Começo por pedir desculpa por ter falhado a semana passada, mas houve um falecimento na família e foi-me impossível.
Passemos então ao tema da semana.
Já todos ouvimos a expressão “não há almoços grátis” e nos mais variados contextos. Curiosamente, os ditos almoços eram uma tradição do Velho Oeste americano, como refere Kipling em 1891. Os bares ofereciam comida gratuita e à descrição a quem comprasse pelo menos uma bebida. Kipling elogia a prática, que viu em S. Francisco, mas pelos vistos não a analisou bem. É que a comida tão generosamente “oferecida” era muito salgada, o que levava quem a comia a beber mais e mais... E isto sem contar que o preço da dita refeição já estava incluído no preço da tal primeira bebida.
A frase foi popularizada por Robert Heinlein em 1968 em “The Moon is a Harsh Mistress” e em 1971 fez parte do título de um livro de Edwin G. Nolan sobre política ambiental. E desde então tem sido aplicada a tudo, de economia a física e muito mais, sempre na tentativa de encontrar uma exceção – há quem diga que há duas, a luz do sol e o dióxido de carbono, ambas permitem o desenvolvimento de plantas (e não só) e através destas a criação do oxigénio da nossa atmosfera.
Vem esta longa introdução a propósito da notícia recente de transportes gratuitos em Lisboa para jovens e idosos, com o aplauso generalizado de quase todos e algumas críticas, porque deveriam ser para todos.
Ora é precisamente o “gratuito” que me mete confusão. Os motoristas, fiscais e mecânicos vão trabalhar de graça? Os veículos vão ser oferecidos? O combustível será uma generosa dádiva das gasolineiras? Pois, não me parece!
Ou seja, o transporte só é gratuito para quem o utiliza e na altura em que o faz. Mas os custos – e não são poucos – serão totalmente pagos por todos nós, quer os usemos ou não, o que é ainda pior. Como é que explicam a alguém que nem pode usar transportes públicos porque não os tem na sua zona que uma boa fatia dos seus impostos vai para os pagar aos que os têm e usam, mesmo que não tenham necessidades económicas? É que o problema de uma “dádiva” destas baseada apenas na idade é que beneficia de igual modo quem sobrevive com a pensão mínima e quem tem uma bem choruda.
Mas é “grátis”, aplaudamos!
O mesmo raciocínio se pode aplicar às portagens em que pessoas que vivem em terrinhas sem acessos de jeito pagam a manutenção de autoestradas e itinerários que nunca usam. Ou as taxas moderadoras, que tanta polémica deram, quem ouvisse certos partidos ficava com a ideia de que eram um balúrdio. Pois bem, eram pequeníssimas – sei, porque as pagava – e sempre eram um contributo para as despesas de saúde. Mas não, tem de ser tudo gratuito! Ou seja, tem de sair tudo dos impostos...
A paixão pelo grátis é universal e estende-se a todas as áreas. Quem resiste a uma boa pechincha, mesmo se, face a uma pequena análise, vier a provar-se não o ser? E não me refiro a promoções de supermercado, por exemplo, em que, face à concorrência cerrada, as grandes empresas abdicam de parte dos seus lucros para atraírem clientes que, esperam, comprem bem mais do que o que os atraiu inicialmente – também aqui não há “almoços grátis”, só que a conta não é paga pelo consumidor, pelo menos tão diretamente.
Não, refiro-me a campanhas em que, à pala do terá estes belos presentes (muitas vezes nada que nos faça falta) somos levados a gastar um dinheirão num artigo que, mesmo somando o valor das ditas dádivas, era capaz de ficar mais barato comprado de outro modo.
Mas não é só na economia que o “grátis” nos ofusca. Uma variante desta frase está na medicina, nomeadamente em medicamentos e tratamentos. É que, a avaliar pelas reações que se veem, as pessoas continuam a achar que há o artigo perfeito, ou seja, sem efeitos secundários de qualquer tipo. Seria bom...
A verdade é que tudo tem vantagens e desvantagens e quando um medicamento ou tratamento é aprovado isso significa apenas que os efeitos secundários são pouco frequentes e / ou que valem a pena tendo em conta o benefício que o produto traz. Há até casos, como a quimioterapia, em que esses efeitos secundários são fortíssimos, mas são o preço necessário para se tentar uma cura. Infelizmente, para os adeptos do “almoço grátis”, isso é escandaloso.
Resumindo, a próxima vez que ouvir um político ou um partido a propor algo gratuito, não se deixe enganar – vai custar-lhe e de que maneira (parto do princípio que é um cidadão pagador de impostos...). Pior ainda, se pagasse esse serviço, sabia exatamente quanto lhe tinha custado. Mas como passou a gratuito, bom, boa sorte em descobrir que fatia dos seus impostos está a ser usada para o pagar, mesmo que nunca o use, nunca o tenha usado nem tencione vir a usar.
Mas a avaliar por certos resultados eleitorais mundo fora, há uma enorme percentagem de votantes que, à revelia do que tem sido provado inúmeras vezes e em inúmeras áreas, ainda acreditam que há “almoços grátis”.
Para a semana: O aborto não beneficia as mulheres – pois, leiam e verão que até é verdade