Luísa Opina

Neste blogue comentarei temas genéricos da nossa sociedade.

76 - Lá em casa, todos bem!

Em que a casa é este nosso jardim à beira-mar plantado

Começo por um pequeno comentário, apesar de o título ser o de uma série com o Raul Solnado, a inspiração veio mais de um filme, “Stanno tutti bene”, com Marcello Mastroiani, em que um pai decide ir visitar os filhos, espalhados pela Itália, e, apesar da tremenda encenação que todos lhe apresentam, acaba por descobrir que tudo o que pensava saber sobre eles era apenas isso, teatro.

E nessa área, o nosso governo podia ensinar-lhes umas coisinhas.

Por exemplo, o SNS, o tal que está ótimo e recomenda-se, só tem um outro pequeno problema... mas nada de especial. E isto é repetido à saciedade, apesar de diariamente haver notícias de Urgências fechadas ou a abarrotar, de diretores que se demitem, de todo o tipo de problemas – pelo que percebi, o Santa Maria esteve até sem refeições suficientes para os pacientes!

Mas está tudo bem, sobretudo agora que acabaram com muitas das PPP. Curiosamente, hospitais que funcionavam lindamente nessa época, agora, que são totalmente públicos, estão um caos. Já só falta dizer, como o têm feito noutras áreas, que a culpa é do Passos ou, melhor ainda, do Cavaco.

Mas adiante, passemos ao “filho” seguinte.

O Sr. Costa anunciou, radiante, que nunca tinha havido tão poucos inscritos no Rendimento Social de Inserção. Seria de facto uma notícia ótima, se os que saíram o tivessem feito por terem conseguido, finalmente, estar inseridos na sociedade. Mas será mesmo assim?

Vejamos, o dito RSI já está a fazer 27 anos. Ou seja, como nunca houve limite ao número de anos que uma pessoa o pode receber, isso significa que muitos dos que entraram nos primeiros tempos estão agora em idade de reforma. Resumindo, saíram do RSI para passar a receber a reforma dita social! Que bom, é mesmo uma ótima notícia para os bolsos dos portugueses!

A única vantagem deste anúncio é que, pelo menos, goza de originalidade, é que o seu antecessor costumava “embandeirar em arco” com a entrada de mais gente para o dito RSI, coisa que, diga-se de passagem, nunca entendi. Devemos mesmo ficar contentes por haver mais gente a não fazer nada e a receber dinheiro dos nossos impostos?

E venha agora o filho Ensino. Perante o cenário selvagem, sim, selvagem, a que assistimos atualmente, o que faz o Governo? Continua a dizer que ensino público é que é bom, a falar com os “grevistas” e a contemporizar em datas de avaliações e tudo o mais.

Perante esta guerra aberta por interesses de classe – pelo menos já deixaram de dizer que lutam pela qualidade da educação – não era altura de entrar em vigor o celebérrimo e tão criticado cheque educação? Mais ainda, liberalizando ao mesmo tempo e totalmente a escola que um aluno pode frequentar, desde que haja vagas.

Como o dinheiro é afeto ao aluno e não à escola, as que não atraíssem gente suficiente tinham um ano para alterar a situação ou fechavam com despedimento de toda a gente.

Mas não, o ensino está ótimo... e até está, se a intenção é criar semianalfabetos que caem em todas as mentiras e inverdades (estes termos não são totalmente sinónimo) e que, acima de tudo, não sabem pensar por si e analisar problemas e situações.

Filho seguinte, a Justiça. Ficámos a saber que Portugal está preparado para pôr em ação a ordem do TPI para a prisão de Putin. Fantástico! Entretanto, o assassino do polícia à porta de uma discoteca continua a monte e nem pedido à Interpol houve, pelo menos que eu saiba. E isto para não falar nos muitos outros casos que aguardam há anos, muitas vezes apenas para se ter o aval de uma decisão judicial – como as dívidas incobráveis, por exemplo, enquanto não há o documento continuam a fazer parte das contas anuais da empresa, apesar de esta bem saber que nunca recuperará o dinheiro. Mas estamos preparados para prender o Putin, ou seja, estamos bem e recomendamo-nos.

E vamos ao penúltimo filho, a habitação. Falei disso na semana passada, mas acrescento agora uma pequenina coisa. É que, de acordo com quem nos governa, o aluguer compulsivo foi um projeto do mau do Cavaco! Só que não foi. O que se pensou fazer na altura tinha unicamente a ver com prédios em mau estado, pior ainda, em risco, de que o Estado tomaria conta caso o proprietário não quisesse ou não pudesse fazer as obras necessárias para o preservar – mas só isso.

Para último, fica o melhor filho, a economia. Ou, mais especificamente, o enorme aumento que estão a sofrer bens essenciais. Passámos por várias fases, desde uma Ministra da Agricultura preocupadíssima com o preço das cebolas a projetos extremamente vagos de pôr um limite superior nos preços e sabe-se lá que mais, medidas fabulosas que iriam imediatamente garantir a falta de uma série de produtos no mercado e o regresso em força do mercado negro. Última versão? Talvez, note-se bem, talvez baixar o IVA de alguns alimentos.

Ou seja, como sempre, uma mão cheia de coisa nenhuma, mas tudo muito bem anunciado como resposta a “pequeninos” problemas que, ou não têm grande peso ou, caso o tenham, são... adivinharam, culpa do Passos ou do Cavaco, culpa do capitalismo, da guerra na Ucrânia, do Alojamento Local, enfim, de tudo menos deste Governo. E como poderia este ter culpa fosse do que fosse quando “lá em casa está tudo bem”?

Para semana: O patriarcado A propósito da demissão da primeira-ministra da Nova Zelândia

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