Há umas semanas, demitiu-se a primeira-ministra da Nova Zelândia. Até aí, tudo bem, até a afirmação de que saía “porque era a altura certa” e nada tinha a ver com a queda brutal da sua popularidade e da do seu partido é apenas “a treta” do costume. Mas as coisas entram no bizarro quando acrescenta que quer sair para estar com a filha pequena e que agora pode finalmente casar com o seu namorado – a sério, o que é que a impedia de o fazer?
Segundo parece, não conseguia equilibrar vida profissional e familiar e a culpa é... do patriarcado. Francamente, não entendi. Será que achava que podia ter um cargo de primeira-ministra em part-time?
Mas a postura das supostas feministas em relação ao avanço das mulheres na sociedade já há muito me faz confusão, até pelos chavões que usam.
Já toquei neste assunto em dois posts anteriores, A (des)igualdade de género e São as mulheres que oprimem as mulheres, mas sob outras vertentes. Desta vez irei concentrar-me apenas em mulheres em lugares de responsabilidade, seja na política, seja no mundo empresarial ou outros.
Um dos mitos muito divulgados por essas novas feministas é que se fossem as mulheres a mandar as coisas seriam melhores, não haveria guerras, abundaria a empatia e as soluções negociadas, enfim, o Paraíso na Terra. Daí haver mulheres dirigentes que contam para elas e outras que não contam.
Em política, por exemplo, nem querem ouvir falar de Margaret Thatcher. Ora seria de pensar que a chamada Dama de Ferro seria o ídolo de qualquer feminista que se preze. Subiu a pulso e apenas graças às suas qualidades – sim, na altura não havia quotas – e conseguiu ter uma vida familiar boa em paralelo com a sua brilhante carreira política. Mais ainda, muitas das frases que lhe deram fama poderiam ser vistas como um verdadeiro estandarte do feminismo – que, diga-se de passagem, ela odiava. Por exemplo, e estou a parafrasear, se queres que algo seja dito, pede a um homem, se queres que seja feito, pede a uma mulher...
Mas não, Thatcher não era o tipo de mulher considerado “certo”.
O mesmo aconteceu com Angela Merkel. Ora pensem bem, uma mulher que sobe até bem alto na Alemanha de Leste e, após a reunificação, faz o mesmo na nova Alemanha? Sem quotas, repito... Não seria de esperar que fosse apontada como um exemplo a seguir?
Claro que não! As ditas feministas preferem as dirigentes “soft” que têm surgido na Escandinávia, Nova Zelândia, etc. que, muito francamente, chegaram ao topo dos respetivos partidos porque, segundo foi dito, era altura de terem uma mulher dirigente. E, já agora, aqui para nós que ninguém nos ouve, sabem o nome de alguma? Ou o que têm feito pelos seus países?
Pior ainda, se alguma dessas dirigentes tão apreciadas toma uma decisão “não feminina”, como restringir a imigração ou apoiar a Ucrânia, por exemplo, chovem logo as afirmações de que não é “uma verdadeira mulher”.
O mais curioso é que cresci em pleno patriarcado – pelo menos é o que me dizem – e nunca ouvi essa frase, apesar de ter escolhido um curso muito pouco comum entre raparigas nessa época (Engenharia Eletrotécnica).
Mas agora ouço-o continuamente da parte de quem defende, supostamente, os interesses das mulheres. Querem até dizer-me que ideias políticas devo ter, ou antes, que não devo ter, isso se quiser ser vista como uma mulher “a sério”. Sim, ouvi uma comentadora inglesa dizer que uma mulher que vota no Trump não é mulher!
Para terminar a parte política, vou dar um exemplo português que mostra claramente o “ter preso por ter cão e por não o ter” que grassa nesses novos movimentos.
Lembram-se de quando Assunção Cristas era ministra e teve uma criança? Pois bem, a dita ainda não tinha nascido e já diziam que se devia demitir porque era indecente deixar as suas funções durante tanto tempo por causa da licença de maternidade. Mas como não a tirou, voltando logo ao trabalho, as mesmas vozes ergueram-se em protesto porque, adivinharam, “uma mulher a sério” teria ficado em casa...
Passando ao mundo empresarial, vou só referir o que se tem passado com a TAP, ou antes, com as duas principais vozes femininas ligadas a toda essa polémica. Refiro-me, claro, a Christine Ourmières-Widener e a Alexandra Reis. Uma, a francesa, com uma vastíssima experiência profissional na área de companhias aéreas. A outra, com um saltitar constante de lugares em empresas públicas, sempre na área de vendas, segundo dizem, e bons conhecimentos entre a classe política – sim, diz-se apartidária, mas será que acha que foi nomeada Secretária de Estado por sorteio público?
A grande questão aqui é a sensação que me fica de que acolhe mais simpatias do que a francesa porque esta é dura e, acima de tudo exige que o pessoal da TAP cumpra as suas obrigações (isto é o que dizem os sindicatos). Ou seja, não é “feminina”...
O problema é que vemos isto por todo o lado. Há inúmeras mulheres em cargos diretivos importantes, a que ascenderam por mérito próprio, só que não ouvimos falar delas. Quem ouvir o tal suposto movimento feminista, não existem – pelo menos só ouvimos exigências de quotas e choradinhos sobre a presença quase exclusiva de homens no topo.
E isto estende-se a todas as áreas. Há uns três anos, um amigo meu que reside há muito na Escócia decidiu casar em Portugal e uma sua amiga queria entrevistar mulheres cientistas portuguesas. Pediu ajuda para arranjar alguns nomes e eu fiz uma rápida pesquisa. Pois bem, em minutos arranjei mais de trinta nomes. E fiz questão de escolher apenas pessoas que tinham obra feita reconhecida internacionalmente, colaborações com a NASA, por exemplo. Francamente, fui a primeira a ficar espantada.
Não acham que seria boa ideia divulgar as suas histórias para servirem de inspiração às jovens que ainda estão no liceu? Ou as das muitas mulheres de topo em diversas áreas?
Só que a divulgação de todos estes casos de sucesso, bem merecido, repito, não por quotas, iria impedir o contínuo bramar contra o patriarcado...
Para semana: Nacionalizar é bom para a economia! Pois é...