Mais uma vez começo por dizer que acho desejável, imperativo, até, que nos alertem para os vários problemas que afetam a nossa sociedade, o nosso país e o mundo. A grande questão para mim é que só falam deles, mesmo quando falar em nada contribui para a sua resolução ou até para os minorar, pior ainda, muitas vezes falar vezes sem conta no assunto só irá exacerbar o problema. Soluções? Nem uma. Ou apenas uma frases muito vagas que nada significam.
Passo a exemplificar.
Durante a pandemia, ouvíamos falar quase diariamente dos graves problemas mentais que o isolamento traria. Dia após dia, especialista após especialista, era sempre a mesma coisa: estar fechado em casa sem contactos humanos alargados era péssimo, sobretudo para as crianças.
Francamente, acham que numa época tão socializada com é a atual não sabemos isso? A maioria das pessoas do nosso país (e falarei só do caso de Portugal) passa a vida rodeada de outras pessoas, começando na creche e passando por tudo o mais, escola, emprego, transportes, férias, tudo. É óbvio mesmo para os mais distraídos e inconscientes que passar disso para uma situação em que ficamos quase o tempo todo em casa, só com a família, se é que a temos, trabalhamos em casa, temos de tentar distrair-nos em casa, não será por certo nada bom para a nossa sanidade mental.
E acham também que não sabemos que é péssimo para crianças e jovens? Já lá vão os tempos em que uma boa parte da vida dessas camadas etárias era passada no lar. Agora, entre escola e atividades passam, isso sim, uma esmagadora porção do dia fora, com amigos ou conhecidos. Sem falar que a família também já não é o que era, na maioria dos casos, claro, pouco convívio havendo. Há muitas até em que na maior parte do tempo nem fazem uma única refeição em comum.
E quanto ao trabalho, bom, tal como eu, há um número cada vez maior de pessoas que trabalha em casa, não necessariamente em teletrabalho mas por termos atividades que podemos exercer sem sair. Mas para a vasta maioria, o emprego não é apenas o local onde se trabalha, é também uma fonte de convívio, mexericos e muito mais. Muitos comem até mais vezes com colegas do que o fazem com a família.
Resumindo, sim, é um problema. E ouvir dizê-lo dia após dia só serve para agravar a situação.
Precisávamos era de soluções. Pois é...
Repararam que as televisões mantiveram a programação habitual das manhãs e tardes durante toda a quarentena? A única diferença estava nos entrevistados, que passaram a falar esmagadoramente do vírus ou dos problemas que referi mais a cima.
Não teria sido bem melhor usarem esses tais especialistas para proporem atividades que as pessoas pudessem fazer em casa para aliviar a pressão mental do isolamento? Exercícios físicos fáceis de executar com o que há usualmente numa casa, para minorar os efeitos nefasto da inércia forçada? Sim, mesmo quem não se exercita regularmente faz atividade física com a ida para os transportes, saídas, etc. Ioga, então, teria sido ideal.
E para quem tem crianças pequenas, que tal coisas que todos pudessem fazer e que substituíssem as atividades da creche ou da escola? O mesmo para outras camadas etárias.
Teria sido uma ocasião de ouro, para umas aulas de culinária, de pintura, de todo o tipo de trabalhos manuais, não como costumam mostrá-los, mas sim aulas a sério que as pessoas podiam ir seguindo em casa.
Resumindo, em vez de baterem sempre na mesma tecla dos “problemas”, usarem a muito mais útil tecla das “soluções”.
Outra área em que este tipo de situação se repete é a da seca. Sim, há seca, as consequências são más e podem ser péssimas, enfim, o costume. E porque digo “o costume”? Quem lê história sabe perfeitamente que Portugal foi sempre um país muito sujeito a secas. E não me venham dizer que agora é pior por causa das alterações climáticas! É que, pelos vistos, para quem diz isso ter três milhões de habitantes ou quase onze é um fator negligenciável. Sem contar que com os padrões de higiene atuais gasta-se muitíssimo mais água.
À semelhança do que caso da pandemia, só nos mostram zonas afetadas pela seca, só falam dos problemas atuais causados pela dita e dos ainda mais graves que ainda ai virão, deitam as mãos à cabeça, enfim, falam sempre do mesmo.
Ora tratar da questão de secas periódicas é como jogar na Bolsa: compra-se quando está em baixa e não em alta!
Ou seja, as soluções têm de ser executadas durante os períodos de seca e não quando tudo volta ao normal. E há tanto que se pode fazer! Desde logo, a criação de reservatórios de água um pouco por todo o país, mas sobretudo nas zonas mais afetadas. Não me refiro a pequenas barragens mas sim a algo que vi em Israel, grandes escavações no solo com um material impermeável no fundo. Quando chove enchem e a água serve perfeitamente para rega.
Outra coisa seria reter o máximo de água dos rios antes de estes desaguarem no mar. Curiosamente, os ambientalistas estão contra, isso, afirmam, iria aumentar a salinidade do mar. O mais estranho é que os mesmos estão sempre a falar do perigo do aumento do nível do mar devido ao degelo de glaciares e do Mar Ártico. Simples detalhe, o congelamento é um dos modos como se pode fazer a dessalinização da água do mar...
Um colega meu da Universidade do Porto dizia que o lema dos portugueses era “para quê simplificar se podemos complicar”. Pois bem, eu acho que um outro lema bem apropriado seria “para quê solucionar se podemos problematizar”!
Para a semana: São as mulheres que oprimem as mulheres – bem sei, é usual dizer que a culpa de tudo é dos homens. Mas será mesmo?