Sempre que há problemas numa dada área – e em Portugal isso abrange praticamente todas – o argumento é sempre o mesmo: falta de dinheiro e de recursos diversos. Fica subentendido, claro, que o setor em questão só não faz mais única e simplesmente devido a esses fatores fora do seu controlo.
Mas será mesmo assim?
Mais ainda, sempre que surge uma questão que tem de ser resolvida, a resposta costuma resumir-se a uma de duas coisas (ou a ambas): criar uma ou mais comissões para estudarem o assunto e atirar, literalmente, dinheiro para o caso.
O grande problema aqui é que, se os meios disponíveis não forem bem utilizados, então, muito francamente, nunca serão suficientes. E, na minha opinião, o que nos falta não é dinheiro nem meios mas sim sabermos usá-los do melhor modo possível. E isso passa por um bom planeamento e, acima de tudo, por uma boa gestão por parte de pessoas competentes.
Veja-se o que está a acontecer no Aeroporto de Lisboa. Sabia-se, há muito, que o novo sistema de controlo tinha de ser implementado e quando. Mas, à boa maneira portuguesa, foi tudo instalado à última hora, sem tempo para o sempre indispensável período de testes. Mais ainda, fica-nos a ideia de que quem “planeou” o novo sistema não teve em conta o fluxo real de passageiros diários oriundos de fora da União Europeia – daí estarem agora a instalar à pressa novas máquinas.
Resultado, ficámos famosos pelas piores razões, estando o dito aeroporto agora entre os piores do mundo.
Um outro exemplo vem das Urgências dos hospitais. Quem teve o azar de as frequentar está familiarizado com a cena de várias ambulâncias ali paradas, com as suas equipas “encostadas às paredes” por uma mera razão: estarem à espera que as pessoas que transportaram sejam transferidas para macas do hospital, libertando as suas.
Como já mencionei num outro post, não seria bem mais eficiente os vários hospitais com Urgências comprarem macas adicionais? Mais ainda, comprá-las a contar com surtos de gripe e similares, guardando as excedentárias para quando fossem precisas? Era certamente bem melhor do que o que a situação atual, tendo sobretudo em conta que, enquanto ali está sem fazer nada, uma ambulância pode estar a fazer falta noutro lado.
É claro que se uma empresa privada for gerida com a falta de eficiência com que muitos dos setores públicos – se não todos – o são, iria à falência. Mas como se trata do setor público, a solução consiste sempre em aumentar a carga fiscal, quer lhes chamem ou não impostos, em troca de serviços cada vez piores. Disse “quer lhes chamem ou não impostos” porque o que está a dar é a criação de cada vez mais taxas, tarifas e similares, se o engenho usado para as criar e nomear fosse aplicado a criar riqueza, Portugal estaria bem na vida.
É claro que uma boa parte do problema está no sistema de nomeação de gestores públicos. Para além dos milhentos cargos que vão para ex isto e aquilo dos vários governos, pessoas que, vendo bem as coisas, têm como única profissão serem políticos, há muitos outros em que o escolhido nem sempre é a melhor pessoa para as funções a executar mas sim a que mais agrada a governos, sindicatos e similares.
Os hospitais, por exemplo. Farto-me de ouvir dizer que os seus diretores têm de ser médicos porque só estes conhecem as necessidades de um hospital. Mas... que entendem eles de gestão? Será que quem diz isto não sabe que um bom gestor se adapta rapidamente à área onde foi trabalhar? Eu até entendo, é que quando falam em “necessidades de um hospital” o que querem de facto dizer é os interesses dos médicos e restante pessoal.
Infelizmente, encontramos exemplos em todas as áreas do nosso país, da gestão de incêndios – curioso, andamos há anos a ouvir falar nela, mas quanto a resultados, nadinha – à educação, saúde, tudinho.
Bom, a enorme massa inerte do nosso funcionalismo público também não ajuda. Se há setores com falta de pessoal, há muitos outros repletos de pessoas que não se sabe sequer o que fazem ou se são ali necessárias. E apesar de haver regras de mobilidade, na prática nada acontece, ficam onde sempre estiveram mesmo que sejam bem mais necessários noutro setor – fala-se, por exemplo, há muitos em deslocar funcionários de outros setores para a parte administrativa das esquadras, mas sem resultado, há logo contestação.
Isto sem falar nas famigeradas “carreiras”, devemos ser o único país onde se pode ter várias “promoções” continuando sempre a fazer a mesmíssima coisa, mudando apenas o salário e regalias. E enquanto houver chefias que ali chegaram apenas por antiguidade, bem podemos esperar sentados por uma reforma como deve ser dos respetivos serviços.
Podem-me dizer que a nossa carga fiscal está abaixo da média na União Europeia, mas os impostos sobre o rendimento do trabalho estão bem acima e há, ainda, as tais taxas e taxinhas ocultas em tudo o que é sítio. Conseguimos, também, o brilharete de estarmos abaixo da média europeia em termos do número de funcionários públicos – cerca de 15 % contra os 16 % da média europeia – mas o seu peso no PIB ultrapassa a média europeia.
Só que também aqui os números a frio pouco dizem. Ou seja, não se trata do total – ou percentagem – de funcionários públicos mas sim do que fazem e, acima de tudo, de como o fazem. E lembro que estes números não incluem os inúmeros institutos e similares criados pelos vários governos e direta ou indiretamente sustentados por todos nós sem que saibamos exatamente para que servem – bom, além de proporcionarem uma boa dose de “tachos”, claro.
Resumindo, se houvesse a coragem de analisar a sério toda a pesada máquina pública, podar o que deixou de servir, deslocar meios humanos para onde fazem falta e, acima de tudo, pôr à sua frente gestores a sério que gerissem os dinheiros públicos com eficiência, aposto que passaríamos a ter os tais recursos a cuja falta são atribuídos todos os males do nosso país.
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