Luísa Opina

Neste blogue comentarei temas genéricos da nossa sociedade.

66 - Ajudemos a sério

Fala-se muito em ser solidário, mas o que é que isso significa na realidade?

Para primeiro post de 2023 nada melhor do que falar em ajudar os outros. É que todos sabemos que entra na célebre lista de resoluções de toda a gente, a nível pessoal, institucional e, até governamental.

E eu aplaudo totalmente a intenção, sim devemos ajudar quem precisa, mas a minha grande dúvida é esta: será mesmo isso que andamos a fazer?

Peguemos em África, o destino de muitas dessas intenções e que será, pois, i grande enfoque aqui. Após décadas e biliões de dólares, em que é que ajudámos realmente? Bom, para além de encher os bolsos de governantes e todo o tipo de pessoas ligadas à sua distribuição, a nível nacional ou local...

Quantos mais biliões gastaremos até chegarmos, finalmente, à conclusão de que tem de haver uma outra maneira de ajudar, de facto, quem precisa?

Irei referir algumas pequenas coisas que, por muito menos dinheiro, teriam um tremendo efeito positivo na vida de comunidades isoladas em África e não só. E por uma pequenina fração do que se gasta atualmente...

Primeiro, painéis solares. Não estou a falar dos enormes, rígidos, que vemos em casas ou em gigantescas centrais. É que, muito graças ao programa espacial, diga-se de passagem, surgiu toda uma indústria de painéis portáteis, dobráveis, que se transportam como uma pastinha e são ideais para campismo ou locais isolados. Façam uma pequena pesquisa e verão.

É claro que a potência não é fabulosa (bom, condiz com o preço), mas já pensaram na diferença que faria numa aldeia perdida em África poder ter um pequeno frigorífico num posto médico para ter vacinas e outro material sensível? Ou para ter uma lâmpada, uma única lâmpada, em casa? E nada impede que não se ofereçam outros mais potentes para a povoação poder ter uma casa de convívio com televisão, luz, etc. Era certamente bem mais útil do que andar a negociar “compensações pelas alterações climáticas”.

E por falar em luz, conhecem esta? É a segunda versão – a outra era menos sofisticada, digamos. Mas o princípio básico é o mesmo, puxa-se a corrente, o que leva um minuto, e tem-se 2 horas de luz ou uma chamada de telemóvel de 15 minutos... Não é barata, mas lembremo-nos de que não há mais custos, como contas da luz mensais.

Há ainda a parte de cozinhar. Não é estranho que os ecologistas, tão preocupados com arbustos que irão desaparecer caso se faça uma albufeira, nada digam quando, diariamente, árvores e arbustos são cortados em África para fazer uma fogueirinha para cozinhar? Sim, uma fogueirinha, é que nem sequer fazem uma comunitária que todos usam – como o célebre forno existente até muito recentemente em muitas aldeias do nosso país.

Como sol é algo que não falta por esses lados, mesmo na época da chuva, que tal fogões solares? Há os de todos os tipos, podem até ser improvisados com uma caixa de piza, papel de alumínio e pouco mais. Li em tempos sobre uma aldeia nas montanhas do Chile que construiu, com material normal, uma fogão desses enorme onde de manhã os habitantes iam pôr os seus tachos e tachinhos.

O ideal, neste caso, até nem era oferecer fogões solares mas sim ensinar a fazê-los com o que houvesse no país. Façam uma pequena pesquisa e verão a enorme variedade possível.

Em termos de saúde, já ouviram falar na APOPO? Aqui vai o artigo da Wikipédia, tem a vantagem de estar em português. Chamam-lhes ratos, mas não o são de facto. Foram inicialmente treinados para detetar minas e tinham uma taxa de sucesso de 100 %. Mas descobriu-se que detetam a tuberculose, só pelo cheiro, e estão a ser usados para esse fim com grande êxito na Tanzânia.

Os pacientes fazem fila, o rato passa e, se para em frente a uma pessoa, esta é levada para testes a sério. Isto traduz-se numa tremenda poupança em dinheiro e, acima de tudo, na aceleração do processo. Como muitos dos que esperam o teste vêm de povoações a horas de Dar-es-Salam, terem de voltar uns dias depois para saber o resultado – muitas vezes negativo – levava a que muitos desistissem, ajudando, assim, à disseminação desta grave doença.

E em vez de milhões, custaria apenas uns milhares apoiar esta associação para que treine e sustente mais animais.

Mudando de assunto, passemos à água potável.

Há uma coisa chamada “redes de nevoeiro”, que capta a água do dito em redes de malha muito fina e a encaminha para reservatórios. Infelizmente, funcionam melhor em zonas altas e secas. O Quénia já as está a usar (como mostra este artigo em inglês ou este, também em inglês).

Mas... como muitos que viveram em África sabem, há a célebre “cacimba” matinal. Que tal fazer umas experiências para ver se também resultam? É que os ditos depósitos podem ser uns meros bidões e nem que saiam apenas uns litros de água por dia, sempre poupam umas caminhadas...

Enfim, não falei em nada de muito sofisticado, são tudo coisas que já existem, bastava pensar em implementá-las. Mas, atenção, sermos nós a fazê-lo ou dar a ajuda a organizações credíveis e não enviar simplesmente dinheiro a países para que o façam...

Já agora, estas medidas também podiam ser implementadas em Portugal. Já pensaram nos muitos idosos que vivem em aldeias isoladas em casas que já não têm condições de habitabilidade e que passam horas a recolher paus e pauzinhos para tentarem manter a lareira acesa, a sua única fonte de calor? E que é, frequentemente, insuficiente devido às muitas fissuras e problemas nas paredes e telhados.

Que tal canalizar parte do entusiasmo com que jovens partem para o Haiti ou África para construir casas a quem tem muito bom corpo para o fazer para estas situações? Ou dedicar-lhes um pouco de atenção e ver o que se pode fazer para lhes dar uma vida melhor? Como mostrei acima, nem é preciso muito dinheiro mas sim vontade de o fazer.

Para semana: Duas espécies diferentes. Refiro-me ao português em Portugal e ao português emigrado.

0