Luísa Opina

Neste blogue comentarei temas genéricos da nossa sociedade.

39 Viver bem para morrer bem

Tratar a morte como o que nunca devia ter deixado de ser, uma parte integral de viver

Sempre gostei imenso de mitologia, folclore, etc. e uma das coisas que sempre me fascinou foram as inúmeras histórias de como a “morte chegou à humanidade”. Todas as sociedades e culturas têm pelo menos uma, sendo a mais popular a do envio de dois mensageiros de Deus, um a dar a vida eterna e outro a dar a morte, tendo este chegado primeiro. Curiosamente para povos que matavam animais para sobreviver, parece haver a ideia comum de que a morte é algo alheio aos seres humanos, algo que surgiu depois como punição ou por outra razão qualquer e não uma consequência direta de, como referi no post anterior, “nascer ser uma doença fatal”.

Durante séculos, a sociedade ocidental conviveu intimamente com a morte. Com a tremenda natalidade infantil, falta de condições de vida e atraso na medicina, as crianças habituavam-se muito cedo à ideia do “hoje aqui, amanhã desaparecido”. Era pura e simplesmente um facto da vida.

Com a melhoria das condições de vida, isso mudou totalmente. Para melhor, na baixa da taxa de mortalidade sobretudo nos dois extremos da vida. Mas para pior, na minha opinião, no modo como encaramos a morte.

Sim, passamos a vida a debitar clichés, tipo, “a vida passa num ápice”, “a única certeza é a morte” e muitos mais, mas, no fundo, nunca pensamos nisso e, muito menos, em viver a nossa vida tendo em conta que esta é finita e que, ao contrário dos bens alimentares, não vem com data de validade visível.

Pior ainda, para não chocar as criancinhas, usamos todo o tipo de eufemismos quando um animal de estimação morre, por exemplo, e, se for um familiar ou amigo, nem os deixamos despedirem-se ou saber ao certo o que aconteceu para que não se impressionem.

Podem estar a pensar que sou obcecada pela morte, mas é precisamente o contrário. Acho, isso sim, que devemos viver em pleno em todas as épocas da nossa vida, mesmo que essa vida seja só interior e, no que diz respeito ao mundo que nos rodeia, chata e monótona.

Em miúda, nas aulas de Catequese para o Crisma, houve uma história que me impressionou. O catequista perguntou-nos o que faríamos se soubéssemos que era o nosso último dia de vida. Saíram as respostas mais fantásticas, claro. Depois de todos termos falado, ele leu a resposta de um santo de que não recordo o nome, infelizmente, só me lembro que era um dos que “vivia no mundo”, não um monge ou algo similar. E que disse ele? Pois bem, disse muito simplesmente, “continuaria a fazer o que tenho feito”.

Para mim, isto tornou-se o símbolo de uma vida bem vivida, não ter pesares do que não fizemos.

Sim, eu sei que nem sempre podemos fazer o que gostaríamos de fazer, ou antes, raramente o conseguimos fazer. Mas em vez de passarmos o tempo todo a lastimarmo-nos pelo que nos falta, que tal olharmos à nossa volta e tentarmos arranjar coisas que nos agradem? Melhor ainda, que me dizem a tentarmos arranjar motivos de apreço no que fazemos?

Outra coisa que me intriga é o modo como não nos preparamos para a morte, à parte os tais clichés de que falámos acima.

Durante toda a discussão da eutanásia falou-se muito de pessoas em grande sofrimento, etc. Já agora, qualquer pessoa pode, por lei, recusar tratamentos que não visem apenas atenuar a dor e manter o conforto. E se a pessoa não puder comunicar ou já não estiver na plena posse das suas faculdades?

Já ouviram falar do Testamento Vital? Pois bem, a lei que o criou já data de 2012 e, de acordo com um artigo do jornal O Público de 15/4/22 (de que só li o início por não ser assinante), até à data só tinham sido feitos 44 106 e, como têm de ser renovados a cada cinco anos, só 33 000 continuavam válidos. Já agora, para os fãs de séries médicas americanas como ER ou Chicago Hope, equivale ao célebre DNR (não ressuscitar) que tanto se houve ali, mas com mais detalhes.

Se querem saber mais pormenores, consultem esta página do site do SNS:

https://www.sns24.gov.pt/servico/registar-testamento-vital/

E para verem o que envolve, podem ver o formulário aqui:

https://servicos.min-saude.pt/utente/Repo/feeds/files/Rentev_form_v0.5.pdf

Já agora, é gratuito.

Outra faceta que me intriga solenemente, sobretudo depois de tudo o que se disse da eutanásia, é a enorme pressão a que muitas pessoas são sujeitas por familiares e amigos para tentarem mais um tratamento, fazerem mais uma coisinha, mesmo sabendo que vai ser doloroso e que, no máximo, lhes prolongará a vida umas meras semanas ou meses.

Ou seja, por um lado, os “bem-pensantes” embandeiraram em arco com a ideia de matar pessoas – sim, deixemo-nos de histórias, eutanásia é isso mesmo! Mas, ao mesmo tempo, queremos que se faça tudo e mais alguma coisa para manter a pessoa viva, quaisquer que sejam as probabilidades.

Não seria bem melhor encorajarmos quem está nessas circunstâncias a não desperdiçar o que lhe resta de vida em tratamentos com fraquíssimas hipóteses de resultarem e tentarem aproveitar esse tempo para estarem com família, amigos, fazerem, até, algumas coisas que sempre quiseram fazer, enfim, para gozarem em pleno os seus últimos dias.

Pensam que isto nada tem a ver com a eutanásia? Tem e de que maneira. Entre outras coisas, falou-se muito de pessoas que não querem ser um fardo para os outros, dos que estão fartos de estarem dependentes de terceiros, etc. É aí que entra o “ensinar para a morte” – por outras palavras, ensinar as pessoas, desde muito pequenas, a viverem a sua vida em pleno, por muito má que as condições sejam, para não ansiarem pela morte, mas também para não a temerem.

Para a semana: Novamente o aborto – à luz de comentários feitos aos mais recentes acontecimentos...

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