Luísa Opina

Neste blogue comentarei temas genéricos da nossa sociedade.

238 - Os males do patriarcado

Ouvindo movimentos que se autointitulam feministas, é o responsável por tudo e mais alguma coisa

Com a minha já bem avançada idade, ando há décadas a ouvir repetir que todos os males do mundo se devem ao macho da espécie e, sobretudo, ao regime de patriarcado que impera, dizem, no nosso mundo. Seguido sempre da afirmação de que o mundo seria um mar de rosas se fossem as mulheres a mandar e que é uma pena os homens não serem mais como elas. Falei, aliás disso em O patriarcado.

A questão aqui é que os principais problemas associados ao dito sistema se mantêm (ou pioram), nomeadamente a violência doméstica, de que falei, precisamente, em Violência Doméstica. O que me leva a crer que talvez seja altura de mudar de tática e, acima de tudo, de deixar de ver as coisas numa perspetiva restrita de eles contra elas. Sem contar na muita hipocrisia incluída nestas discussões, tema que já abordei, de certa forma, em Mudar o paradigma feminino.

Comecemos pela ideia de que tudo correria bem se os homens fossem mais como as mulheres, querendo isso dizer mais sensíveis, mais em contacto com os seus sentimentos e outras qualidades similares. Pois, soa lindamente. Mas... pois é, há sempre um mas.

A começar logo pelas camadas mais jovens, quem são os rapazes mais populares entre as raparigas? Os educados, românticos, sensíveis? Ou os chamados “maus”, que agem como se fossem os donos do mundo? E na idade adulta, como é que as mulheres avaliam os homens com quem contactam pela primeira vez? Pela sua riqueza espiritual e beleza de alma?

Quem diz estas coisas esquece-se dos milhares de anos em que um parceiro era escolhido com base noutros critérios, tanto da parte dos homens como das mulheres, deixando de lado os vistos como “incapazes”. Sabiam que em França, por exemplo, no século XIII, famílias de camponeses só autorizavam o filho a casar-se quando a noiva já estava grávida, garantindo, assim, a futura mão-de-obra familiar? E, na vertente oposta, temos a frase ainda muito popular, “ela casou muito bem”, referindo-se, apenas ao facto de o marido ter dinheiro ou fortes probabilidades de vir a ter uma boa carreira (leia-se, financeiramente compensadora), mesmo que o dito seja um brutamontes ou um mulherengo ou algo igualmente indesejável.

Há exceções, claro, mas como disse em Mudar o paradigma feminino o que tem mesmo de mudar é a nossa mentalidade – e por nossa, refiro-me à de toda a gente, ou antes, mais, até, a das mulheres. Isto porque numa época em que tantas crianças são criadas apenas pela mãe e em que a escola – dizem-nos – inculca, ou tenta inculcar, desde bem cedo ideias de equidade e igualdade, não seria de esperar que toda uma série de atitudes e de comportamentos já tivessem desaparecido ou, no mínimo, fossem agora menos frequentes?

Ora acontece precisamente o contrário. Após anos a ouvirem dizer que são os culpados de tudo e mais alguma coisa, os homens estão a reagir, infelizmente da maneira errada – ou seja, com mais violência para com as mulheres e com atitudes que são uma caricatura, para pior, das dos machos de outrora. E qual é a reação das supostas feministas atuais? Mais do mesmo. Pelos vistos não conhecem a expressão que diz que “loucura é repetir a mesma coisa vezes sem conta e esperar um resultado diferente”.

Basicamente, e na minha opinião, claro, temos de acabar com esta história de atribuir as culpas todas ao patriarcado, até porque muitos dos conceitos com ele associados já não estão presentes na nossa sociedade ocidental. Mas sabem onde continuam de pedra e cal? Em certas comunidades dos imigrantes que nos invadem e onde a mulher não tem quaisquer direitos – mas aí não se culpa o patriarcado, claro, desculpa-se, até, tudo porque “são os costumes deles” – como 54 casos de casamento infantil em 2025 em Portugal e 254 casos de mutilação genital feminina também em Portugal em 2024, e estes são apenas os que foram detetados.

A ênfase devia estar, como tenho dito, na educação desde tenra idade e, acima de tudo, em começarmos a tratar todos, homens e mulheres, rapazes e raparigas, como seres humanos e nada mais do que isso – tudo o resto teria a ver com opções e gostos pessoais. Ou seja, criar verdadeiros cidadãos, capazes de respeitarem, a sério, os direitos e opiniões dos outros, mesmo que sejam totalmente opostas às suas.

E, muito francamente, devíamos concentrar essa educação sobretudo nas raparigas e em várias vertentes.

Primeiro, a do que é ou não aceitável por parte da pessoa com quem se namora ou, até, de meros amigos. Como tenho dito em posts anteriores, acho incrível que jovens de hoje, que se dizem tão modernas e de mentalidade aberta, aceitem sem pestanejar certos comportamentos, físicos e / ou psicológicos. Sim, a violência doméstica está em alta entre os adolescentes e as “razões” do costume – dependência financeira da mulher, filhos – não se aplicam aqui.

Ou seja, cortar tudo isso quando ainda mal despontou, é o tipo de violência que vai crescendo devagar e, quando se quer enfrentá-la, o desfecho é muitas vezes péssimo.

Segundo, é mais do que altura de educar as raparigas na ideia de que não há limites ao que podem fazer e que, caso estes surjam, se deve lutar contra eles e não cruzar os braços e dizer, “pois, é o patriarcado em ação”. Ou será que as ditas feministas não acreditam na ideia de que a mudança tem sempre de começar por nós? É que ficar à espera que alguém – sim, o misterioso alguém, tão popular e tão fugidio – aja, bom, bem podemos instalar-nos comodamente para o que será, certamente uma longuíssima espera.

Finalmente, como a tendência de haver filhos a crescer só com a mãe tem tendência a aumentar, quanto mais educada for ela para não aceitar coisas que a achincalham ou que a limitam, melhor educará as filhas e, também, os filhos nessa atitude. E, com sorte, conseguiremos, finalmente, acabar com a desculpa do patriarcado para tudo e mais alguma coisa.

Para a semana: Somos tão eficientes! Será que muitos dos nossos problemas não advêm da falta disto e daquilo mas apenas de falta de eficiência?

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