Sei que este título poderá dar a ideia de que eu acho que não há opressão masculina sobre as mulheres. É claro que há, nalgumas áreas mais do que em outras. Mas se queremos realmente um mundo mais igualitário, talvez seja altura de metermos a mão na consciência e analisarmos o nosso comportamento. E por nosso, quero dizer o das mulheres em geral, há sempre exceções, claro.
Comecemos pelas chamadas profissões ditas “masculinas”. Vi por acaso, a propósito do Dia das Mulheres, uma entrevista a uma engenheira com a inevitável pergunta sobre a reação dos homens à sua carreira. E vi que a jornalista ficou muito incomodada porque a resposta foi que nunca tinha tido problemas. Não era nada o que esperava ouvir!
Mas sabem que mais? Até é bem verdade e falo por experiência própria. Decidi estudar engenharia nos anos 60, altura em que éramos realmente muito poucas, exceto em Engenharia Química. E de entre os amigos e conhecidos dos meus pais, os homens – com uma ou duas exceções – limitavam-se a perguntar qual a área que me interessava e mais nada. Quanto às mulheres... Pois, ouvi de tudo, sendo a frase mais popular “Que escolha tão pouco feminina!”
Agiam quase como se a minha opção fosse uma traição às mulheres. E não que me fizesse diferença, nunca achara as conversas delas interessantes, mas passaram a excluir-me da “irmandade”.
Já agora, nunca tive esse problema com o lado masculino desses casais ou com colegas e rapazes e homens que vim a conhecer. A partir do momento que viam que eu gostava realmente de coisas técnicas e que não era um mero pretexto para me imiscuir ou namoriscar, passavam a tratar-me como um deles. Já as raparigas e mulheres, assim que me percebiam quais eram os meus verdadeiros interesses, passavam a ignorar-me, isto apesar de eu nunca ter tentado levar a conversa para esses temas, mantendo-me estritamente dentro da chamada conversa “feminina”.
Passando a outro assunto, temos o famoso caso “da outra”. Sabem a que me refiro, o “ela roubou-me o marido / namorado / o que quer que seja”. Não é curioso que quando um homem trai, a vítima da traição nunca o culpa a ele? Ou se o faz é sempre com muito menos raiva do que o modo como acusa a pessoa com quem ele traiu?
Espantosamente, fica-se com a ideia de que o macho, todo poderoso, segundo nos dizem, na economia, local de trabalho e até no próprio lar, quando se trata de “pisar o risco” é subitamente um coitadinho que até nem queria fazer aquilo, a culpa é toda “dela” que o obrigou! A sério?
Talvez alguém um dia me possa explicar como é que isto funciona. É que, muito francamente, nunca o consegui entender e isto apesar de ser um dos temas mais frequentes em livros e filmes.
E tudo isto leva, por extensão, ao ostracismo a que são votadas mulheres solteiras, viúvas ou divorciadas por parte das casadas. É que há sempre a ideia subjacente de que o objetivo de todas as mulheres é ter um homem seu e que se não o tem é porque não consegue um. E sendo assim, o melhor é afastá-las dos seus respetivos maridos para evitar que tentem “roubá-los”.
Terceira vertente, a ajuda em casa (já agora, leiam o post Os homens não deviam ajudar em casa). Ouvimos repetidamente dizer que a mulher tem mais dificuldade em singrar numa carreira porque tem de cuidar da casa e dos filhos. E infelizmente até é verdade em muitos casos. Só que a culpa não é totalmente masculina.
Se é mulher e tem filhos e filhas, confesse lá, trata-os do mesmo modo? E por tratar refiro-me ao tipo de coisas que espera deles.
Vejamos, ensina-os a cozinhar, por exemplo? Ou só o faz com as filhas? Se pede que ponham a mesa, é à vez ou mais uma vez é só trabalho delas? Estenda isto ao resto do trabalho que faz em casa e tenho quase 100 % de certeza de que descobrirá que exige coisas das suas filhas que nem se lembra de pedir aos seus filhos.
Há também o outro lado da moeda. Se o seu marido faz pequenos arranjos e tenta ensinar os filhos, faz os possíveis para que ele inclua as filhas ou é como muitos casos a que infelizmente assisti em que se uma delas pega num martelo diz-lhe logo que o pouse porque se pode magoar?
E há muitas, muitas áreas em que rapazes e raparigas continuam a ser educados de modo diferente, na maior parte de modo inconsciente, e em que é a mãe e outros elementos femininos do seu círculo que fazem tudo para manter uma rapariga no chamado papel tradicional.
Um dia destes haverá um post dedicado precisamente à educação para a diferença.
E para terminar, temos agora algo surgido com as novas “feministas” e que é a definição do que é uma “a sério mulher”. Aqui ainda não é muito usual – importamos estas modas com algum atraso – mas quem vê canais noticiosos americanos ou ingleses sabe bem ao que me refiro.
Uma mulher tem uma opinião política contrária ao que essas iluminadas acham aceitável, gosta, por exemplo, do Trump? Não é uma mulher a sério. Não concorda com o aborto a partir de uma certa altura da gestação? Não é uma mulher a sério. Ousa ser cristã fervorosa? Não é uma mulher a sério.
Estranhamente, essas zeladoras pelo que é uma mulher a sério, têm todas cursos e profissões tradicionalmente femininos – se calhar, e apesar de berrarem pela falta de mulheres em empresas tecnológicas, acham que quem escolhe essas áreas não é uma mulher a sério!
Já agora, mesmo nas épocas de maior opressão das mulheres os homens não usavam esta expressão. Podiam dizer que era uma mulher pouco feminina, mas não negavam que era uma mulher, como o fazem agora estas supostas líderes do feminismo!
Para a semana: É o pacifismo que causa guerras – bem apropriado à época em que vivemos...