Ando há uns tempos para escrever sobre este assunto, mas com a atual histeria e mentiras sobre o que o Supremo Tribunal dos EUA estão a ponderar decidi que tinha chegado a altura. Histeria porque ao contrário do que circula por aí, o que está em causa é esse tribunal manter uma lei que, teoricamente, se estende a todos os estados, ou passar esse tipo de decisão para cada estado individualmente. E, já agora, muitos estados têm em calha ou em aprovação leis locais sobre esse tão polémico assunto, umas rígidas, outras absurdamente “liberais” (já lá vamos!).
Comecemos pelo tão badalado argumento de que o corpo é da mulher e é ela quem tem de decidir. E eu até estaria de acordo, se fosse realmente isso que está em causa. Mas é mesmo?
Voltando um pouco atrás, quando a célebre Roe vs. Wade surgiu – e outras leis sobre legalização do aborto mundo fora – a situação de uma mulher que não quisesse ter um filho era muito simples: abstinha-se de sexo ou arriscava. Lembro que a primeira pílula só surgiu em 1960 e com pouca divulgação. Mesmo anos depois, na altura da tal decisão do Supremo americano, a contraceção era pouco conhecida e cara. Por isso uma gravidez indesejada acabava numa criança também indesejada ou num aborto clandestino com todas as consequências nefastas que conhecemos, incluindo a morte.
O problema é que os que berram pelo sacrossanto aborto agem como se ainda vivêssemos nessa época, sem outras alternativas. Acontece que nos EUA e no Ocidente em geral, a contraceção é gratuita e apresenta-se sob muitas formas. E, já agora, a mulher pode escolher a opção que lhe parece melhor e, caso não se dê com ela, optar por outra.
Sim, bem sei que um dos argumento pró-aborto é que a contraceção falha e até é verdade, em cerca de 1 % dos casos! Isto, claro, se for feita de acordo com as indicações e não com mitos que correm por aí e que, incrivelmente, continuam a ser seguidos – refiro-me à interrupção da pílula por um mês, para “descansar”, pausa essa que só não resulta em mais gravidezes por pura sorte, é que pelos vistos ainda há muita gente que pensa que a pílula funciona a partir do primeiro dia que se toma!
Há, também a pílula do dia seguinte que, infelizmente, é muitas vezes usada como contracetivo e não como medida de emergência. E, já agora, quem tem uma vida sexual ativa e diversificada, digamos, com tanta doença sexualmente transmissível, que tal usar sempre o velho preservativo? Pois, o grande argumento que ouço das tais mulheres de “o corpo é meu, eu é que decido” é que não o usam porque os homens não gostam...
Ou seja, se a mulher quer ser realmente responsável pelo seu corpo, então deve responsabilizar-se por não ficar grávida a menos que o deseje, excluindo, claro, um acidente.
E a violação, perguntarão? Segundo as estatísticas, só 0, 01 % dos abortos decorrem de um crime desses. E até em Portugal, quando o aborto era proibido, havia duas exceções, violação e a saúde da mãe.
Passemos agora à reação que está a decorrer. Tentam passar a imagem de que quem quer alterar as leis do aborto é fanático religioso, nazi, enfim, os mimos do costume. Ora esta reação surgiu precisamente porque os pró-aborto esticaram demasiado a corda.
Em muito estados americanos, o aborto é legal até às 23-24 semanas (em Portugal são 10 e em Espanha 14). Acontece que com esses quase 6 meses, alguns abortos resultavam em crianças vivas. Nesses casos, a clínica ou hospital cuidava da criança que ia depois para adoção. Pois bem, os fanáticos decidiram que isso não podia acontecer e que se a dita mulher tinha pedido um aborto, então a dita criança tinha de morrer!
Será que alguém é capaz de me explicar o que é que isto tem a ver com “o corpo é meu”? O aborto já tinha sido feito e a abortada nada tinha a ver com o seu resultado – viva ou morta, a criança já não era da sua responsabilidade. Mas não, há que criar uma lei a exigir a morte das crianças sobreviventes.
A situação piorou em alguns estados americanos em que o prazo do aborto legal foi aumentado, crescendo assim as probabilidades de a criança abortada estar viva. E como as leis são analisadas em público, muitos souberam do assassínio, sim, é o termo correto, que teria de ser efetuado legalmente caso o bebé fosse resistente.
Já agora, se querem fanatismo, a Califórnia tem na calha uma lei a legalizar o aborto até ao nascimento – ou seja, se em qualquer altura do parto a mulher decidir que afinal quer abortar, a criança nasce, claro, mas terá de ser morta logo a seguir! E um legislador do estado de Nova Iorque vai ainda mais longe, quer que seja legal até 24 horas depois do nascimento... E admiram-se da reação anti-aborto que está a haver!
Curiosamente, muitos dos que aplaudem estas leis são ferozmente contra a pena de morte! Ou seja, matar alguém que matou é um crime, mas matar uma criança cujo único crime é não ser desejada, bom, isso é de aplaudir.
Já agora, o que acontece aos muitos fetos abortados? Teoricamente, alguns tecidos são dados para pesquisa médica, mas, e os outros? E, quanto mais tempo tiverem, mais úteis podem ser. Quando às crianças abortadas depois dos 6 meses, bom...
Como último comentário, o aborto está a ser usado em muitos países ocidentais para eugenia. Na Suécia, por exemplo, há anos que não nascem crianças com síndrome de Down. E já há muitas mulheres europeias e americanas a abortarem se o bebé não tiver o sexo que pretendem.
Não que me admire este uso, uma das fundadoras da Planned Parenthood criou esta organização como uma medida de eugenia, nomeadamente porque nasciam demasiadas crianças negras. É um facto, não um mito, a organização começou em 2021 a tentar distanciar-se dela, mas sem a condenar. Curiosamente, os mesmos que até o Lincoln atacam por algo que terá dito, nada têm a dizer neste caso e apesar de a maioria dos abortos nos EUA serem na população negra.
Coerências liberais!
Resumindo, se as mulheres pensam realmente que o corpo é delas e elas é que decidem se querem ou não um filho, parem de usar o aborto como método de contraceção e responsabilizem-se pela sua vida sexual. É que para os homens, o aborto é uma benesse, se não há criança então não há uma “chata” a querer que ele a sustente e cuide e tudo isso – ou seja, é mais um argumento a favor do célebre “elas que se cuidem” que ouvi a um rapaz dos seus vinte anos sobre não usar preservativo...
Para a semana: O woke – para quem não conhece, uma breve apresentação