A propósito da morte da Rainha Isabel II e dos muitos comentários que se têm feito sobre o assunto, decidi também eu meter a minha colherada, mas sob a forma de uma comparação entre essa monarca e alguns dos Presidentes da República que temos tido desde o 25 de abril e da necessidade cada vez mais premente de termos uma Rainha Isabel II.
Para esta comparação limitar-me-ei aos posteriores a Ramalho Eanes, não por ter algo contra ele, mas por achar, muito simplesmente, que as coisas mudaram muito desde a sua Presidência.
Comecemos pelo eterno argumento de que uma monarquia não é democrática, que é absurdo um filho herdar um cargo do pai e, por extensão, que só as repúblicas são democráticas e representam a vontade do povo.
Sem entrar na Coreia do Norte – em que já vamos no neto – ou na autêntica “dança de cadeiras” da Rússia, em que Presidente e Primeiro-Ministro trocam de lugares para contornar as leis eleitorais, será que a eleição de um Presidente da República é mesmo democrática?
Não me refiro a regimes presidencialistas ou semipresidencialistas, em que o povo está a eleger basicamente um partido para governar. Não é o nosso caso.
De acordo com a Constituição portuguesa, o Presidente da República “representa a República Portuguesa”, “garante a independência nacional, a unidade do Estado e o regular funcionamento das instituições democráticas”.
Sendo assim, a sua eleição é totalmente independente da eleição da Assembleia da República e do Governo, o que pressupõe um seu posicionamento acima de lutas partidárias ou, até, de “pendores” partidários.
E ouvimos, de facto, a quase todos a já tão estafada frase “Sou o Presidente de todos os portugueses”. Mas serão mesmo?
Primeiro, não tenhamos ilusões, ninguém consegue ser eleito para o cargo sem o apoio da máquina de um dos grandes partidos. Sim, é fácil concorrer e há as subvenções dadas de acordo com as despesas, dentro de limites fixados pela lei, a todos os candidatos que consigam mais de 5 % dos votos. Só que um candidato realmente independente tem de desembolsar à partida imenso dinheiro, sem garantias de retorno, ao passo que o candidato apoiado por um grande partido tem a enorme vantagem de poder usar os muitos filiados, militantes e tudo o mais a bem da sua campanha.
Já agora, e para quem apregoa a bondade democrática do sistema republicano, já repararam que em Portugal a Presidência da República é considerada território conquistado da esquerda? Ou seja, quando os “burros” dos portugueses caem na asneira de eleger alguém de direita, como Cavaco Silva, há logo choro, ranger de dentes e berros de falta de democracia?
Sim, já devem estar a dizer que isso não aconteceu com Marcelo, que é do PSD. Mas é mesmo? Ou será que o PS não protestou muito porque conhece as suas reais simpatias?
Passemos a outra comparação, desta vez sobre a relação entre Rainha / Presidente e os respetivos Primeiros-ministros.
Como quem viu as reportagens dos últimos dias já deve saber, a Rainha teve de lidar com 17 Primeiros-ministros, de todos os quadrantes políticos. Pois bem, apesar dos muitos esforços envidados nesse sentido, nunca se soube quem a Rainha estimava, quem desprezava ou detestava, nadinha.
Já os nossos Presidentes... Pois, se são da mesma cor política, de esquerda, corre tudo às mil maravilhas. Já se um é de esquerda e o outro de direita, está o caldo entornado e o que é “esquerdino” não se inibe de fazer todo o tipo de críticas e comentários, digamos, menos favoráveis.
É que um outro “detalhe” da nossa democracia republicana é que se o detentor de um cargo não é de direita, não se pode dizer nada porque “há que respeitar o cargo” – veja-se o caso de Ferro Rodrigues. Já se é de direita... vale tudo – como no caso de Cavaco Silva, Passos Coelho e até Santana Lopes, o tal que deixou de governar porque, apesar da sua maioria estável na Assembleia da República e de não haver o menor sinal de esta se ir desfazer, havia instabilidade!
Outro assunto que vem muito à tona são as inúmeras viagens da “rainha mais viajada de sempre”. Pois bem, em 70 anos, fez 285 viagens e visitou cerca de 120 países – lembro que só a Comunidade Britânica inclui 53 países.
E vamos à comparação. Jorge Sampaio fez 45 viagens nos seus 10 anos em Belém. Já Mário Soares era, até recentemente, o mais viajado, com 48 visitas oficiais, incluindo as muito importantes Seychelles e a Faixa de Gaza.
O muito vilipendiado Cavaco Silva foi o menos viajado até agora, fez apenas 26 viagens em 10 anos e nunca as usou para andar de elefante ou de tartaruga ou para visitar monumentos.
E chegamos ao Sr. Marcelo, que já contabiliza 104 viagens em 6 anos. Com um bocadinho de esforço, ainda pode bater em 10 anos os 70 da Rainha!
Sei que há viagens necessárias – no caso da Rainha uma ida a todos os países da Comunidade Britânica – mas será que têm de ser assim tantas e com tantas repetições? E, já agora, quanto é que custam aos contribuintes?
E chegamos ao último ponto, o contacto semanal com o Primeiro-ministro, algo que é comum à Rainha e ao nosso Presidente.
Um ponto curioso sobre Isabel II é que lia de ponta a ponta todos os dossiers que lhe mandavam e preparava uma lista de dúvidas e pedidos de esclarecimento – como descobriu, para sua vergonha, um Primeiro-ministro inglês que pensava que ia apenas “tomar chá com a rainha”.
Mais ainda, apesar de não ter estudos formais, foi educada por peritos em muitas áreas, desde economia e finanças (sim, não são a mesma coisa) a história, política, etc. Já os nossos Presidentes, bom, a sua especialidade é serem bons a fazer política. E com exceção, mais uma vez, de Cavaco Silva (fio-me, aqui, nas queixas de Sócrates na altura), que, também ele, lia e analisava os dossiers que lhe eram enviados, os outros, bom...
Sou uma pessoa com muita imaginação, invento coisas mirabolantes, mas, muito francamente, não consigo imaginar o Sr. Costa e o Sr. Marcelo a falarem de assuntos sérios, a discutirem os problemas do país (exceto se for como os apresentar de modo a não parecerem problemas) nas tais reuniões semanais.
E para terminar, um pequeno pormenor “divertido”. Sabiam que, teoricamente, Portugal ainda é uma monarquia? Parece absurdo? Pois bem, lembram-se daquele pequeno episódio da nossa história em que D. João IV ofereceu a coroa a Nossa Senhora da Conceição e a proclamou Rainha de Portugal? Pois, foi por isso que depois disso nenhum monarca usou a coroa. Ora, que me conste, Ela não foi retirada do trono nem abdicou, por isso...
Para semana: Só a pedofilia na Igreja conta? – Perante a guerra aberta à Igreja por causa da pedofilia, será que esta é a única, a pior de todas ou a mais inescusável?