Luísa Opina

Neste blogue comentarei temas genéricos da nossa sociedade.

243 - Incêndios, mais uma vez

Infelizmente, é uma situação que se repete ano após ano.

Apesar de ser, infelizmente, um “vira o disco e toca o mesmo” anual, só falei deste assunto duas vezes, em A eterna praga dos incêndios e Voltemos aos incêndios (infelizmente). Estive a reler estes posts e, como seria de esperar atendendo ao que se costuma passar neste país, pouco ou nada mudou.

Exceto um pormenor, digamos. É que agora começam a dizer, logo de início, que o mais provável é a origem se dever a mão criminosa – até agora tentavam vender-nos a ideia de que um incêndio florestal começava de madrugada por obra e graça do Espírito Santo.

Francamente, não me admira nada haver tantos incendiários. Primeiro, mesmo que se suspeite fortemente de alguém, só muito dificilmente isso levará a uma detenção e julgamento, é quase preciso ser apanhado de isqueiro na mão a pegar fogo... e mesmo assim... Isto para não falar das penas ridículas a que são condenados, mesmo se, para além de prejuízos enormes, o seu ato tenha causado feridos e mortos – veja-se o caso de 2016 na Madeira, três mortos, dois feridos graves, uns mil deslocados, floresta património mundial destruída e o incendiário recebeu uma pena de 14 anos, ou seja, estará quase a sair em precária.

Pergunto-me o que aconteceria se tratássemos os incendiários, os suspeitos e os condenados, de outro modo? Por exemplo, para os suspeitos destes atos, vigilância de movimentos durante o período de risco, ou seja, pulseira eletrónica paga por eles, e proibição total de circularem em zonas suscetíveis de arderem.

Quanto aos condenados, que tal substituir a pena de prisão por algo realmente útil e dissuasor? A minha ideia tem duas vertentes, limpeza e plantio. Ou seja, teriam de limpar (sem pagamento) mato e terrenos até perfazerem uma área equivalente à ardida – sim, isso levaria nos, mas ei, não cometessem o crime. E, em segundo lugar, plantar árvores em zonas ardidas, mais uma vez até perfazerem as que destruíram – bom, não teriam de as pagar, o seu contributo seria o trabalho físico.

Já sei que dirão que são trabalhos forçados, às tantas será até inconstitucional, bom, tudo o é, mas aposto que dissuadiria muitos que acham “giro” ver arder. Oh, e as mesmas restrições de movimentos, claro.

Como último comentário sobre incendiários, sei que a declaração dos alertas laranja e vermelho é feita com boas intenções, mas fica-me a ideia de que servem de indicador sobre onde pegar fogo – é que com calor elevado, é muito mais fácil arder tudo e muito mais difícil restringir um incêndio.

Não falarei aqui da limpeza de terrenos, sim, falou-se em pôr presos a fazê-la, mas sem efeito. Continua, também, a haver falta de bons acessos a muitas das áreas suscetíveis de arderem e quanto a patrulhar as florestas, bom, é mais um assunto de que muito se fala... e mais nada. Mantenho uma minha proposta anterior, pôr as nossas Forças Armadas a patrulhar e a acampar em áreas mais suscetíveis, o ar fresco faz bem à saúde e era um trabalho útil.

Continuamos também a ver as populações a terem de pôr as mãos à obra, é que, por muitos bombeiros que haja, se há mais do que um incêndio grande a decorrer, é-lhes impossível chegar a todo o lado. E como sabemos isso, ou temos obrigação de o saber, que tal dar alguma formação básica aos habitantes de aldeias e zonas perto de áreas florestadas? É claro que não são bombeiros nem têm o material para o serem, mas pelo menos saberiam o modo mais eficaz de agir ou, mais importante ainda, quando desistir e sair dali.

Já agora, há certamente muitos serviços de apoio aos bombeiros que podiam ser feitos por civis ou por militares, deixando-os livres para fazerem a sua tarefa principal. É claro que, mais uma vez, isso exigiria alguma formação básica, pelo menos para certas tarefas, mas seria certamente mais rápido do que formar novos bombeiros só para o caso de virem a ser precisos.

E se acham que falo demasiado em usar os nossos militares, porque não? A sua tarefa não é defender o país de todos os seus inimigos? E estes incêndios não o são?

Há, também, uma parte que competiria a Câmaras e Juntas de Freguesia – e há muitas que a fazem perante a catástrofe, mas trata-se de uma reação aos eventos. Refiro-me a preparar as populações para o que devem – e não devem – fazer caso deflagre um incêndio que ameace as suas habitações.

Para zonas mais rurais, a indicação de possíveis rotas de fuga mais seguras, por exemplo. O planeamento de locais que pudessem ser rapidamente convertidos em refúgios para quem foge, muitas vezes sem nada. Um levantamento de pessoas mais ou menos isoladas e que precisariam de ser evacuadas em caso de perigo, pela sua idade e / ou condições físicas ou falta de transporte próprio – e um número de contacto que pudessem usar se precisarem de ajuda, para não sobrecarregar o 112.

Quanto aos residentes em zonas com incêndios frequentes – e não só – acho que era boa ideia fazerem-se sessões de esclarecimento sobre o que fazer caso estejam em perigo. Por exemplo, planear dois tipos de kits de fuga, um leve para último recurso e outro mais complexo, que podem meter no carro mal as coisas comecem a parecer feias.

Ao contrário dos kits para sismo, comida e água não são o mais importante, a menos que haja crianças pequenas ou idosos envolvidos. Mas seria indispensável ter todos os documentos importantes, medicamentos de toma usual e pelo menos uma muda de roupa.

Que tal fazerem um exercício que vemos em filmes, em caso de incêndio, o que tentaria salvar a todo o custo? Lembre-se, móveis, roupas, objetos em geral, tudo isso pode ser substituído. Mas há certamente algumas recordações, sejam fotos, objetos ou outras, insubstituíveis para si, tente, pois, ver quais são e como garantir a sua sobrevivência.

E se tem animais domésticos, não se esqueça deles! Ou se faz criação, seja de galinhas, vacas ou outros animais, e não os pode retirar da zona, solte-os, sempre terão uma hipótese maior de sobrevivência do que se ficarem fechados nos seus locais habituais.

Para a semana: Estação do perigo Como estando a ser atingidos por vagas de calor, há quem diga que há uma nova estação do ano

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