Observo desde há uns anos a verdadeira guerra aberta à Igreja Católica – e só a esta – por causa de abusos sexuais de menores. Atenção, concordo totalmente que qualquer tipo de abuso sexual de uma criança ou adolescente é absolutamente condenável, só não entendo porque é que só se ataca a Igreja.
Mais ainda, foi-se passando “inocentemente” de abuso sexual de crianças a abuso sexual de menores – lembro que um jovem de 17 anos é um menor – e de abusos a atitudes e toques impróprios (tendo o cuidado de deixar no ar o que são, de facto).
Há também o grande argumento de que os superiores desses padres “sabiam” – sem nunca explicarem muito bem como – e que tinham a obrigação de os denunciar. Acontece que este tipo de crime só passou a ser público em 2020. E que diferença é que isso faz, perguntarão?
Pois bem, se um crime não está classificado como público, então só a vítima – ou os seus pais / tutores, caso seja menor – o podem denunciar. Já agora, um crime semipúblico pode ser denunciado por qualquer pessoa, mas só haverá investigação se a vítima maior de 16 anos ou o seu tutor apresentarem queixa – e isto é importante, porque uma queixa pode ser retirada a qualquer momento pelo queixoso.
Acontece também que, até muito recentemente, esse tipo de crime prescrevia 5 anos após o jovem em questão fazer 18 anos. Em 2020 foram aprovados projetos de lei que aumentam em muito este prazo, mas não terão, claro, efeitos retroativos.
Entretanto, tanto a Polícia Judiciária como a própria APAV são unânimes, a maior parte dos casos de abuso sexual de menores decorrem no seio da família, sendo, pois, perpetrados por familiares ou pelo infelizmente muito verdadeiro cliché de um “amigo de longa data da família”.
Seguem-se professores ou outros ensinantes e, coisa de que nunca se fala, outros jovens, também eles menores mas bem mais velhos do que as vítimas. Mas sobre isto falarei mais adiante.
E lembro que a mutilação genital feminina também está na lista desses crimes, para além dos mais óbvios como violação, coação sexual, etc.
Ora se as vítimas de padres dizem que nunca falaram do assunto devido à posição do padre na sociedade de então ou porque ninguém acreditaria nelas, acham que a situação é melhor se for um pai, tio, avô, primo ou outro familiar com quem a vítima convive diariamente?
Pior ainda, ouvimos frequentemente casos de raparigas que, quando arranjam finalmente a coragem de confessarem o que se passa à mãe, por exemplo, são acusadas de estarem a inventar tudo ou, situação mais frequente do que se poderia imaginar, de terem sido elas as sedutoras!
E não esqueçamos que num caso de abusos sexuais no seio da família, o criminoso raras vezes se restringe a uma vítima, costuma estender as suas “atenções” a todos os membros que estejam à mão e na faixa etária correta. E um pai que abusou das filhas ou dos filhos não se coibirá certamente de o fazer também às netas ou netos. Mais grave ainda, o seu comportamento, que raras vezes é secreto no meio familiar, acaba por ser adotado como normal pelos filhos mal estes atinjam idade suficiente.
Ouve-se também muito que “o padre ameaçou-me” e por isso tive medo de o denunciar. Mais uma vez pergunto, um familiar ou visita habitual da casa não está bem melhor posicionado para o fazer? É que muitas vezes nem precisa de fazer uma ameaça concreta, infelizmente este tipo de abusos está muitas vezes presente em ambientes de violência doméstica.
Já agora, um pequeno “detalhe”. Ouvindo e lendo notícias, fica-se com a sensação de que os pedófilos atacam indiscriminadamente qualquer menor. Mas não é assim, há-os de todos os tipos – leia-se, com faixas etárias preferenciais de onde não saem. Ou seja, um criminoso que abusa de rapazes ou raparigas entre, digamos, os 13 e os 15 anos, nunca tocaria em alguém mais novo, a menos que pense que é mais velho do que é de facto. Foi por isso que, quando anunciaram, com grande aparato, que aquele alemão preso por vários casos de abusos a raparigas adolescentes poderia ser o culpado do desaparecimento de Maddie, uma vez que estava no Algarve nessa altura, achei logo isso muito pouco provável – e a verdade é que não se voltou a falar do assunto.
E por falar em idades, porque será que se um adulto tem sexo com uma menor, mesmo que esta tenha 17 anos, é pedofilia, mas se um marmanjo de 42 casar com uma rapariga de 14, então está tudo bem desde que os pais tenham dado o seu consentimento? E não esqueçamos que há países em que as raparigas podem casar aos 12 e a brigada do “respeito pelos costumes” quer que essas uniões sejam aceites na Europa, mesmo quando envolvem raparigas já cá nascidas enviadas para lá na idade certa apenas para serem “vendidas” – sim, é o termo certo – a um marido interessado na residência automática neste continente que essa união lhe trará.
Voltando aos jovens, há agora um novo tipo de assédio / abuso sexual, o via Internet, mais especificamente, via redes sociais. É quase sempre perpetrado por rapazes e incluem, por exemplo, irem convencendo raparigas a tomarem atitudes cada vez mais sexualizadas “por amor”, desconhecendo estas que essas imagens ou vídeos irão ser amplamente divulgados ou até vendidos.
E esta é apenas uma das muitas formas de abusos sexuais virtuais, como lhe chamam.
Este link da APAV (https://apav.pt/care/index.php/informacao-para-adult-s/violencia-sexual-online) tem um texto muito esclarecedor sobre Violência Sexual online, nomeadamente o Grooming.
E para algo mais detalhado, há este PDF que se pode descarregar: https://apav.pt/cibercrime/images/cibercrime/4NSEEK/4NSEEK_Online_Child_Sexual_Abuse_Exploitation_Analysis_PT.pdf
Daí a minha pergunta inicial: com a maioria dos casos a darem-se no seio da própria família do menor e com os novos tipos de exploração sexual existentes, porquê este enfoque exclusivo na Igreja? Não seria bem mais útil criar uma comissão ou algo similar que recebesse denúncias de abusos de todos os tipos, independentemente de quem os comete, e que pudesse aconselhar as vítimas ou orientá-las num processo de denúncia?
E que tal um curso obrigatório para todos os pais sobre como minorarem os chamados “perigos” da Internet? Pois, entre aspas, leiam o meu post anterior, “A Internet não é perigosa” (https://luisaopina.blogs.sapo.pt/5-a-internet-nao-e-perigosa-2786).
Muito francamente, seria bem mais útil do que a Comissão criada com grande pompa e circunstância e que, digam o que disserem, não passa de uma autêntica caça às bruxas!
Para semana: O respeitinho é muito bonito! – Estamos sempre a ouvir dizer que se deve respeitar isto e aquilo, mas será que esse respeito se estende a todos?