Por várias razões decidi adiar o post sobre o patriarcado e falar de assuntos diversos que, de certo modo, encaixam no velho ditado “não há cego pior do que o que não quer ver”.
Comecemos por Portugal.
Quando vim viver para cá, já lá vão mais de 40 anos, um dos grandes temas recorrentes, sobretudo em alturas de campanhas eleitorais, era a necessidade urgente de fazer reformas estruturais ou, quando se queria ser mais modesto, simplesmente reformas. E olhando para o estado do país e as muitas áreas totalmente estagnadas no passado, nem sempre muito recente, tínhamos mesmo de concordar.
Pois é, tantos anos depois, ainda não vimos nada – ou antes, o termo “estruturais” até desapareceu desses discursos, fala-se agora apenas em “reformar o Estado”. Mesmo assim, atendendo a que muitos dos nossos problemas derivam da mais do que pesada máquina estatal, do enorme peso fiscal que a sustenta e da sua tremenda incompetência geral, já não seria nada mau se fizessem qualquer coisinha.
O grande problema está, como sempre, na tal visão seletiva. Porque a cena usual é os dois grandes partidos, PSD e PS, serem espetaculares a proporem todo o tipo de reformas... quando estão na oposição! Ou seja, a culpa de não se fazer nada é sempre do outro, o que está, então, no poder. Curioso, não é, tanta visão quando não mandam e cegueira total quando são eles no comando.
Só nos resta desejar que um dia – em breve, esperemos – a tal cegueira passe e admitam, de uma vez por todas, os que não têm qualquer ligação ao Estado sabem há muito: nem políticos nem funcionários públicos querem reformas, nem mesmo pequeninas, porque isso iria mexer com situações que lhes são altamente favoráveis. Bom, a menos que, claro está, as ditas reformas sejam feitas para lhes aumentar benesses de todos os tipos.
A questão é que se aplica aqui o que se diz a drogados e similares, o primeiro passo para a reabilitação é admitir que se tem um problema, caso contrário, nenhuma “cura” resultará.
Passemos, agora, a Israel e ao tão popular anti-sionismo que, milagrosamente, não é antissemitismo – é claro que agredir pessoas na rua, em países europeus, por estarem a falar hebreu é um protesto válido contra esse país!
Aqui, o que mais me espanta é a tremenda cegueira de certos defensores dos “palestinianos”. Por exemplo, o movimento “Queer for Palestine”, ou seja, “Homossexuais pela Palestina”. Farão alguma ideia do que lhes aconteceria se fossem àquela região e mostrassem ser abertamente o que são? E não é por falta de informação, não faltam casos divulgados até pela comunicação social de execuções atrozes, que são, claro, totalmente ignorados por estes génios.
Temos, depois, a acusação de que a pobreza da chamada Palestina se deve, única e exclusivamente, a Israel. Lembram-se do Arafat? Pois, quando morreu, tinha os muitos milhões do seu movimento metidos numa conta pessoal, tendo a viúva entregue uma parte a troco de segurança vitalícia para ela e a filha. E surgiu nos últimos dias uma foto desta com a indicação de que é uma das mulheres mais ricas do mundo. Aposto que se tivéssemos acesso às contas dos líderes do Hamas o cenário seria semelhante, mas só para quem quer ver os fectos.
Há, ainda, a parte histórica. Para além da confusão com o nome Palestina – foi o nome que os Romanos deram à província judia da Judeia por estarem fartos das constantes revoltas dos judeus, não tendo, pois, nada a ver com os atuais palestinianos – ouvi esta semana uma comentadora de um canal estrangeiro dizer, com o usual ar de certeza, que não há provas históricas ou arqueológicas da presença de judeus naquela região antes de 1948!
Finalmente, temos os muitos filmes feitos pelo Hamas – que se gaba a sua autoria e divulgação – sobre as violações e torturas feitas aos reféns tomados no brutal ataque a Israel. Pois é, os queridinhos do costume não acreditam neles, apesar, repito, de o próprio Hamas admitir a sua veracidade. Ou os que o fazem não têm qualquer problema com o que se passou, acham válido fazer tudo aquilo a judeus, sobretudo mulheres.
Temos, também, os “defensores da democracia”, com grande destaque no nosso país para PCP e BE, que nada têm a dizer sobre a violentíssima repressão que o governo iraniano exerceu – e ainda exerce – sobre os seus opositores. E lembro que foi esse mesmo governo que se gabou de ter morto mais de 50 mil manifestantes em três semanas. Mas tudo bem, os maus aqui são o Trump, claro, e quem mais queira pôr fim a esse regime.
Voltando às mulheres, não é curioso que haja tantas supostas “feministas” a defenderem a sharia na Europa ou, pelo menos, a não se lhe oporem, dando como razão “os costumes”? Será que não veem que a dita acaba por ser aplicada, apenas, contra as mulheres que elas dizem defender? E fica-me a dúvida, nunca leram o que é a sharia, pelo menos em resumo, ou sofrem da tal cegueira seletiva em que ser uma pessoa de “mente aberta” e “tolerante” se sobrepõe totalmente à realidade?
E não é só a sharia. Berram – e muito bem – contra a violência doméstica nos países ocidentais, mas nada disseram quando os talibãs publicaram um manual a ensinar aos homens o modo correto de bater nas mulheres e filhas, manual esse que foi prontamente disseminados pelas comunidades muçulmanas da Europa e não só.
Bramam contra a pedofilia da Igreja, mas, mais uma vez, nada dizem quando os mesmos talibãs passam a autorizar o casamento infantil – ou quando movimentos de muçulmanos na Europa se manifestam, por vezes violentamente, para exigir que as raparigas se possam casar a partir dos 12 anos (alguns até querem aos 9, seguindo o exemplo do seu líder espiritual).
Enfim, há coisas que, por muito que me esforce, não consigo entender e estas cegueiras seletivas são, definitivamente, uma delas.
Para a semana: Os males do patriarcado. Ouvindo movimentos que se autointitulam feministas, é o responsável por tudo e mais alguma coisa