Hoje vamos falar de uma tática muito usada pela nossa classe política e que consiste em começar por propagandear um conceito e depois, aos poucos e muito “inocentemente” começar a dar-lhe outro nome, deixando na mente das pessoas a ideia de que são sinónimos. Penso que com os exemplos que darei ficarão a perceber melhor.
Comecemos pelo primeiro caso, a Regionalização.
Há uns anos, este assunto esteve muito na moda, mas como não houve grande interesse em avançar, acabou por desaparecer. Ou talvez não. É que uns aninhos depois, os seus proponentes começaram a falar em Descentralização, conceito este que criou logo bastante entusiasmo.
Mas uma vez enraizada a ideia, eis que começa a “troca”. Primeiro só uma vez de quando em quando, depois com cada vez mais frequência, sempre que falavam em descentralizar a boca fugia-lhes para regionalizar.
E que importância tem isso, dirão? Pois bem, muitíssima.
Penso que muita gente concorda que no mundo atual não faz o menor sentido estar tudo concentrado num poder central única. Muitas decisões podem e devem ser tomadas a um nível mais local, nomeadamente no que diz respeito ao controlo de uma boa parte dos impostos. Também muitos assuntos em que os interessados passam semanas, meses ou mais à espera de uma decisão podiam ser muitíssimo agilizados se fossem resolvidos mais localmente.
E não me refiro apenas a nível das Câmaras, há muitas despesas, autorizações, etc. que não faz sentido não serem tratadas pelas Juntas de Freguesia. É claro que para que isso seja possível, o poder central, leia-se, os partidos suscetíveis de poderem formar governo, terão de abdicar de parte do seu controlo e, pior ainda, das pressões que podem exercer por meio de dádivas a apoiantes e simpatizantes e de cortes e problemas para os “inimigos”.
E é aí que reside a grande diferença e a verdadeira razão da troca gradual de descentralização por regionalização. É que quando for finalmente referendada, muitos votarão plenamente convencidos de que estão a apoiar uma maior descentralização, isto graças à campanha insidiosa que referi.
Ora a regionalização não podia ser mais diferente da descentralizar, uma vez que consiste em criar uma nova camada governativa, NÃO ELEITA, entre o poder central e a população. Ou seja, passaria a haver governadores regionais ou o que lhe decidirem chamar, nomeados pelo Governo da altura, que controlariam, supostamente, as decisões a nível local.
Curiosamente, ou talvez não, a ideia da descentralização -> regionalização ganhou vida quando passou a ser possível a candidatos independentes serem candidatos nas eleições autárquicas. O seu número aumenta a olhos vistos porque são pessoas da zona, de que se conhecem as capacidades, e que põem os interesses locais acima das ordens e interesses dos partidos, uma vez que não pertencem a nenhum.
E quantos mais Presidentes de Câmara e de Juntas de Freguesia e vereadores desses há, mais cresce o entusiasmo pela dita regionalização. Mera coincidência, claro está...
Passemos agora à segunda “confusão”, que diz respeito a algo que a esquerda em geral está ansiosa por implementar. Refiro-me, claro, à Eutanásia.
Mais uma vez, a pouquíssima discussão sobre este assunto começou por se referir à Morte Assistida. Também aqui penso que a maioria da população concorda que se uma pessoa está em estado terminal e a sofrer imenso, a melhor solução, a mais ética, até, é facilitar a transição para a morte.
É claro que os problemas começam logo no termo “terminal”. Pode parecer claro, mas infelizmente não o é. Se me diagnosticam um cancro com um prognóstico de sobrevivência de dois a três anos, será que estou terminal? É que se fizéssemos a vontade aos proponentes da lei, eu poderia já pedir a eutanásia para evitar o sofrimento que vem aí.
E temos aqui a grande diferença entre morte assistida e eutanásia. Por exemplo, quando se desligam as máquinas a um doente e este morre, isso não é eutanásia, uma vez que sozinho ele não consegue sobreviver. Quando se dão doses progressivamente maiores de drogas a um doente com pouquíssimo tempo de vida de modo a não o deixar sofrer, isso também não é eutanásia.
Os proponentes da eutanásia referem sempre os exemplos de pessoas que estão paralisadas há anos e que querem morrer porque estão fartas de ser um fardo para si e para os outros. Bom, se ouvem dúzias de vezes ao dia que “mais valia morrer, isso assim não é vida” e outros mimos similares, não admira que achem que estão fartos. Estranhamente, é precisamente agora que há cada vez mais recursos para essas pessoas poderem viver com um bom nível de distração e, até, de utilidade que aparecem cada vez mais candidatos à eutanásia. Se calhar devíamos era estudar o que se passa com a nossa sociedade.
O mais grave é que a eutanásia é uma das coisas que mais se presta a abusos de todos os tipos. É muito bonito dizer que a pessoa que a pede tem de estar na posse plena das suas faculdades e saber o que está a pedir. Mas já pensaram nas pressões psicológicas e não só a que muitos idosos irão estar sujeitos, a ponto de já só pensarem em morrer?
Há o caso célebre de uma rapariga de 15 anos que mal a lei foi aprovada na Holanda pediu a eutanásia porque estava demasiado deprimida para viver. Ao contrário do que consta, foi-lhe negada e morreu por conta própria dois anos depois. Mas acreditem que é só uma questão de tempo até aparecerem almas bem intencionadas a clamarem que a eutanásia é um direito básico das pessoas!
O que acho pior neste assunto é ver que somos uma sociedade que prefere outorgar a “dádiva” da morte em vez de fazer os possíveis para melhorar a vida das pessoas, sim, mesmo tetraplégicos e doentes terminais podem desfrutar do seu tempo neste mundo se fizermos um esforço para lho proporcionar.
Espero ter alertado quem ler este post para os perigos de ver como sinónimos conceitos que são tudo menos isso.
Para a semana: O mundo às avessas – trabalhador e honesto ou inútil e criminoso, quem merece o nosso apoio?