bons cidadãos. Aliás, no meu livro Projeto para Portugal, há todo um capítulo dedicado ao que chamei Educação para a Vida na Escola, título que, atendendo ao conteúdo que proponho, achei mais adequado.
Só que deveria ser uma aprendizagem a sério, dada por docentes formados para a darem – de preferência com o apoio de profissionais da área quando tal se justifique, como a Saúde ou a Segurança Rodoviária. E com material de apoio que garanta que não há distorções a bel prazer da ideologia de quem a dá, sobretudo em temas como Os Media, Pluralismo e Diversidade Cultural. É que o objetivo mais importante numa cadeira destas deveria ser pôr os jovens a pensarem por si e a saberem fazer pesquisas a sério, com triagem dos resultados, para que não se deixem ir na onda do assunto ou ideia da moda.
E aos preocupados com a “igualdade de género”, não seria bem mais importante educar para o facto de que todas as pessoas merecem o nosso respeito e que, em vez de berrarem contra “marginalizações”, muitas vezes fruto da mais pura imaginação, devem, isso sim, seguir o seu caminho sem se preocuparem com o “dizem” – isso ajudaria também muito com o bullying e com os inúmeros jovens que entram em depressão ou até se suicidam devido a boatos lançados por fontes mais ou menos anónimas na Internet.
Quanto à educação sexual, deem o básico em Biologia e Saúde e deixem o resto para aulas específicas dadas com a autorização dos pais – é que, lendo e ouvindo o que os críticos desta mudança dizem, chegamos à conclusão de que os alunos pouco ou nada aprendem e que as ditas aulas não passam de um pretexto para fazer avançar agendas woke.
Para a semana: Estatísticas, precisam-se Não é estranho que num país tão burocrático como o nosso se ouça tantas vezes a frase “não há dados”?