Luísa Opina

Neste blogue comentarei temas genéricos da nossa sociedade.

71 - O país do bota abaixo

Adoramos, supostamente, ter heróis, mas, sobretudo, para depois os espezinharmos.

Ando para escrever este post desde o começo da “saga” da saída do Ronaldo do clube inglês, apesar de ser algo que me intriga há bastante tempo.

Basicamente, o povo português adora criar ídolos, até aí, tudo bem, quem não gosta? Só que o que nos diferencia de outros povos que fazem o mesmo é o facto de em menos de nada dedicarmos o mesmo esforço, tempo e energia a tentar derrubá-los.

O facto é mais frequente no futebol, penso que por ser a área que mais interessa a muitos dos portugueses, mas não se restringe a ele. Mesmo assim, pensem por instantes nos inúmeros treinadores e jogadores recebidos ou tratados como “salvadores da pátria” e que, pouco depois e sem que houvesse verdadeiramente uma razão para isso, passavam a ser alvos do ódio e desprezo coletivos. Aquilo que em bom português se chama “passar de bestial a besta”.

Também neste aspeto o Ronaldo foi um caso singular, aguentou-se mais do que é usual, apesar de também ter subido mais alto. Mas, enquanto os adeptos do clube inglês o elogiaram na altura da sua saída, aqui... bom, até parecia que tinha traído a nação! E as mesmas vozes que bem pouco tempo antes achavam que ele era o máximo não se coibiam de dizer que estava totalmente acabado – e afinal, parece que não...

Somos realmente grandes fãs do velho ditado, “o prego que sobressai leva martelada”.

Fica-me a sensação de que, sempre que alguém se destaca por algum feito, nem que seja um mero concurso televisivo, há uma espécie de arrepio nacional, uma quase reação alérgica que nos faz querer pôr imediatamente essa pessoa no seu devido lugar, ou seja, como mero membro da manada.

Mas a nossa singularidade não se fica por aqui. Ao contrário de muitos outros países, adoramos dizer mal do nosso. E não só entre nós, muito pelo contrário. Sempre que um estrangeiro critica algo, nem verificamos se há razões para o fazer, elevamos logo a fasquia da negatividade.

Lembram-se do caso Madeleine? E de como os pais criticaram a nossa Polícia por não ter fechado a fronteira? Fez-se logo coro, sem reparar que a dita estava a 15 minutos do hotel e que, mesmo que o desaparecimento se tivesse dado segundos antes de ser descoberto, o tempo que o paizinho levou a fazer chamadas para Inglaterra (facto nunca explicado, diga-se de passagem) antes de dar o alerta tinha dado para fazer esse percurso num verdadeiro passo de caracol.

Mas, parafraseando uma frase célebre, “não deixemos os factos interferirem”.

Basicamente, se alguém de fora diz “mata” em relação a algo que se passou aqui, ou lá fora mas com um português, logo o coro desata a berrar “esfola”, ou antes, “esfola, esquarteja e queima”.

Não sou adepta de elogiar o nosso país só porque o é ou de achar que tudo o que fazemos é bem feito ou, ainda, de desculpar tudo só por ser feito “por um dos nossos”, mas cair no extremo oposto também me parece ser péssimo.

E isto estende-se a todas as áreas. Por exemplo, se um português é preso algures por ter infringido uma lei local, por exemplo, dar a mão à mulher em público, é claro que é logo criticado “porque devia saber como as coisas são e cumpri-las.” Mas se um nacional desse mesmo país vem ao nosso e assedia uma mulher por não estar vestida “com decência”, então passa logo a ser, “coitado, não conhece os nossos costumes, há que desculpar.”

Pior ainda, aceitamos como factos provados qualquer acusação feita contra um português no estrangeiro. Como aqueles três rapazes acusados de “violação em massa” de duas espanholas, um caso que, quem o ouvisse com um mínimo de atenção, via logo que estava muito mal contado – já agora, o que aconteceu a esse assunto, depois de tanta publicidade? Mas se lermos e virmos as notícias da altura, o tom mais assanhado veio precisamente... de Portugal.

E para o caso de não me ter explicado bem, se eles realmente as violaram, merecem toda a condenação. Só que não automática, que tal começarmos por ver a história como deve ser e só depois tirar as devidas conclusões? Mas não, se alguém aponta um dedo a um português, é claro que é culpado!

Curiosamente, nada disto se aplica se a cor política da pessoa ou instituição for, digamos, a dar para o vermelhinho. Francamente, nunca consegui decidir se isso se dá porque, à partida, os portugueses não escolhem heróis desse lado ou, caso o façam, fazem-no já a pensar, lá no fundo, que se calhar as coisas não são bem como parecem ser, ou seja, que a estátua tem pés de barro – e assim nunca são apanhados de surpresa, haja o que houver. Querem exemplos? Pensem Sócrates e a sua reeleição. Ou Saramago, que até é quase um crime criticar... ou dizer que não se gosta.

Para semana: Coisas que me chocam. Do Sr. Marcelo a outros “servidores do público”...

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