Quanto mais observo a sociedade e o povo português mais me convenço que somos realmente únicos – pelo menos na minha experiência... E o título deste post refere-se a uma característica que, embora exista noutros países, claro, toma no nosso um aspeto extremo. Passo a explicar.
Há muitas falhas e problemas no nosso país, como todos sabemos, mas, infelizmente, o mesmo se passa em maior ou menor escala noutros. Só que tenho a distinta impressão de que somos o único a acreditar em contos de fadas ou, no mínimo, em magia. Sabem, agitar uma varinha de condão e pronto, problema resolvido, seja ele qual for.
E porque digo isto? Bom, vamos a um exemplo bem atual, as obras que se começaram a realizar em Lisboa.
O problema das inundações quando chove afetam a cidade no mínimo há décadas. E quando ocorrem ouvimos sempre as muito justificadas queixas de que nada se faz para resolver definitivamente a questão. Pois bem, está-se finalmente a fazer algo e qual é a reação dos queixosos anteriores? Alegria e satisfação por as cheias passarem a fazer parte do passado? É claro que não! Nem sequer falam nisso.
Pois é, o “nada se faz” deu imediatamente lugar a queixas e protestos pelos incómodos que as ditas obras estão a causar e que continuarão a provocar durante bastante tempo. E é isso que me deixa confusa e a achar que somos mesmo um povo único.
Senão, vejamos. Sabe-se há muito que este problema específico só se resolve fazendo obras profundas de saneamento. Ora por definição, este está enterrado, por isso qualquer alteração ou ampliação do sistema iria implicar corte de ruas, problemas de trânsito e de estacionamento, enfim, grandes incómodos.
Mas qual é a alternativa? Não fazer nada e deixar que a cidade alague quando chove mais ou quando a chuva coincide com a maré alta? É que, a menos que se possa usar a tal varinha de condão para fazer literalmente a obra num piscar de olhos só há duas alternativas: não fazer nada ou causar incómodos e problemas temporários. Ou seja, partir os ovos para obter uma bela omeleta.
Mas há muitos mais exemplos, para mal dos nossos pecados. Ainda está para vir o anúncio de uma obra, por muito fundamental que seja, que não seja imediatamente seguida da lista de incómodos ou problemas que vai causar.
Veja-se o caso das energias alternativas. Há manifestações e protestos para acabar com o uso do petróleo e do carvão, normalmente por parte de quem mais eletricidade consome nas suas vidas privadas, diga-se de passagem. Mas...
Não se podem fazer centrais hidroelétricas porque vão afogar árvores e arbustos e perturbar a vida animal da zona. Não se podem erguer parques eólicos porque são feios, fazem ruído – a sério, quem diz isto já esteve perto de um gerador desses? – e incomodam as aves. Painéis solares nos telhados das casas? Que horror, são tão feios! A sério, em tempos levaram o dono de uma moradia em Cascais a tribunal por ter instalado um dos primeiros aquecedores solares de água. O grande argumento? Estragava o estilo da casa e baixava o valor das restantes casas do bairro.
Ou seja, queremos energias alternativas mas não as queremos instalar.
E os exemplos continuam.
Queixam-se que uma determinada rua ou estrada está em péssimo estado e depois protestam com a mesma veemência porque o seu arranjo causa incómodos a quem por ali costuma passar.
Queremos reciclagem, mas refila-se com o barulho dos camiões que recolhem o lixo diferenciado, sobretudo o vidro e metal / plástico.
Nem a saúde ou o ensino escapam. Surgiu recentemente perto de mim um polo universitário, há muito falado e desejado. Pois, mal começaram as obras vieram logo as queixas de que iria aumentar muito as rendas de casa, trazer muita gente para a zona, trânsito, barulho, enfim, uma desgraça. E um hospital tem a mesma receção, acrescentando-lho as sirenes das ambulâncias.
Isto para não falar do comércio. Por exemplo, as tais mercearias de bairro, que foram insistindo em manter um horário que em nada se coadunava com a vida atual e de que os residentes locais tanto se queixavam. Mas quando abrem na zona supermercados que, esses sim, se mantém abertos até mais tarde e aos fins de semana, bom, lá vêm os queixumes de que “matam o comércio local”. Sim, porque o facto de as ditas lojas abrirem quando as pessoas já estão no emprego, fecharem antes de elas voltarem para casa e muitas vezes nem ao sábado de manhã abrirem nada tem a ver com isso...
Prestem atenção às notícias e, sobretudo, às muito populares entrevistas de rua e vejam se não tenho razão. É claramente um caso de preso por ter cão e preso por não o ter. Se não se faz, pois, este país é uma treta, nunca se pensa nos problemas das pessoas. Faz-se, que horror, ninguém quer saber dos problemas que isso acarreta.
Só uma pequena nota final, pensando bem a tal varinha de condão também não iria resultar. É que com tudo feito num piscar de olhos – ou antes, num agitar do braço – perder-se-ia o muito dinheiro que uma obra acarreta, sobretudo em Portugal com a “inflação especial” que ataca misteriosamente as nossas obras públicas (e não só). Resumindo, nem a magia escapa!
Para semana: Haja Coerência! As muitas (in)coerências dos políticos e bem-pensantes do nosso país