Quando optei por este tema para esta semana mal sabia eu que iria passar estes últimos dias a ouvir falar da censura do “antigamente” e como éramos todos uns desgraçadinhos que nem podíamos abrir a boca... A sério? Por acaso já deram uma olhadela ao mundo atual, o tal supostamente sem censura?
Posso garantir-vos que a liberdade de expressão nunca foi tão coartada como o é atualmente e, o que é pior, isso é feito em nome da igualdade, harmonia, enfim, os chavões do costume. Pior ainda, essa coação não atinge todos por igual. Há quem possa dizer o que bem quer – “é preciso matar o homem branco...” – outros são acusados pelo que supostamente queriam dizer e não pelo que dizem de facto.
Explicando melhor, o que Mamadou Ba disse (já agora, numa conferência contra o racismo!) é perfeitamente aceitável porque “estava só a fazer uma citação”. Mas dizer, por exemplo, “temos o direito de verificar quem vem para o nosso país” é proibido porque a intenção não expressa é o incentivo à violência racial.
Noutra área, temos agora toda uma lista de palavras e expressões proibidas “porque podem ofender”. Aqui em Portugal a lista ainda não é grande, talvez por falta de expressões alternativas, mas nos EUA, a outrora pátria da liberdade de expressão, envolve tudo e mais alguma coisa – por exemplo, não se deve dizer mãe, porque é discriminatório, o termo correto é “pessoa que dá à luz”! Mas falarei mais disto num post sobre a (in)cultura woke.
É curioso que as pessoas que ouvi esta semana a choramingarem, sim, é o termo correto, por causa censura sobre escritores, pensadores, etc. não tenham sequer mencionado o que se passa agora em muitas universidades de renome onde, para além de haver uma censura rigorosa do que professores e alunos podem dizer (e que muda constantemente), há protestos e manifestações a impedir a ida de alguns oradores por serem “fascistas” – um termo guarda-chuva que acolhe, muito simplesmente, todos os que têm ideias que não agradam a quem quer realmente mandar no mundo.
E sabem o melhor, ou o pior, sobre estas manifestações? Um dos poucos jornalistas decentes que ainda restam decidiu fazer uns inquéritos sempre que isto acontecia. E descobriu, para seu espanto, que os manifestantes nunca tinham ouvido sequer falar nesse orador e não faziam a mais pálida ideia do que defendia, mas estavam ali porque “diz-se” que é... acrescentar um termo à vontade, seja nazi, fascista, racista ou outro.
Mas temos liberdade de expressão!
E esta nova censura vai ainda mais longe, não se limita a criticar, insultar e tentar impedir que se digam certas coisas. Não, o mesmo pode acontecer se não dissermos ou expressarmos certas palavras ou ideias. Nos EUA – e lembro que o que lá acontece mais cedo ou mais tarde acaba por nos vir bater à porta – nos EUA, repito, tem havido professores universitários suspensos ou até despedidos por não fazerem discursos de elogio aos chamados LGBTQI+ (se andam distraídos, procurem), mesmo que nada tenha a ver com o que lecionam.
E tivemos recentemente a tentativa, espero, sinceramente, que não passe disso, de criar uma lei para as chamadas “fake news”. À parte o pequeno detalhe de que muito do que os iluminados do mundo classificaram como tal acabou por ser provado como verdadeiro, quem define o que é uma notícia falsa? Pois é, os mesmos que estão tão interessados nesta lei. E como nem se deram ao trabalho de definir devidamente o que isso é, bom, uma fale news passa a ser muito simplesmente o que as pessoas no poder, oficialmente ou não, decidam que o é. E como deixa de se poder falar sobre o assunto abrangido, nunca saberíamos que era, afinal, verdade!
Infelizmente, este cenário de censura abrange também as ciências. Quando a TV, por exemplo, diz “os cientistas”, o que quer realmente dizer é os que dizem as coisas consideradas certas, porque os outros não conseguem sequer publicar ou divulgar as suas ideias, muitas vezes bem mais baseadas em factos do que as dos que estão na lista aprovada. Como as mudanças climáticas, por exemplo, só podem ver a luz do dia estudos que falem que vem aí uma desgraça e que a culpa é única exclusivamente do homem (bom, basicamente, do homem branco, mas este é também tema para outro post).
O mais grave na censura atual é que na antiga, havia regras, sabia-se até onde se podia ir. Já agora, uma das causas da queda de popularidade do teatro de revista veio precisamente de confundirem o “agora pode-se dizer tudo” com “agora vamos dizer tudo”. É que antes, as pessoas iam vê-lo para tentarem adivinhar piadas que tivessem escapado à censura (e que, aqui para nós, às vezes nem tinham sido intenção do autor). E quando o faziam, sentiam-se súper inteligentes. Mas depois, como se podia dizer tudo, a “piada” passou a resumir-se a lançar insultos a quem desagradava e, muito francamente, para quê pagar se podiam ouvir o mesmo no café com os amigos?
Ouvi também um ator dizer esta semana que lastima que os jovens não façam ideia do clima de censura em que se viveu até ao 25 de abril e que nem têm vontade em sabê-lo. Tenho notícias para ele, os jovens não querem saber porque andam demasiado ocupados a exercer censura a torto e a direito, nomeadamente nas redes sociais – lembro, já agora, que o Twitter baniu o Trump, mas o atual presidente do Irão ainda mantém três contas em que diz mimos como devemos matar todos os americanos, morte aos infiéis e similares, mas isso não é discurso de ódio...
O que eu gostaria realmente de ver era um estudo sobre a censura após o chamado Dia da Liberdade. Acontece que vim a Portugal dois anos depois e constatei algo que nunca tinha visto em todo o tempo da ditadura – bom, durante os anos em que vivi sob ela. É que vi, com grande espanto meu, que as pessoas tinham medo de falar em público porque corriam o risco de serem mal interpretadas e agredidas por algum energúmeno que achasse que tinham ofendido a sacrossanta esquerda. Chocou-me imenso, porque estava habituada a ouvir amigos e colegas falarem livremente, mesmo sabendo que havia informadores no nosso meio universitário.
E esse é o maior risco da atual forma de censura, as pessoas temem ser insultadas ou ainda pior e começam a autocensurar tudo o que dizem. E daí é só um passinho para fazerem o mesmo ao que pensam. É claro que este é o cenário ideal para quem quer a lei das fake news e chama fascista e nazi a tudo e todos: uma sociedade onde só se pode dizer e pensar o que eles, os donos da verdade, acham que deve ser dito ou pensado.
E termino com a célebre frase de Voltaire: “Eu desaprovo o que dizeis, mas defenderei até à morte o vosso direito de dizê-lo”.
Para a semana: Porque será... – pequenas coisas que me intrigam na sociedade atual