Sempre gostei bastante de estatísticas, apesar de nunca me fiar totalmente nelas. Ou antes, na interpretação que muitos fazem dos seus resultados e que são, muitas vezes, “à medida do freguês”. Mais ainda, não nos esqueçamos de que são apenas números e que, sendo assim, o que “dizem” depende imenso dados que lhes dão origem. E, também, que nem sempre dizem o que supostamente representam – por exemplo, os dados sobre criminalidade têm implícito que todos os crimes são denunciados à Polícia, situação que está muito longe de ser verdadeira, ou seja, dizer que baixou ou subiu pode ser verdade mas pode, também, dever-se apenas a uma diminuição ou aumento de participações.
Mas vamos aos factos. Como todos, infelizmente, sabemos, vivemos num dos países mais burocráticos do mundo. Para tudo e mais alguma coisa é preciso preencher uma tonelada de papéis e ir, muitas vezes, a mais de um sítio para, com sorte, obter o que pretendemos. Temos também tido governos de várias cores políticas que se gabavam de ter modernizado o país, informatizando tudo o que, supostamente, o podia ser.
Ligando estes dois pontos, devíamos ter ao nosso dispor estatísticas atualizadíssimas sobre as coisas mais diversas, económicas, sociais, populacionais, enfim, tudinho. Só que a realidade é outra – bom, pelo menos a realidade aparente, como me lembraram num comentário sobre o post da semana passada, é muito possível que os dados até existam algures, mas não estejam disponíveis por razões diversas, quase sempre políticas.
A primeira vez que isso me chamou a atenção foi no governo do Passos Coelho, quando este pediu informações sobre os funcionários públicos, ou seja, quantos trabalhavam em cada secção e o que faziam. Seria de pensar que as receberia no máximo em 24 horas! Puro engano. Disseram-lhe que precisavam de bastante tempo para recolha de dados, este foi passando e nada. Francamente, querem mesmo que acreditemos que ninguém sabe quantos funcionários públicos temos, onde estão colocados e que funções têm?
Mantendo-nos no funcionalismo público, surge de vez em quando uma vaga notícia sobre as faltas anuais dos mesmos, quase sempre associada à ideia de que, coitados, trabalham tanto que entraram em “burnout”, um termo muito querido de sindicados e similares.
Ora como empregadora dessa gente toda – sim, são os meus impostos que lhes pagam ordenados e regalias, sem esquecer as famigeradas “carreiras” – acho-me no direito de querer ver estatísticas no mínimo mensais sobre as faltas dadas e as razões invocadas. Mais ainda, que tal incluir nesses dados o número de faltas dadas às sextas-feiras, segundas-feiras e dias entre um feriado e um fim de semana, ou seja, as pontes? Aposto que seria um leitura muito interessante...
Mudando de assunto, temos, todos os anos – sobretudo nos de eleições – a história dos alunos sem aulas. E também aqui acho extremamente curioso não se saber ao certo – pelo menos é o que dizem – quantos são, que anos frequentam e as disciplinas afetadas. Temos, assim, uma autêntica luta de números que seria cómica se não dissesse respeito ao futuro de crianças e jovens.
Ainda mais estranho é se tivermos em conta que os professores passam a vida a queixar-se das muitas horas que passam semanalmente a satisfazer requisitos burocráticos, ou seja, a preencher papelada. E com tudo isso as escolas deste país e o respetivo Ministério não sabem quantos alunos estão sem aulas num dado momento?
Temos ainda as estatísticas sobre o desemprego, que são um bom exemplo do que disse acima sobre as restrição que lhes são inerentes. É que não nos devemos esquecer que estes valores têm por base a inscrição no Desemprego e / ou num Centro de Emprego. Ora se a pessoa não tiver direito a subsídio ou não precisar da inscrição para outros fins, como o RSI, não se inscreve, pura e simplesmente e não está, oficialmente, desempregada.
É por isso que há países que dão mais ênfase aos valores da criação de emprego por os considerarem mais certos, mas também estes não são totalmente fiáveis uma vez que ignoram, como não podia deixar de ser, a economia paralela que pode, em certos casos, absorver muita gente.
Dito tudo isto, aqui ficam algumas estatísticas que eu gostaria de ver:
- Em relação ao impropriamente chamado Rendimento Mínimo, quantas pessoas têm saído dele por terem, de facto, dado a volta à sua vida e não por terem chegado à idade da reforma, é que só encontro os números de quem está nele.
- As estatísticas acima referidas sobre funcionários públicos: quantos são, por setor e subsetor, o que fazem, pelo menos em teoria, e as faltas mensais, com causa e dia da semana.
- Na criminalidade, a origem dos criminosos e não a sua nacionalidade atual, duração da residência em Portugal e, no caso dos “inquilinos” das nossas cadeias, se as famílias recebem apoio do Estado, ou seja, dos contribuintes.
- Na área escolar, valores atualizados da falta de aulas, com detalhes de anos e cadeiras, rácios de professores e pessoal auxiliar em relação ao número de alunos, faltas mensais do pessoal docente e não docente e dos estudantes.
- Quanto ao emprego / desemprego, há um número que nunca encontrei, à semelhança do que se passa com o RSI, e que é, muito simplesmente, quantas pessoas saem do Desemprego porque arranjaram emprego; mais ainda, ao fim de quanto tempo e como – ou seja, se foi através dos tais Centros de Emprego que, muito francamente, me deixam a ideia de não servirem para grande coisa.
- Já agora, e com tanto choradinho permanente sobre a falta de pessoal nas mais variadas áreas, estatísticas comparativas com o resto da União Europeia sobre o número de pessoal jurídico, médicos, enfermeiros, professores, funcionários públicos e, claro, cargos políticos por cada cem mil habitantes.
Até nem seria difícil... com tanta informatização, é só arranjarem alguém para trabalhar os números que já existem, certamente, algures.
Para a semana: O país do tudo ou nada Será a mania do perfeccionismo ou um modo de adiar tudo para "o dia de são nunca"?