Luísa Opina

Neste blogue comentarei temas genéricos da nossa sociedade.

233 - Haja democracia

Partindo do sucedido na celebração dos 50 anos da Constituição, falemos um pouco do que este termo significa para muitos.

Têm sido umas semanas muito férteis no uso e abuso da palavra democracia, mas mostrando, caso ainda houvesse dúvidas, que o significado que os usuais “bem-pensantes” lhe dão pouco ou nada tem a ver com o seu significado tradicional. Para os mais distraídos, aqui fica ele:

“A democracia é um regime político onde o poder emana do conjunto dos cidadãos, que o exercem diretamente ou indiretamente através do voto e participação, sistema esse baseado nos princípios da igualdade, liberdade e estado de direito”.

Reparem bem, “cidadãos” – ou seja, não é uma elite, seja ela de que tipo for, muito menos uma não eleita para governar. E “igualdade”, ou seja, todos os partidos votados pelos ditos têm a mesma validade.

Começando pela Comunicação Social, tivemos o caso da Presidente da Câmara de Coimbra e da diretora da Lusa. Francamente, não sei quem tem razão – bom, conhecendo a Lusa, inclino-me para a primeira – mas de toda a discussão que daí resultou, com montes de “ditadura”, “democracia” e “liberdade de imprensa” à mistura, houve uma coisinha que não ouvimos: os factos relatados pela jornalista eram verdadeiros? Pois é, pelos vistos a verdade é um detalhe de somenos importância quando há jornalistas envolvidos, a única coisa que conta é “respeitá-los”, contra ventos e marés.

O que me leva à democracia. A comunicação social está sempre a afirmar que é o quarto poder e que é imprescindível a uma sociedade democrática. Já agora, os três poderes básicos são o executivo, o legislativo e o judiciário. Juntando-lhe este quarto, ficamos na situação curiosa de metade deles não estarem sujeitos ao sufrágio popular e muito menos ao seu escrutínio – ou seja, quem o detém não é eleito e o povo – o tal que é quem manda – nada pode fazer quanto aos seus abusos.

Sim, bem sei que no caso do judiciário há o Conselho de Magistratura, mas, atendendo às “brilhantes” decisões que vemos continuamente por parte de juízes e que são, no mínimo, um atentado ao bom senso, será que funciona? Só sei de um caso em que atuou, foi no tempo da COVID e contra um juiz “negacionista” – aí, sim, decidiu à velocidade da luz!

O mesmo se passa com a comunicação social. Há órgãos que supostamente vigiam o seu bom funcionamento, provedores para tudo e mais alguma coisa, mas, na prática, decidem sempre a favor do jornalista, isto quando não se dão ao luxo de insultar quem ousa fazer perguntas ou sugestões que lhe desagradem.

Acham que exagero? Há uns anos, a Antena 2 tinha um programa de músicas do mundo, em que, para além de as tocarem, falavam da sua origem e história. Um ouvinte sugeriu que seria bom falarem um pouco do fado, uma vez que muitos portugueses ignoram tudo sobre ele, limitando-se a ouvi-lo. Pois bem, o autor do programa sentiu-se ofendido (!) e enviou a questão ao Provedor respetivo – conclusão: o ouvinte foi apelidado de racista e xenófobo!

Quanto à veracidade do que é noticiado, bom, já repararam nas autênticas cambalhotas que os muitos Polígrafos dão para provar que uma notícia é mentira, se é contra pessoas ou entidades de estimação, e verdade no caso contrário? Pois, nunca tivemos tantos “fact-checks” e similares e com tão fracos resultados!

Tivemos, também, a histeria – sim, é o termo correto – por o atual Governo ter, supostamente, contratado os serviços da NewsWhip. Se querem saber mais detalhadamente o que é, leiam esta página ou esta. Basicamente, é um programa de IA que faz, mais rapidamente e melhor o que já muitos faziam via assessores, secretários e similares: procura por toda a comunicação social e redes sociais referências a um determinado assunto e pode, também, compilar dados analíticos sobre quem escreve esses artigos, permitindo, por exemplo, fazer uma lista dos jornalistas e similares mais influentes numa dada área.

Ou seja, é a versão moderna do velho livro de recortes!

Só que... para os ditos jornalistas isto é uma tentativa de impedir uma comunicação social “livre e isenta” – já agora, adorava que me dissessem onde é que esse unicórnio existe, em Portugal não é, de certeza. E sabem que estatística eu adoraria ver compilada? Quantas vezes um jornalista / órgão de comunicação social se “enganou” e relatou factos falsos...

Curiosamente, a mesma comunicação social aplaudiu a atitude de alguns deputados que abandonaram o hemiciclo quando Ventura decidiu falar dos crimes e violações dos direitos humanos no pós-25 de abril. Mais ainda, a reação geral foi achar que isso não era, de modo algum, comparável aos mesmos crimes do Estado Novo e que só tinham sido mencionados para ilibar Salazar e a PIDE.

Para a semana voltarei a este tema, a propósito de mais um 25 de abril.

Mais ainda, os mesmos defensores da democracia acham natural, inevitável, até, que se diga que os 50 deputados do Chega não contam ou que este partido não tem o direito de indicar um nome para o Tribunal Constitucional. Pelos vistos, a parte de “o poder emana dos cidadãos” devia ter um asterisco a indicar que só são os cidadãos com ideias que agradem aos “Iluminados”.

Para terminar, a Hungria. Foi um frenesim de festejos pela queda do ditador – curioso, o dito senhor tinha realizado várias eleições livres, que venceu, mas, sendo de extrema-direita, é por definição ditador; já Fidel Castro, Maduro, o louco da Coreia do Norte e o Putin são bons democratas, claro...

O mais giro é que a tal comunicação social “livre e isenta” se esqueceu de mencionar que a Hungria se tornou o primeiro país europeu a não ter um único deputado de esquerda no Parlamento (ou Assembleia ou similar). Mais ainda, na sua fúria contra o Orbán nem repararam que o seu substituto é de direita – e de uma direita que em Portugal seria declarada fascista – e que já indicou que, em política externa, vai manter os pontos principais de reforço das fronteiras (nada de receber “refugiados”) e que os interesses húngaros se sobreporão sempre aos da UE (Coitada da Vã e do Concórdia!)

Não sou futurista, mas aposto que daqui a muito pouco tempo passaremos a ouvir-lhe chamar ditador!

Para a semana: Mais um 25 de abril. Ou antes, do 25 de abril de 1974 ao 25 de novembro de 1975

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