Luísa Opina

Neste blogue comentarei temas genéricos da nossa sociedade.

40 - Novamente o aborto

À luz de comentários feitos aos mais recentes acontecimentos.

Já anteriormente escrevi sobre este tema, no post O aborto não beneficia a mulher (https://luisaopina.blogs.sapo.pt/32-o-aborto-nao-beneficia-as-mulheres-17025?tc=102424965197). Sem querer repetir o que então disse, é inevitável voltar a mencionar alguns detalhes, até porque quem está a ler este post pode não ter lido o anterior. Mas face ao avançar da histeria causada pela decisão do Supremo Tribunal dos Estados Unidos, sinto-me “obrigada” a ampliar um pouco o que então disse.

Basicamente, os “bem-pensantes” do costume agem como se a escolha fosse entre liberdade total de abortar – e lembro que em 8 estados americanos pode-se fazê-lo até ao momento do parto, matando-se a criancinha caso tenha o mau gosto de sobreviver – e um cenário tipo A História de Uma Serva, de Margaret Atwood, uma comparação totalmente absurda para quem conhece o livro ou pelo menos viu o filme e/ou a série.

Ora a realidade não podia ser mais diferente.

Quando saíram as primeiras leis a legalizar o aborto até às 15 semanas, no máximo, o mundo ocidental era totalmente diferente do atual em mais do que uma faceta.

Para começar, esse número, 15 semanas, não foi escolhido ao calhas. Para a medicina da época, as hipóteses de um feto sobreviver com essa idade eram nulas. Ou seja, ninguém pensou que um dia seria aceite, pior, exigido, que se matasse quem resistia a um aborto.

Mais ainda, lendo textos da época vemos que a ideia por detrás dessas leis era resolver uma situação que se pensava ser temporária. Ou seja, com o evoluir e a diversificação dos meios contracetivos, a necessidade de abortar seria muitíssimo reduzida. Mais ainda, com as melhorias na assistência médica, esperava-se que as mulheres soubessem bem cedo que estavam grávidas, reduzindo-se assim cada vez mais a “idade” do feto aquando do aborto.

Ora aconteceu precisamente o contrário. Apesar de em muitos países os métodos contracetivos serem gratuitos, o número de abortos continua estratosférico. Em Portugal houve 12 159 em 2021, ligeiramente abaixo de 2020, com 14 369 – com o confinamento, sempre houve menos farras, férias, etc.

Já agora, a taxa de falhas da contraceção ronda os 0,01 %. E quanto aos casos de violação, em Portugal (e não só) sempre esteve previsto o aborto nessas circunstâncias, mesmo quando era ilegal de um modo geral.

Pior ainda, há cada vez mais pressão para alargar o prazo para um aborto legal. Nova Iorque foi ainda mais longe do que os 8 estados que referi, quiseram criar uma lei que o permitisse até 24 horas DEPOIS do parto! E eu que pensava que isso tinha outro nome...

Há ainda a situação económica e social da mulher e o muito que tem mudado. Nos anos 60, uma mulher solteira ficar grávida era realmente um drama, tanto do ponto de vista do repúdio da sociedade – e muitas vezes da família – como também sob o aspeto financeiro. Agora uma mãe solteira é algo muito comum e aceitável e com a explosão do emprego feminino “não tradicional”, muitas podem perfeitamente sustentar sozinhas um filho, se assim entenderem.

Sendo assim, porque é que assistimos a reações do tipo “vamos voltar ao passado”, “o corpo é da mulher e só ele decide” e muitas outras do mesmo calibre? Porquê esta campanha de quase quererem obrigar uma mulher a abortar? O que está por detrás disso?

A Planned Parenthood é o grande herói dessa gente. Oficialmente, oferece cuidados de saúde reprodutiva, na prática é simplesmente aborto ou “estás por tua conta”. Têm sido também os grandes impulsionadores do alargamento dos prazos do aborto legal e das leis de morte obrigatória dos sobreviventes.

Já agora, esclareço que se uma mulher queria abortar e a criança sobrevivia, deixava de ser responsabilidade dela, ia para adoção – ou seja, não era, como se tentou dizer, obrigar essa pessoa a arcar com nada, no que lhe dizia respeito o aborto fora um êxito.

Mas voltando à Planned Parenthood, porque é que ninguém questiona a origem do seu muito dinheiro? Repito, quem estará por detrás desta defesa acéfala do aborto e quais serão as suas razões? Serei a única a pensar que uma criança abortada com mais semanas é uma ótima fonte de órgãos e de outro material para pesquisa e tratamento? O que é que acontece realmente a esses fetos?

Curiosamente, quando um grupo se manifesta ordeiramente à frente de um das suas clínicas de abortos, são logo apelidados de fanáticos religiosos, de nazis, de criminosos. Mas tem havido um surto de violência, bombas e ataques de todos os tipos, contra clínicas Pró-Life que, essas sim, dão um verdadeiro apoio médico e não só a grávidas e a reação é nula, incluindo a do Departamento de Justiça dos EUA.

E já agora, essas clínicas não obrigam ninguém a manter a gravidez, indicam apenas alternativas ao aborto e apoiam com consultas pré-natais quem decide manter a gravidez.

Mas parece que a tão apregoada liberdade de escolha da mulher se resume a, “Engravidaste por acaso? Aborto!”

Lembro que quando se discutiu a legalização do aborto em Portugal, o CDS queria incluir a seguinte proposta: na consulta para decidir sobre fazê-lo ou não, a mulher receberia informação sobre várias opções. O aborto, sim, tal como se faz atualmente. Mas também o que fazer caso decidisse ter a criança. E aqui haveria duas abordagens, uma, como tratar de dar a criança para adoção, a outra, os apoios, financeiros, de habitação e outros, disponíveis para pessoas na sua situação. E o tal período de reflexão seria para analisar todo este leque e não, como agora, só o aborto – e como não propõem mais nada, para quê um período de reflexão?

Não admira nada que o PS tenha chumbado redondamente essa ideia, não nos esqueçamos de que num período em que as grávidas em parto ou perto dele só veem Maternidades fechadas e falta de meios para serem atendidas, a grande preocupação desse Senhor Costa era, nas suas palavras, a terrível decisão dos Supremo dos EUA em relação ao aborto. Pois, abortar conta mais do que ter um filho...

Só concordo com uma coisa, é uma questão de escolha da mulher. Mas não nos termos em que é apregoada alto e bom som, mesmo muito bom som quando não é acompanhado de intimidação física.

Para mim, a mulher tem realmente o direito de escolher livremente, mas essa escolha é entre ser uma mulher a sério, responsável pela sua vida sexual, ou uma cabeça no ar que anda ao sabor da maré e espera, simplesmente, que corra bem. E se não corre, bom, viva o aborto!

 

Para a semana: Ditadura é agora! – entre outras coisas, o caso dos dois irmãos de Famalicão.

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