Não há a menor dúvida de que o Natal já foi uma festa bem mais religiosa do que o é atualmente. Mas também não as há em relação ao facto de ter tido sempre uma fortíssima componente cultural e familiar, de mãos dadas com a parte divina, digamos. Era uma data, talvez a única do ano fora funerais, em que a família tentava juntar-se toda e em que se fazia um esforço para ignorar – nem que fosse por um dia – quezílias e ódios de estimação, fazendo jus à muito badalada frase de “Paz no Mundo”.
Isto sem esquecer as prendinhas, até há relativamente pouco tempo trazidas pelo Menino Jesus – o célebre sapatinho na chaminé ou, para quem não a tinha, sobre o fogão da cozinha. Mais a cartinha ao Menino Jesus, escrita uns dias (ou semanas) antes a pedir os ditos, listinha comprida porque bem se sabia que pouco se iria receber e assim dava para ir cortando – já agora, e no seguimento do que disse em O melhor para os nossos filhos, estas prendas eram muito apreciadas pela sua raridade durante o ano e não ocorreria a nenhuma criancinha fazer birra por não ter recebido isto e aquilo ou, pior ainda, isto mais aquilo...
Um outro hábito que também só recentemente se espalhou é o de fazer a árvore de Natal em casa, uma novidade introduzida por D. Fernando, marido da rainha D. Maria II (o do Palácio da Pena), pensa-se que em 1840. Já o presépio, pequeno ou grande, não podia faltar – já agora, sabia que o Menino Jesus só deve ser ali posto dia 25 e os Reis Magos no Dia de Reis? E continua a ser feito em muitas casas, mesmo de pessoas que nunca põem os pés numa igreja, porque “é costume”.
Era, também, uma noite em que havia doces típicos e variados, talvez para equilibrar o prato principal de bacalhau cozido – bom, e outras coisas, pescada, polvo, uma combinação de dois deles ou, até, dos três. Mesmo famílias pobres faziam um esforço para ter uma mesa “apresentável”. Tudo a culminar na Missa do Galo, muito mais frequentada em povoações pequenas, claro, mas que para muitos continua a ser importante.
O mais curioso no nosso país é que, apesar da sua pequena dimensão geográfica, tem uma tremenda variedade de costumes associados a várias épocas do ano e o Natal tinha de estar incluído, claro. Muitos quase desapareceram com a introdução de hábitos importados – como comer peru na Consoada ou o Pai Natal – enquanto outros se mantiveram firmes, como os doces natalícios – apesar de terem sofrido alterações, como haver agora Bolo-rei quase todo o ano...
Felizmente, a campanha que decorre há anos para acabar com os festejos desta data coincidiram com o esforço que muitas povoações começaram a fazer para reviver costumes antigos e, até, para criar novos em honra desta época que se quer festiva. Por exemplo, há cada vez mais Aldeias Natal e o seu grau de complexidade também tem aumentado muito. E os mercados de Natal, muito típicos em certos países mais a norte, também se estão a espalhar um pouco por todo o lado.
A tentativa de acabar com o Natal não é um exclusivo nosso, claro. Mas atenção, esses “iluminados” só querem acabar com o termo Natal e com tudo o que possa parecer uma referência cristã, nada têm contra o feriado ou o subsídio de Natal... A solução usada em alguns países comunistas – Moçambique, por exemplo – foi chamar-lhe o Dia da Família. Só que... não pegou e as pessoas continuaram alegremente a falar de Natal.
Deixei de ser católica praticante há muitos anos, tornei-me, até, budista, mas irrita-me solenemente ver as tentativas, cada vez mais desesperadas, de gente que se acha bem-pensante para acabar com os festejos tradicionais. Para criar uma maior inclusão, dizem. Só que está a ter o efeito oposto. As escolas cancelarem a festa de Natal, por exemplo, situação que aposto que não surgiu, sequer, a pedido de pais muçulmanos. Consequência? Todos sabem que esse cancelamento se deu por causa deles, tenham-no pedido ou não, e isso gera... mais separação.
O mais curioso em que os mesmos que bradam contra festejar-se o Halloween por ser uma americanice e protestam por em lojas e restaurantes (e não só) se falar inglês porque é uma “subserviência aos estrangeiros” estão na linha da frente na exigência de acabar com o Natal – bom, e não só, babam-se com o folclore e costumes de países não europeus que visitam e por cá desprezam tudo isso.
Ora lembremos que para um cristão há duas datas religiosas importantes anualmente, Natal e Páscoa. E que, até bem recentemente, a maior parte da nossa população praticava, em menor ou maior grau, essa religião e que muitos dos nossos costumes nessas datas vêm de há muitos séculos. E vamos pôr de lado as nossas tradições só porque poderão “ofender” alguém?
Não, acho que todos – religiosos ou não – devemos celebrar esta data pela importância que tinha para os nossos antepassados e como modo de garantir que a nossa identidade cultural permanece bem viva. Sem esquecer que é uma muito boa oportunidade para um “regresso à infância” e para transmitir a familiares mais novos costumes e tradições de família ou da região onde crescemos.
Já agora, como a celebração do Natal nesta época do ano veio da tentativa da Igreja de pôr fim aos festejos do Solstício de Inverno – dia 21 de dezembro, bem pertinho, data importantíssima para os povos de então na Europa – será que os da “religião da paz e do amor” ficariam menos ofendidos e mais incluídos se passássemos a festejar essa data com o máximo de pompa e circunstância, fazendo jus às nossas ainda mais velhas tradições? Não sei bem porquê, mas suspeito que não.
E pronto, Feliz Natal – sim, se esperavam que eu dissesse Boas Festas ou algo similar, então é porque não me costumam ler.
Para a semana: Mais um ano que passou. Apesar de ser um cliché, não resisto a falar do ao que passou e do que aí vem.