O tema forte dos últimos dias tem sido o custo do palco que se está a construir para a vinda do Papa durante a Jornada Mundial da Juventude. Não sou muito de teorias de conspiração, mas não posso deixar de reparar na enorme conveniência, digamos, de ter vindo mesmo na altura certa para retirar das primeiras páginas os muitos escândalos de governantes socialistas, a tremenda catástrofe que é a TAP, os protestos selvagens de professores e muitos outros assuntos todos eles nada benévolos para quem nos governa.
E a primeira pergunta que me veio à mente foi, precisamente, esta: se o projeto foi iniciado há mais de 2 anos – está, aliás, em fase de conclusão – porque é que só agora se lembraram do custo desta obra? É que se a ideia era atacar o atual Presidente da Câmara de Lisboa, bom, não o era quando tudo recebeu luz verde para avançar.
Mais ainda, estamos a falar numa obra de muitos milhões, que nos vai deixar requalificada mais uma das zonas ribeirinhas, à semelhança do que aconteceu com a Expo 98. E, quem ouvir os críticos, parece que só se vai fazer o palco ou, então, que este é a maior despesa!
Ora, se fosse apenas isso, até era capaz de ser. Mas, pelo que tenho visto, engloba muito mais do que um simples palco. E aos críticos da sua reutilização, não é precisamente naquela zona que se fazem vários concertos e festivais de verão? Melhor ainda, não seria ótimo retirar para lá os que se fazem atualmente em Algés e que causam grandes confusões na Linha de Cascais? E porque não ampliar aquela zona de lazer com uma renascida Feira Popular e, até, um parque com montanha-russa e similares?
Mas não é o seu uso posterior, ou não, o que me incomoda nesta polémica, mas sim o que só se pode chamar de indignação seletiva de “jornalistas”, políticos e muitos mais.
Lembram-se da Parque Escolar? A que foi criada pelo honestíssimo Sr. Sócrates e recebeu muitos, mas mesmo muitos milhões para renovar 332 escolas por todo o país e que, tendo gasto 2300 milhões de euros, acabou por só renovar 100? E mesmo estas...
Lembro-me de ter visto e lido na altura várias entrevistas com pessoas, da cor política correta, claro, que visitaram algumas dessas escolas renovadas e o que mais diziam era, “Está um luxo!” Pois, porque é isso mesmo que é preciso num estabelecimento escolar!
Ouvi, também, mas muito mais raramente, diretores dessas escolas a criticarem o que fora feito e o tremendo aumento nas despesas anuais que iam passar a ter, nomeadamente pelo tremendo aumento de janelas, sem vidros duplos, claro, azulejos por tudo o que era sítio, tornando muito mais difícil – e caro – aquecer e arrefecer o edifício, iluminação inadequada, mas com candeeiros muito estéticos, enfim, um sem fim de queixas, todas elas bem abalizadas, mas que, como eram inconvenientes, foram ignoradas.
E para quem se diz tão ecologista, essa grande bandeira da esquerda, nem um painel solar à vista!
Não acham que este, sim, foi um caso que merecia os rios de tinta gastos com o tal palco? E se querem derrapagens, bom, o que é que chamam a gastar em 100 escolas o que devia ser para 332?
Também, muito curiosamente, esta indignação é uns milhões de vezes superior à expressa com o caso recentíssimo das obras no Hospital Militar, que “só” custaram mais do triplo! Mas... o altar é que é o problema, apesar de estar a cumprir o orçamento.
Há, ainda, outro aspeto, o das críticas à Igreja, como se tivesse sido esta a exigir esta obra. Para começar, fomos nós que nos candidatámos à JMJ. E, para além de uma lista com os requisitos mínimos, sobretudo em termos de pessoas que têm de estar presentes, nada teve a ver com o projeto. Mas é um alvo fácil e sempre faz esquecer os verdadeiros problemas do país!
Já agora, por falar de derrapagens, lembram-se do que foi dito aquando da Expo e que serviu de pretexto para substitui o Comissário por um outro mais do agrado dos Socialistas? Pois bem, mais uma vez, visão seletiva. Houve, sim, um aumento nos custos, mas que resultou, em grande parte, de terem sido acrescentadas mais obras ao projeto inicial já depois do orçamento ter sido fechado. Curiosamente, ou talvez não, uma vez mudado o Comissário já ninguém quis saber de custos ou do cumprimento das contas!
Exceder o orçamento em obras públicas é de tal modo rotina que o contrário causa até espanto. Quando visitei o Pilar da Ponte, estive a ler as informações sobre o projeto e a sua construção, disponibilizadas mal entramos. Ao mesmo tempo que eu tinha chegado um grupo de uns cinco jovens, pelo aspeto deviam ter cerca de 20 anos. Pois bem, às tantas uma das raparigas chama o grupo, toda excitada. É que tinha lido que a obra tinha sido executada bem antes do fim do prazo e, espanto dos espantos, abaixo do orçamento! Pois é... se fosse agora, até havia um ataque cardíaco coletivo...
Para semana: O país do bota abaixo. Adoramos, supostamente, ter heróis, mas, sobretudo, para depois os espezinharmos.