Este post poderia muito bem ter, como título alternativo, “Como não decidir tomando decisões”, um pouco à semelhança de um meu post anterior, Mentir dizendo só a verdade, prática que a esquerda e muitos jornalistas dominam na perfeição.
Peguemos, como exemplo, no famigerado novo aeroporto de Lisboa, de que ouvimos falar há décadas. Sim, décadas, o assunto vem ainda de antes do 25 de abril.
Esta semana houve quem publicasse a capa de um livro intitulado, precisamente, “Estudo da localização do novo aeroporto de Lisboa”, uma publicação do Ministério das Comunicações de... 1972! Já agora, a opção escolhida era Alcochete.
Mas este nem sequer é o primeiro estudo sobre o assunto. Em 1969 fez-se uma primeira análise da situação, ou antes análises, por parte do GNAL, o recém-criado Gabinete do Novo Aeroporto de Lisboa. Para além da manutenção na Portela, foram estudadas quatro outras localizações, Fonte da Telha, Montijo (!), Porto Alto e Rio Frio, indo a preferência para Rio Frio. Chegou-se, até, a fazer levantamentos naquela zona, nomeadamente para as pistas a criar.
É claro que tudo parou com a Revolução, fazendo-se depois tábua rasa de tudo o que já fora feito anteriormente, como aconteceu, aliás, em inúmeras outras áreas.
Mas isso até nem seria muito grave se não fosse a tal prática vigente do “não decidir tomando decisões”. É que depois de várias flutuações e anúncios, parecia que tudo estaria finalmente decidido, ficando o novo aeroporto no Montijo. Só que... esta semana surgiu, subitamente, a opção de Santarém, não mencionada anteriormente mas que, segundo dizem inúmeros especialistas, seria mesmo a escolha óbvia por todos os motivos e mais um.
Até pode ser que tenham razão, apesar da dúvida que me fica sobre o tremendo atraso deste anúncio – ou seja, se é assim tão melhor do que todas as outras indicações, porque não foi indicado há mais tempo?
Mas a verdadeira questão é que o lançamento do nome de mais um local vai implicar novos estudos de viabilidade, de impacto ambiental, enfim, de tudo e mais alguma coisa que, claro, levarão anos – fora atrasos posteriores devido aos usuais protestos, gritos e ranger de dentes que acompanham sempre obras de grande envergadura.
Resumindo, a decisão de incluir Santarém implica não decidir a localização do novo aeroporto!
Mas há inúmeros exemplos do mesmo tipo.
Veja-se o que aconteceu com as recentes medidas para disponibilizar casas. Foi anunciada com grande aparato a “decisão” de obrigar os donos de casas devolutas a alugarem-nas ao Estado, que depois as alugaria a quem precisasse. Só que não se tinha estudado o enquadramento legal e constitucional, o seu real impacto na resolução deste grave problema, enfim, nada tinham feito. E com este verdadeiro “carro à frente dos bois”, tomou-se, sim, uma decisão só que, na prática, nada ficou decidido.
Mas não há problema, o importante é ir tomando decisões e, acima de tudo, anunciá-las com rufar de tambores, foguetório e tudo o mais, tema aliás de um post anterior, É preciso é anunciar!
No fundo, pensando bem, até nem é chocante isto acontecer, vem um pouco à semelhança da atual definição de pesquisa. É que antigamente, nos maus velhos tempos, estudavam-se os factos e tentava-se chegar a uma teoria que os pudesse explicar. Agora faz-se o contrário, pega-se numa teoria e procuram-se factos que a comprovem e apenas estes, claro, os que não “encaixem” são pura e simplesmente descartados.
E o modo de decidir usa o mesmo esquema. Primeiro vêm as decisões, rapidíssimas e em cima do acontecimento, numa clara prova de dinamismo, e só depois se pensa nos estudos e outros elementos que possibilitem a sua execução ou, pior ainda, que mostrem, até, se a dita “decisão” é ou não viável.
E com a lentidão com que tudo se faz neste nosso belo país, mais os tais protestos inevitáveis e que levam sempre a mais estudos, análises e comissões de avaliação, quem está no poder pode passar décadas a tomar decisões sem nunca ter realmente de decidir nada.
Detalhe curioso, quando chega a altura de eleições, essas ditas decisões são usadas como trunfo para provar que se fez imenso e que, por isso, o povinho, distraído, pelos vistos, deve voltar a votar em massa em quem tanto labutou para criar riqueza e bem-estar nos governados.
E continuará a ser assim, pelo menos não vejo grandes hipóteses de aparecer, finalmente, alguém que berre, alto e bom som, “O rei vai nu!” Ou, caso apareça, será imediatamente classificado de reacionário, saudosista, fascista, enfim, os miminhos do costume.
Uma última nota, falo por mim, claro, mas estou fartíssima da infindável saga do aeroporto e acho, muito francamente, que 54 anos são mais do que suficientes para decidir a sua localização. Repito, decidir e não tomar uma decisão...
Lembremo-nos de que todo o projeto de levar homens à Lua levou menos de uma década!
Para semana: E viva o 25 de Abril! O que supostamente significa comparado com a realidade