Alguns casos recentes têm-me feito pensar na coerência, ou antes, na falta dela, de que padece a nossa esquerda em geral e os nossos “bem-pensantes” em particular. Nem sequer se trata de “faz o que eu digo e não o que eu faço”, não, vai bem mais fundo do que isso.
Vejamos uns exemplos.
O PAN – sabem, aquele partido que só na terceira ou quarta reincarnação incluiu as pessoas no nome – saiu-se recentemente a dizer que não devíamos apoiar as famílias numerosas. E porquê? Bom, é que existem planeamento familiar e técnicas de contraceção disponíveis para todos, por isso quem tem muitos filhos é porque os quer ter e deve pagar por eles em vez de contribuirmos todos para o seu sustento.
Não tenciono discutir aqui o mérito desta lógica, só me intriga o seguinte. O PAN é um grande defensor do aborto livre e gratuito – ou seja, pago pelos contribuintes todos – e fartou-se de protestar com a recente decisão do Supremo Tribunal dos EUA a esse respeito. Ou seja, se uma mulher deseja abortar, tem de o poder fazer livremente e à custa de todos nós. Só uma perguntinha, essa coisa de haver planeamento familiar e contraceção não se aplica aqui? Ou será que há uma razão subjacente a tudo isto, ou seja, famílias pequenas mais aborto equivalem a menos gente no mundo, ou seja, mais fica para animais e plantas...
Tivemos também a profunda indignação do PS perante a manifestação que o Chega fez no Largo do Rato onde, para os mais distraídos, se situa a sede do dito partido. Chamaram-lhe de tudo, até “terrorismo institucional”, fora os insultos ao atual Presidente da Câmara de Lisboa por a ter autorizado. Curiosamente, há uns anos a fachada do CDS – quando este ainda era um partido com algum peso – foi vandalizada com grafítis insultuosos (e não só). Mas a reação dessa mesma esquerda foi outra, falaram em liberdade de expressão, da justa indignação das pessoas e, adivinharam, das conquistas de abril! Só numa coisa têm razão, as duas situações são totalmente diferentes. Temos num caso uma manifestação ordeira e devidamente autorizada e no outro vandalismo puro... mas o que conta é a cor política de quem dá e leva.
Passemos agora aos “migrantes”, como está na moda dizer-se, os que saem de cá e os que para cá vêm. Pois bem, recentemente o nosso estimadíssimo Sr. Costa decidiu conceder enormes facilidades de obtenção da residência em Portugal aos cidadãos de países CPLP, falando em amizade, justiça social e muitos outros chavões. Só que, e há sempre um senão, os portugueses que queiram ir trabalhar ou viver nesses países continuam sujeitos a todo o tipo de entraves e burocracias. Mas atenção, chamar a atenção para isso é racismo e xenofobia. É que, como disse em tempos um dirigente angolano num programa da nossa televisão, Angola é um país soberano e tem o direito de escolher quem lá quer viver ou trabalhar – já agora, esta declaração foi recebida com acenos de aceitação de quem estava a assistir. Bom, pelo menos ficámos a saber que Portugal não é um país soberano...
Viremo-nos agora para Sua Excelência, o Sr. Marcelo. Quando Cavaco Silva promulgou a Lei do Aborto, declarando numa comunicação ao país que era contra a sua consciência mas que o fazia por respeito para com a Assembleia da República, foi altamente criticado por não ter aplicado um veto por objeção de consciência. Mas agora temos a Lei da Eutanásia – já agora, consultem o post Os falsos sinónimos em que falo da confusão, deliberada, na minha opinião, entre eutanásia e morte medicamente assistida – e o nosso atual Presidente, depois de voltas e reviravoltas, é aplaudido por a ter finalmente promulgado, isto apesar de se saber que é contra a dita por razões religiosas. Curioso, não vi um único apelo à tal objeção de consciência nem uma única crítica por não ter feito uso disso.
Último tema, as chamadas “comissões de sensibilidade” ou lá como lhes chamam, enfim, um grupo de “bem-pensantes” que analisa textos e livros para lhes retirar tudo o que possa ofender – caso tenham andado distraídos, nem a Agatha Christie escapa! Pois, no tempo do mau do Salazar, cortavam-se coisas e proibiam-se outras porque podiam ofender a moral e os bons costumes. E estamos certamente todos fartos de ouvir críticas e vociferações contra a censura. Mas... não é isso que andam a fazer agora? Pior ainda, o que é que querem dizer com “que possa ofender alguém”? Eu, por exemplo, sinto-me ofendidíssima quando leio certas versões modernas da história portuguesa, sabem, a revisão completa de tudo à luz de ideias muito woke. Sendo assim, exijo que essas tais comissões tomem medidas para evitar a sua publicação. Pois, boa sorte em conseguir que me prestem atenção!
Sei que os seres humanos não têm, por natureza, tendência para serem coerentes, tendemos a classificar a mesma coisa de modos opostos consoante é a nosso favor ou contra nós. Não posso, pois, exigir coerência total a ninguém. Mas, francamente, sejam um bocadinho mais subtis no modo como o fazem!
Para semana: Voltemos à TAP. Ou, como alguém já lhe chamou, a essa “telenovela mexicana de quinta categoria”.